Vida Esportiva

'Guardiola tinha medo do caos': brasileiro ex-analista do Manchester City explica obsessões e legado do técnico

Ícaro Caldas, que trabalhou nas redes sociais do time entre 2020 e 2024, detalha bastidores táticos da era do treinador espanhol

Agência O Globo - 22/05/2026
'Guardiola tinha medo do caos': brasileiro ex-analista do Manchester City explica obsessões e legado do técnico
Guardiola - Foto: Reprodução

A saída de Pep Guardiola do Manchester City, anunciada nesta sexta-feira, marca o fim de um dos ciclos mais dominantes da história do futebol moderno. Para Ícaro Caldas, que atuou como analista tático nas redes sociais do clube inglês entre 2020 e 2024, o maior diferencial do treinador vai além da fama de “gênio”: Guardiola era movido pela busca incessante pelo controle do caos.

Obsessão pelo controle

“O controle do jogo era a principal obsessão dele. Pep sempre teve muito medo do caos, porque o caos ele não consegue controlar. Então, ele tentava controlar ao máximo todas as ações do jogo”, explicou Ícaro ao GLOBO.

Segundo o analista, essa obsessão moldava todo o comportamento do treinador no dia a dia.

“Acho que ele era até um treinador 'medroso'. Justamente por isso, trabalhava, estudava e se preparava ao máximo para não ser surpreendido pelo caos”, afirmou.

Bastidores e mudanças táticas

Ícaro acompanhou de perto a reta final da era Guardiola no City e revelou detalhes pouco conhecidos sobre a preparação do técnico espanhol. Um dos episódios mais marcantes ocorreu antes da vitória por 1 a 0 sobre o Arsenal, em 2020, quando Guardiola alterou o esquema da equipe poucas horas antes da partida.

“Ele treinou um novo sistema tático na manhã do jogo, durante 10 ou 15 minutos. Era um 3-4-3 com losango no meio-campo e o Sterling jogando centralizado. À noite, o City entrou exatamente daquele jeito e venceu o jogo”, recordou.

Evolução tática e pragmatismo

Apesar da associação histórica ao futebol de posse de bola, o analista acredita que a maior evolução tática de Guardiola aconteceu justamente quando ele aprendeu a ser menos “guardiolista”. Para Ícaro, o auge dessa transformação ocorreu na temporada 2022/23, quando o City conquistou a Liga dos Campeões, a FA Cup e a Premier League.

“A grande evolução do Guardiola foi ser mais pragmático. O City passou a usar mais bolas longas, menos posse, mais jogo direto. Stones e Ederson procuravam Haaland, e De Bruyne atacava os espaços. Isso antes seria quase impensável em um time dele”, explicou.

Ícaro relembra ainda uma vitória por 3 a 1 sobre o Arsenal, no Emirates, em que o City terminou a partida com apenas 30% de posse de bola e se defendendo em bloco baixo com linha de cinco.

“Ele entendeu que nem sempre dava para vencer da maneira como acreditava originalmente. Às vezes, precisava abrir mão disso e se adaptar ao jogo”, comentou.

O legado de Guardiola

Ao ser questionado sobre o melhor Manchester City da era Guardiola, Ícaro separa futebol jogado de competitividade.

“O time dos 100 pontos, de 2017/18, jogava um futebol absurdo. Era muito bonito de assistir. Mas o time da Tríplice Coroa era mais maduro, mais competitivo e mais preparado emocionalmente para a Champions”, analisou.

Mesmo assim, ele aponta a conquista europeia de 2023 como o momento mais marcante vivido no clube. Para Ícaro, Guardiola deixa como principal herança a transformação estrutural do futebol inglês.

“O futebol inglês mudou completamente por causa dele. Quando Pep chega, a Premier League era de um jeito; quando ele sai, é totalmente diferente. Hoje quase todo mundo quer jogar de uma forma parecida com a dele”, finalizou.