Vida Esportiva

Coletivo de corrida de Niterói incentiva mães a correrem com os filhos e recebe integrantes da Baixada Fluminense

Nikiti Run Club, que já levou 600 pessoas para praticar corrida na mesma noite, promove encontros toda quarta-feira

Agência O Globo - 13/05/2026
Coletivo de corrida de Niterói incentiva mães a correrem com os filhos e recebe integrantes da Baixada Fluminense
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Sob o olhar e proteção da estátua do cacique Araribóia, na região central de Niterói, o coletivo de corrida Nikiti Run Club se reuniu mais uma vez para uma "quarta love"— noite de corrida quinzenal que reúne os membros do grupo, sejam estreantes ou experientes.

Qualquer um que passasse pela Avenida Visconde do Rio Branco por volta das oito da noite, em direção à orla da Praia Vermelha, poderia se perguntar "o que é isso?" ao se deparar com um grupo interminável de pessoas correndo juntas animadas já no fim de uma quarta-feira qualquer.

Também poderia haver aqueles que fossem inspirados pelo espírito coletivo e disposição do grupo que, na ponta do pelotão, deixassem em posição de destaque algumas mamães que levavam seus filhos e filhas para a rua.

Observadores de passageiros notariam, também, que para essas mães, acompanhados de parceiros e parceiros de caminhada e corrida ou de carrinhos de bebê, o importante mesmo era movimentar o corpo, deixando um passado de dores e frustrações para trás.

Andrea Evaristo, de 40 anos, levou as filhas de dois anos, Maria Alice e Maria Luiza, em carrinhos de bebê para acompanhá-la na corrida. Se não levasse as meninas, a manicure não conseguiria participar da “quarta love”.

— Voltei a fazer funcional porque preciso ter físico para acompanhar o ritmo das meninas. O Nikiti Run Club (NRC) também me ajuda nisso — disse Andrea.

Ela conta que conheceu o coletivo através do marido, que corre há dois anos no centro de Niterói.

— Meu marido começou a correr depois que perdeu a mãe dele, há dois anos. Na corrida, ele conseguiu aliviar um pouco a dor e encontrou no NRC uma família que o abraçou, que ajudou nesse momento difícil. Foi por causa dele que conheci o grupo e, quando consegui ir, levo sempre as meninas — descobri.

Além do NRC, Andrea ainda tenta adicionar à rotina cansativa pelo menos três dias de academia: "É difícil, mas mãe dá um jeito pra tudo", disse.

Acompanhando Andrea, a cunhada Alessandra Elias, de 49 anos, também é mãe e adora correr com a filha Clarisse Duarte, 23, na “quarta amor”. Na última edição, a filha não esteve presente, mas a mãe conta que não fosse o incentivo dela não teria começado a se exercitar.

— Corri com o NRC pela segunda vez e só conheci o coletivo por causa da minha filha. Me sinto muito acolhida pelo grupo e tenho tentado conciliar a corrida de rua com minha rotina de trabalho — disse Alessandra, que atua como auxiliar de serviços gerais.

Segundo ela, o grupo de corrida incentiva todas as mães a levarem seus filhos para os encontros, porque muitas não faziam com quem deixava os filhos, impedindo a prática de exercícios recorrentes.

— A iniciativa da NRC em incentivo às mães para levarem seus filhos para correr é excelente; muitos não têm rede de apoio e permitem praticar atividades físicas por esse motivo. Acredito que o exercício traz benefícios físicos e mentais, principalmente para mães que, muitas vezes, acumulam uma tripla jornada: trabalho doméstico, trabalho formal e maternidade. Às vezes tudo isso junto é exaustivo, e ter um grupo que te incentiva e te acolhe é importantíssimo — completou.

Identidade na corrida de rua

— É uma retribuição do Felipe ao mundo pelo que a corrida de rua fez comigo — disse Felipe Duarte, de 39 anos, criador do NRC. Segundo ele o mote principal do grupo é a identificação.

Um pouco antes da pandemia, quando o embrião da corrida de rua surgiu na mente de Felipe após um quadro de depressão e de uma piora específica na saúde — o ex-produtor de eventos chegou a pesar 50 quilos —, ele começou a frequentar vários grupos, mas não se sentiu completamente incluído naquele ambiente.

