Vida Esportiva

Astro da Holanda, Gullit questiona artilharia de Neymar e Memphis nas seleções: 'Quais gols você lembra?'

Em entrevista exclusiva ao GLOBO, ex-companheiro de quarto de Ancelotti no Milan diz que números não bastam e cobra protagonismo em momentos decisivos

Agência O Globo - 22/04/2026
Astro da Holanda, Gullit questiona artilharia de Neymar e Memphis nas seleções: 'Quais gols você lembra?'
Astro da Holanda, Gullit questiona artilharia de Neymar e Memphis nas seleções: 'Quais gols você lembra?' - Foto: Reprodução / Instagram

Ruud Gullit fala com a autoridade de quem já ocupou todos os lugares possíveis no futebol e com a leveza de quem aprendeu a enxergar o jogo para além deles. Ídolo precoce da Holanda, protagonista de um Milan que ajudou a redefinir o futebol no início dos anos 90, técnico por um período e, hoje, um dos analistas mais respeitados da Europa, ele atravessou gerações sem perder a capacidade de interpretar o jogo com clareza - e certa ironia.

Foi com esse olhar, ao mesmo tempo vívido e refinado, que recebeu o GLOBO no último domingo, em Madri, horas antes da apresentação do Prêmio Laureus, do qual é embaixador. A conversa ganha uma camada especial para o público brasileiro: Gullit conviveu de perto com Carlo Ancelotti naquele Milan histórico. Dividiram não só o tempo, mas também o quarto. Entre memórias e análises, ele fala sobre o técnico que hoje comanda a seleção brasileira e projeta o que pode vir pela frente.

Mas não para aí. Ao abordar nomes como Neymar e Memphis Depay, maiores artilheiros da história de suas escolhas, Gullit evita o conforto das homenagens e aponta o que ainda falta. Para ele, os números não bastam: é preciso marcar nos momentos que ficam. Palavras de quem fez 18 gols com a camisa laranja, só um terço do que o corintiano já tem. Mas um deles foi na final do Euro de 1988, o único título grande de seu país.

Você já viu o futebol como jogador, treinador e hoje como analista. Quando olha para o jogo atual, o que mais mudou? E quais mudanças podem ser fundamentais nesta Copa?

Vejo uma valorização enorme de especialistas em bola parada, laterais e escanteios. Mas a principal diferença está no meio-campo. Hoje os jogadores são menores, mais ágeis, muito móveis. Não existem mais aqueles meio-campistas grandes, dominantes, como o Sócrates, do seu país, por exemplo. O perfil mudou completamente, e isso altera a dinâmica do jogo. Mas, taticamente, o futebol não mudou tanto quanto as pessoas pensam. Ninguém inventou nada completamente novo. Os sistemas são os mesmos, as ideias já existiam. O que mudou foi a intensidade.

E quem você vê como favoritos para a Copa?

França e Espanha. Claro, a Argentina também entra nessa conversa.

Como está o Brasil na sua visão?

O Brasil vive uma pequena queda no cenário mundial. Aquele futebol mais solto, mais artístico, já não é suficiente, porque hoje todo mundo corre e todo mundo defende. Se você só joga bonito, não ganha mais. A derrota para a Alemanha (7 a 1, em 2014) foi um alerta, e depois vieram jogos contra a Argentina (final da Copa América em 2021 e goleada nas Eliminatórias, em 2025) que mostrou isso de novo. Algo precisa mudar.

Não é o Ancelotti uma mudança?

O Ancelotti pode fazer isso, sim, mas o Brasil precisa entender que não basta jogar bem. Tem que trabalhar duro. Tem que correr. Se você perder a bola, não pode ficar parado. Volta, se organiza e depois descansa. É simples. Não estou pedindo nada absurdo. Se o Brasil conseguir jogar com essa mentalidade coletiva, pode voltar a ser competitivo. Hoje não é favorito, está um degrau abaixo, e isso é uma pena, porque o futebol precisa de um Brasil forte.

Você foi colega de quarto do Ancelotti no Milan, quando jogadores. E disse que ele “faz os jogadores derreterem”. O que isso significa na prática?

Ele é um cara muito bom. A personalidade dele conquista as pessoas. Todo o mundo gosta do Ancelotti, e isso faz diferença, porque você quer jogar por um treinador assim. Mas não é só isso. Ele é muito competente taticamente e, principalmente, sabe lidar com grandes jogadores, com personalidades fortes. É por isso que teve tanto sucesso.

Você acha que ele vai escolher lidar com a personalidade do Neymar ou vai deixá-lo fora?

