Vida Esportiva

Romário revela que não quer mais ser candidato a governador do Rio: 'Foi uma escolha ruim que fiz no passado'

Em entrevista exclusiva ao EXTRA, ex-jogador e senador elogia conduta do desembargador Ricardo Couto, interino no cargo

Agência O Globo - 15/05/2026
Romário revela que não quer mais ser candidato a governador do Rio: 'Foi uma escolha ruim que fiz no passado'
- Foto: Reprodução / Instagram

A Ferrari vermelha estacionada ao lado da mansão de Romário na Barra chama atenção não só pela imponência do modelo F430 de quase R$ 1 milhão. A placa é uma homenagem à caçula de seus seis filhos, com seu nome e data de nascimento: Ivy 1703. Portadora da Síndrome de Down, a hoje estudante de Artes Cênicas de 21 anos foi responsável por uma revolução na vida do Baixinho. Entre outras muitas mudanças, sua chegada alterou a rota do pentacampeão que tinha tudo para seguir no futebol depois de pendurar as chuteiras, mas escolheu trocar os gramados pelo Congresso — com a bandeira da luta pelos direitos das pessoas com deficiência. Hoje senador pelo PL, o ex-jogador de 60 anos abre o jogo sobre política na segunda parte da entrevista exclusiva ao EXTRA.

Lenda do futebol mundial, pai de seis, avô de três, senador, presidente do América e também podcaster. Como dá conta de tudo? Como é seu dia?

Fora tudo isso, ainda jogo futebol, faço peladinha, jogo futevôlei, dou minha malhada, minha nadada. Tudo isso contribui muito para que eu possa estar com a mente sempre bem aberta e ligado nas coisas que são importantes na minha vida, na vida da minha família, das pessoas que convivem comigo. Lá atrás, quando juntou tudo isso, cheguei a pensar: “Cara, será que vai dar certo?”. Mas graças a Deus, nesses quase três anos de America, parlamentar por 16 anos, como apresentador (da RomárioTV no Youtube) há um ano e três meses, avô há quase quatro anos e pai já tem 35... É muita coisa, mas dá para conciliar tudo, estou de boa. O mais importante, primeiro, é que sou um cara bastante saudável. Obrigado, Papai do Céu. E segundo: estou feliz com tudo que estou fazendo. É isso que importa.

Gosta mais de ser senador ou de ter sido atacante? O que é o melhor e o pior em cada um?

Direta ou indiretamente, os dois têm relação com o povo. O futebol é o esporte mais praticado do mundo, é o mais amado. Nem por isso você deixa de ser odiado também. Quem joga no Flamengo, o torcedor do Vasco não gosta e vice-versa. Quem joga no Brasil, o argentino acha ruim. Na política, principalmente nesses últimos anos, existe essa polarização de esquerda e direita. Sou de um partido de direita, então com certeza existe, por parte do outro lado, um descontentamento natural. E, até na própria direita algumas ações minhas descontentam esse eleitor. Mas faz parte da vida política.

Há alguma outra semelhança?

O que a política tem de semelhança com o futebol é que é um jogo coletivo. Eu jogava com mais dez, nove da linha e o goleiro. Precisava deles para fazer gol e para ganhar. Na política, não é diferente. Preciso muito das pessoas. Quando eu tenho ideia de um projeto, dependo daquele voto positivo para ele acontecer. No caso do Parlamento, vereador, deputado estadual, federal, senador, você sempre vai precisar dos outros para que aquilo que você quer realizar aconteça.

Prefere falar de futebol ou de política?

Hoje sou político e, dependendo do que se fala, falar de política é interessante. Mas futebol está no sangue, é sempre melhor falar de futebol.

Houve resistência no Congresso quando você chegou, por ser ex-jogador?

Acredito que essa resistência aconteceu, sim. Talvez comigo um pouco menos do que com outros jogadores que já passaram por lá como deputados federais, pelo fato de eu ser o Romário, pela representação que eu tinha não só no país, mas no mundo, pela história que construí no futebol. Mas a resistência existe. Só diminui, no meu entendimento, quando você mostra que está ali para trabalhar e mudar a qualidade de vida das pessoas. Ao longo desses 16 anos, consegui fazer isso.

Acha que conseguiu conquistar credibilidade?

Consegui. Estou aqui até hoje. Fui deputado federal por quatro anos e depois fui eleito o senador mais votado da história do Rio de Janeiro, algo que continua até hoje. Na minha reeleição, muita gente não acreditava que seria possível. Eu acreditava, meus amigos, as pessoas que trabalham comigo acreditavam e, principalmente, meus eleitores acreditaram. A votação não foi tão expressiva quanto a primeira. Se não me engano, foi pouco mais da metade, até porque eram candidatos diferentes, outra época e outro modelo de eleição. Mas consegui. Estou nessa luta até hoje. Muitas crianças me veem como um vencedor e pensam: “Por que um garoto da favela não pode ser senador um dia?”. Tenho muito orgulho de servir como exemplo nesse caminho.

Tem mais “trairagem” na política ou no futebol?

Percentualmente, acredito que na política exista até mais "trairagem" que no futebol. Mas, no meu caso específico, em relação às minhas propostas e projetos de lei, esses “traíras” eram minoria. Então consegui passar bem por isso e, se Deus quiser, vou continuar conseguindo.

Falando do Rio: hoje estamos sem governador eleito. Quem acha que deveria assumir?

Neste momento temos um desembargador (Ricardo Couto de Castro) exercendo o cargo de governador, e, na minha opinião, ele tem feito um trabalho interessante para o Rio, principalmente na questão econômica, tirando algumas pessoas que nem sei por que estiveram lá ao longo desses anos. Hoje não tenho um nome para dizer. Só espero, como qualquer fluminense e carioca, que a população escolha alguém que faça bem ao estado e que não caia nas tentações que fizeram outros governadores serem presos ou envolvidos em escândalos. Isso é muito ruim para o nosso estado.

Pensa em voltar a disputar eleição para governador, como fez em 2018?

Hoje não tenho mais vontade de ser candidato a governador. Foi uma escolha ruim que fiz no passado, porque, no fundo, eu me achava preparado, mas não estava.

Ao fim do seu mandato, pretende continuar na política?

Tenho mais quatro anos pela frente. Hoje, digo que pretendo disputar a reeleição ao Senado. Eu me sinto preparado, competente e capacitado para isso. Mas a política é muito dinâmica. Muita coisa pode acontecer até lá e mudar qualquer planejamento.