Vida Esportiva
Enquanto Laureus premia estrelas, projetos indicados mostram onde o esporte salva vidas
Prêmio consagra os melhores atletas do mundo, mas categoria revela como o esporte transforma e protege a vida de crianças em diferentes países
O Prêmio Laureus, que será entregue amanhã, em sua 26ª edição, em Madri, volta seus holofotes para os maiores atletas do planeta, com nomes conhecidos nos quatro cantos do mundo. Mas há uma categoria, talvez menos celebrada e por certo mais urgente, que aponta para onde o esporte começa de verdade. O Laureus Sport for Good (Esporte para o Bem, em tradução literal) premia iniciativas que usam o jogo não para formar campeões, mas para reorganizar trajetórias, muitas vezes em contextos onde o Estado falha em oferecer o básico.
Os seis indicados deste ano ajudam a contar essa história a partir de diferentes pontos do mapa, e de diferentes ideias sobre o que o esporte pode ser.
No Chile, de onde se expandiu para dezenas de países, o Fútbol Más transformou o treino em algo próximo de uma sala de aula. Não no sentido tradicional, mas como um espaço onde se aprende a conviver. Crianças que chegam de ambientes marcados por violência ou instabilidade encontram ali rotina e previsibilidade.
— Sem o projeto, muitas ficam mais expostas ao uso precoce de drogas, ao abandono escolar e à violência — explicam os organizadores ao GLOBO. Ao final de cada sessão, o resultado mais visível não é o placar, é o fato de que elas querem voltar no dia seguinte.
Em Nova York, o ponto de partida foi uma quadra abandonada ao lado de um conjunto habitacional no Brooklyn. Foi ali que nasceu a Kings County Tennis League, hoje responsável por oferecer aulas gratuitas a cerca de mil jovens. O projeto cresceu quase por gravidade: primeiro vizinhos se aproximaram, depois outras comunidades passaram a pedir que o tênis chegasse até elas.
— Se programas gratuitos como o nosso não existissem, muitos jovens ficariam ociosos e em risco de buscar caminhos pouco saudáveis — dizem.
Em Kigali, capital de Ruanda, o MindLeaps trabalha com um instrumento ainda menos óbvio: a dança. Já no México, o TRASO encontra crianças em outro tipo de fronteira, a que separa a violência do cotidiano.
Um dos casos mais emblemáticos é o de Cristian, de 8 anos, vítima de bullying severo na escola. Ao chegar ao projeto, encontra no boxe não um instrumento de agressão, mas de afirmação.
— Ele aprendeu que o boxe não é para bater, mas para ganhar segurança e estabelecer limites — contam os responsáveis. Meses depois, Cristian consegue enfrentar o agressor sem violência. — Pela primeira vez, ele se sentiu livre. Estamos evitando que a violência se torne uma linguagem cotidiana.
Em Hong Kong, o Rugby for Good atua em uma cidade onde a pressão por desempenho escolar convive com a falta de espaços de acolhimento. Um dos relatos mais marcantes vem de um pai que, ao ver o filho, diagnosticado com TDAH, em campo, percebe algo diferente.
— Na escola, ele era visto como problema. No rugby, mostrou disciplina e capacidade de colaborar. Sem o projeto, muitos desses jovens voltam a ser rotulados e isolados.
Outro concorrente, o Gruppo Sportivo Valanga, da Itália segue por um caminho menos evidente: não separa. Crianças com e sem deficiência, migrantes e locais, dividem o mesmo espaço. O efeito aparece em gestos pequenos. Um dos relatos citados pelo projeto é o de um menino que, pela primeira vez, conseguiu amarrar o próprio tênis.
— Foi quando um professor e um pai simplesmente disseram ‘obrigado’ — contam. — É nesse tipo de detalhe que a transformação se revela.
As histórias são diferentes, os contextos quase opostos. Mas, ao colocar lado a lado iniciativas tão distantes, o prêmio revela um padrão. Em todos os casos, o esporte funciona como uma espécie de estrutura básica: há um horário fixo, um adulto de referência, regras claras e, sobretudo, um espaço onde a criança deixa de ser invisível. Antes de formar atletas, esses projetos criam pertencimento.
É pouco e, ao mesmo tempo, decisivo. Porque, longe dos grandes palcos que o Laureus consagra, é nesse nível que o esporte, de fato, começa a mudar o jogo.
* O jornalista viajou a convite do Laureus
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