Vida Esportiva
Análise: Com Alcaraz e Sabalenka, Laureus confirma domínio do tênis e valoriza forma de competir
Espanhol e bielorrussa vencem com muito brilho em temporadas sem domínio total; Gabrielzinho encerra jejum de dez anos para o Brasil. Veja todos os premiados
MADRI* - O Prêmio Laureus de 2026 consagrou nesta segunda-feira, em Madri, uma noite que teve um protagonista claro: o tênis. Com as vitórias do espanhol Carlos Alcaraz e da bielorrussa Aryna Sabalenka nas categorias principais, o esporte ampliou uma hegemonia histórica na premiação, mas com um sinal de mudança no critério.
O que se viu no palco foi menos a celebração de temporadas dominantes no sentido clássico e mais o reconhecimento de uma forma de competir.
Alcaraz foi eleito o melhor atleta do mundo após um 2025 que ajuda a explicar o prêmio sem esgotá-lo: dois Grand Slams (Roland Garros e US Open), retomada do número 1 e, sobretudo, a final em Paris contra Jannik Sinner, uma virada, cinco sets, e uma final que já nasce como clássico, e que resume bem o peso que momentos decisivos passaram a ter nesse tipo de votação.
Não foi uma temporada de domínio absoluto, dividida justamente com Sinner, que também era indicado. E é justamente aí que o prêmio ganha contorno mais interpretativo: Alcaraz não foi o único protagonista do ano, mas foi quem melhor representou o nível máximo do esporte nos momentos-chave.
— Como tenista, eu jogo para ganhar títulos. Mas esse prêmio é diferente. Ele não olha só para o que acontece dentro da quadra, ele te coloca ao lado dos maiores atletas do mundo, de todos os esportes. Isso muda o significado — disse Alcaraz. — Se eu estou aqui hoje, muito disso é porque tive alguém do outro lado me levando ao limite. Sem essa rivalidade, talvez a gente não chegasse a esse nível — completou, citando o italiano.
Aos 22 anos, ele se torna o mais jovem vencedor da categoria e entra na linha direta de sucessão que moldou o próprio Laureus, de Federer, Nadal e Djokovic.
No feminino, Sabalenka reforça essa mesma lógica por outro caminho. A bielorrussa venceu apenas um Grand Slam no ano — o US Open —, mas foi número 1 do mundo do início ao fim da temporada, alcançando finais na Austrália e em Roland Garros e sustentando um nível constante em um circuito cada vez mais instável.
Se no masculino o prêmio parece valorizar quem decide melhor, no feminino ele aponta para outro tipo de domínio: o da permanência no topo.
— Não é só sobre vitórias. É sobre tudo o que vem junto: pressão, momentos difíceis, o trabalho diário. É isso que esse prêmio reconhece — disse Sabalenka. — Se eu puder inspirar alguém com a forma como eu lido com isso, já vale tudo.
Em quadra, essa construção passa também pela forma como ela vive cada ponto: uma intensidade que ajuda a explicar como se sustenta na liderança em um circuito onde as trocas de protagonismo se tornaram frequentes.
Uma hegemonia que muda de forma
A dobradinha de 2026 reforça uma tendência estrutural do Laureus. O tênis chega a 13 vitórias em 26 edições no masculino e mantém presença dominante também entre as mulheres, onde mais de um terço das vencedoras vieram do circuito.
Mas o dado mais relevante talvez seja outro: a hegemonia continua, mas mudou de forma.Sem Federer, Nadal e Djokovic no centro da temporada, o prêmio passa a reconhecer menos temporadas perfeitas e mais trajetórias capazes de sustentar excelência em um ambiente competitivo mais equilibrado. Alcaraz e Sabalenka são, cada um à sua maneira, exemplos disso.
O Laureus, como um retrato do esporte mundial nos últimos 26 anos, acompanha essa transição quase em tempo real.
Gabrielzinho encerra jejum e amplia alcance
Se o tênis domina a noite, o momento mais significativo para o Brasil veio com Gabriel Araújo. O nadador paralímpico venceu o prêmio de atleta com deficiência após repetir no Mundial de natação paralímpica o desempenho dos Jogos de Paris: três medalhas de ouro, com domínio absoluto em sua classe.
Aqui, diferentemente do tênis, o critério é mais direto: resultado incontestável. Mas o prêmio também carrega outro peso. A vitória encerra um jejum de dez anos sem brasileiros na categoria e recoloca o país em um espaço que teve em Daniel Dias seu maior símbolo — agora com uma nova geração assumindo esse protagonismo.
— Significa muito porque quem vota entende o que existe por trás de cada conquista. Não é só resultado, é tudo o que você passa para chegar até aqui — disse Gabriel. — O esporte paralímpico carrega isso ainda mais forte. A gente não está só competindo, está quebrando barreiras.
Mais do que repetir resultados, Gabriel amplia o alcance do esporte paralímpico brasileiro em um momento de maior visibilidade global da categoria.
Os outros vencedores
No coletivo, o Paris Saint-Germain foi eleito o time do ano após uma temporada que praticamente esgota o calendário europeu: seis títulos, incluindo a primeira Liga dos Campeões da história do clube, um reconhecimento que mistura volume de conquistas e peso simbólico.
Entre as trajetórias individuais, o Laureus voltou a premiar histórias de ruptura e persistência. Lando Norris foi escolhido como revelação do ano após conquistar seu primeiro título mundial na Fórmula 1, enquanto Rory McIlroy levou o prêmio de retorno ao completar o Grand Slam do golfe mais de uma década depois de seu último major.
Nos esportes de ação, Chloe Kim manteve seu domínio no snowboard e venceu pela terceira vez, enquanto brasileiros como Yago Dora e Rayssa Leal ficaram entre os indicados.
A premiação também abriu espaço para o futuro, com a criação da categoria de atleta jovem do ano, vencida por Lamine Yamal.
Fora das disputas, homenagens a Toni Kroos e Nadia Comăneci reforçaram outra dimensão do Laureus: a de reconhecer não apenas quem vence hoje, mas quem ajudou a moldar o esporte ao longo do tempo.
*O jornalista viajou a convite do Laureus
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