— Quando você vai correr com um grupo, quer ser abraçado, quer conhecer pessoas com os mesmos desejos que você e tudo mais. Naquela época, todas as assessorias de corrida de rua de Niterói eram muito elitistas. Todo mundo era igual, todo se vestia igual, falava igual e não eram muito receptivos; tudo era muito seco — afirmou.

O organizador do coletivo disse, liberado, que o Nikiti Run Club cumpre esse papel de acolhimento, principalmente para mulheres, pessoas pretas e para a população periférica no geral. Ele conta que as ruas de Niterói recebem, a cada 15 dias, moradores de diversos municípios que vêm correndo com o NRC.

— A gente recebe gente de Maricá, de Ponta Negra, de Rio Bonito, Macaé, Belford Roxo... No último treino [15 de abril] a gente colocou mais de 600 pessoas na rua pra você ter ideia — comentou.

— E boa parte do coletivo é composta por pessoas pretas. Costumo dizer que o nosso espaço é um espaço de liberdade, sobretudo para as mulheres, que também representam boa parte do grupo. Isso é uma coisa que a gente preza muito aqui. A gente quer fazer um ambiente harmônico para todo o mundo. E o mais importante, eu acho, do Nikiti Run Club é justamente o fato de não só querer correr; as pessoas chegam nos encontros do NRC e falam assim 'cara, eu quero ficar' — completou.

O NRC existe desde 2020 e antes do início de toda “quarta amor”, Felipe se preocupa em abordar um tema social importante.

— Depois de todo encontro sempre tem alguém que me vem dizer 'Po Felipe, aquele sabe papo lá, nunca tinha pensado naquilo cara'. Por isso acho importante falar sobre todos os temas. É uma coisa para você voltar para casa refletindo e trocar uma ideia com o pessoal do seu trabalho, na sua janta quando voltar para casa — explicado o criador do coletivo.

Antes do dia das mães, Felipe fez o mesmo. Ele reforçou que muitas vezes as mulheres são submetidas a jornadas duplas de trabalho e, por isso, refez o convite para que todas as mães interessadas em fazer exercícios físicos levem seus filhos para a rua.

— Meninas, tragam seus filhos. Quero ver isso aqui cheio de criança, mas também porque eu sei que sem elas aqui, vocês não estariam aqui. Esse é um espaço de liberdade especialmente pra vocês — reiterou no megafone antes do treino.

Quem faz acontece

Felipe deixou claro ao GLOBO que o NRC só é o que é pelas pessoas que fazem o coletivo; isso inclui os voluntários, que ajudam na organização da "quarta amor". Vanessa Honório, de 41 anos, currículo do coletivo com a palavra “pertencimento”.

— Me tornar voluntário do coletivo aconteceu de forma muito natural, porque fui extremamente acolhida desde que cheguei. Não apenas como corredora, mas como pessoa, com minha história, minhas vulnerabilidades e minha trajetória. Dentro do NRC eu conheci pessoas completamente diferentes entre si: mulheres, homens, adolescentes, pessoas com deficiência, mães, pessoas de diferentes realidades sociais. E muitas delas chegaram ali buscando exatamente aquilo que eu também buscava sem saber: pertencimento.

Pra ela, atuar como voluntário é uma espécie de retribuição ao que o coletivo fez por ela — hoje eu sinto vontade de multiplicar tudo aquilo que recebi quando entrei. O Felipe [Duarte] sempre fala muito sobre ser multiplicador, e isso conversa profundamente comigo. Não há sentido de obrigação, mas de desejo mesmo. Desejo de fazer outras pessoas se sentirem acolhidas da maneira como eu fui — comente.

— E é isso que o NRC representa pra mim no fim das contas: acolhimento, pertencimento, representatividade e afeto. É um coletivo que transforma vidas às vezes de forma silenciosa e outras de forma barulhenta, mas sempre de forma muito profunda. Tenho muito orgulho de fazer parte desse movimento e muita gratidão por tudo o que vivi e construí dentro desse espaço — finalizou.

Próximo encontro

O coletivo se reúne novamente nesta quarta-feira (13), às 19h30, com direito a baile charme no fim do treino. A "quarta love" é o encontro quinzenal do grupo, que também realiza um treino especial uma vez a cada dois meses, sempre aos domingos, explorando diferentes distâncias e outras partes da cidade sorriso.