O treinador está ali, mas quem decide é o jogador. Para ir a uma Copa do Mundo, você precisa estar bem fisicamente. Se Neymar estiver em forma, jogando bem, correndo e ajudando o tempo, não há problema nenhum. Eu adoro o Neymar, é um dos meus jogadores favoritos. O que aconteceu com ele foi muito difícil. Eu também já vivi a experiência de voltar de lesão em um grande torneio, e não é fácil recuperar o ritmo. A questão é: ele vai ter paciência para isso? E o ambiente vai permitir? Depende muito mais dele do que o treinador.

Como ele vai lidar com a pressão tanto pela convocação quanto por deixar Neymar de fora? O país está dividido. Treinar no Brasil na Copa não é só futebol.

Isso é difícil para qualquer equipe. Não deveria ser assim, mas faz parte. A diferença é que Ancelotti é experiente o suficiente para se manter fora disso.

Falando da Holanda: Memphis Depay pode ser decisivo no Mundial?

Não sabemos. Ele está lesionado, assim como Neymar. A pergunta é a mesma: você leva um jogador que não está em forma? Ou que não vem jogando bem? Precisamos de um bom Memphis. Se ele estiver pronto, ótimo, queremos muito. Mas hoje é uma dúvida, e com Neymar acontece a mesma coisa.

Mas eles são os maiores artilheiros históricos da Holanda e do Brasil...

Mas não é sobre quantidade, é sobre momento. Quando você fala de Maradona ou Pelé, você lembra dos gols decisivos. Quero ver Memphis e Neymar fazendo gols em jogos que ficam na memória. É isso que transforma um jogador em um dos grandes. Se eu te perguntar agora quais são os gols mais importantes dele, quais gols você lembra? Talvez você hesite. E é isso que eles precisam construir. Não é uma crítica. É um caminho. Pensa no Bergkamp: você lembra de um gol incrível dele?

Sim, contra a Argentina, em 1998...

Exato. Mas o Van Basten, por exemplo, você lembra e ainda são gols que fizeram a Holanda ser campeã.

Na final do Euro em 1988. Você fez o outro...

É isso que define um legado. Zidane é outro exemplo. É isso que transforma um jogador em lenda.

Neymar e Memphis também carregam muito do que estão fora de campo: redes sociais, imagem, música, amigos. É mais difícil ser lenda assim?

Se você joga bem, todo mundo aceita. Pode até achar estranho, discordar, mas aceitar. O problema é quando isso vem sem desempenho. Se você escolhe esse estilo de vida, precisa entregar dentro de campo.

Memphis jogar no Brasil ajuda ou atrapalha?

A liga brasileira é boa, tem bons jogadores, mas isso não é o ponto principal. O que acontece é que, historicamente, os brasileiros, e muitos outros, querem jogar na Europa, porque é onde está o nível mais alto competitivo. Dito isso, o Brasil sempre vai ter talento. O futebol lá é diferente, mais técnico, influenciado pelo clima, pelo ritmo do jogo. Mas qualidade nunca falta. No caso do Memphis, é difícil avaliar com precisão porque nem sempre acompanhamos de perto o Campeonato Brasileiro. Mas, no fim, não é sobre onde ele joga, é sobre como ele joga. Se estiver em forma e rendendo bem, pode chegar forte à Copa.

Você tem sido uma voz ativa contra o racismo no futebol. Como vê o que aconteceu com Vinicius Júnior na Champions?

É horrível. Ele é um jogador fantástico, daqueles que você paga ingresso para ver. Pode ser provocador? Pode. Mas isso nunca justifica o que faz com ele. E não está melhorando. Está piorando. Isso não é um problema do futebol, é um problema social. Muitas vezes ligado à situação econômica, à frustração das pessoas, que procuram alguém para culpar. É geralmente uma minoria. É ignorante.

Vinicius pode ser protagonista da Copa?

Pode, mas precisa de um tempo. Ele é um jogador incrível, faz coisas que impressionam. Eu vou ao estádio para vê-lo. Mas ninguém ganha sozinho. E tem um detalhe curioso: normalmente, as consequências só ganham a Copa quando têm um grande centroavante. O Brasil, muitas vezes, quando não teve esse jogador, não venceu.

Mas nunca tivemos contato com um técnico estrangeiro. Se der certo com ele, pelo que você conheceu, vai ser por quê?

Porque ele é o tipo de treinador que todo jogador quer ter. Isso já é enorme. Ele fortalece o espírito da equipe, entende o grupo. Mas não existe garantia de título. Uma seleção é tão boa quanto seus jogadores, e hoje o Brasil tem bons jogadores, mas ainda precisa se tornar um grande momento. E no futebol atual, não tem segredo: é trabalho duro. Quem não corre, fica para trás.