Vida Esportiva
Pedro Bial: à frente de Curry e diante de Kobe, Oscar nunca entrou para brincar
Mais que preparado, Oscar Schmidt estava pronto quando a regra dos três pontos passou a valer, em 1984. Foi tão veloz que chegou ao futuro antes do basquete mundial
A primeira vez que vi Oscar, ele estava do outro lado da quadra, era o adversário. O mais temido adversário: dois metros e cinco de altura e cinco metros de ferocidade, sempre caprichando na expressão séria. Oscar, na seleção paulista; eu, na carioca. Tínhamos 18 anos, ele ainda atuava como pivô. Naquela época, em 1976, jogadores da sua altura eram considerados "mondrongos" — exceção feita ao brilhante Marquinhos Abdalla Leite —, servindo basicamente para rebotes e jogadas no garrafão.
Só oito anos depois, a regra da cesta de três pontos, a partir da linha de seis metros e 75 centímetros, seria adotada pela Fiba. Oscar vinha se preparando durante todo esse tempo. Dizer que ele se preparava é pouco. Oscar Schmidt era um obsessivo: não treinava arremessos de longa distância apenas dezenas de vezes. Nem centenas. Praticava aos milhares. Imagine: uma quadra vazia, já noite, o eco da bola quicando como única companhia daquele gigante solitário, arremessando, buscando a bola, arremessando de novo, e de novo, numa espiral sem cronômetro ou testemunha. Ele mesmo dizia — e era verdade: "Não existe mão santa, existe mão treinada". Com tamanha força de vontade e dedicação, desenvolveu uma agilidade rara para alguém de sua estatura.
Mais do que preparado, Oscar estava pronto quando a regra dos três pontos passou a valer, em 1984. Despreparados estavam os americanos, que sofreram uma surra brasileira na final do Pan de 1987 — jogo que assisti aos prantos. O genial técnico Ary Vidal compreendeu o novo recurso à disposição. Os americanos, não. Mesmo quando o Brasil abriu vantagem, os rivais acreditavam que poderiam virar a qualquer momento, apostando nos contra-ataques. Ficaram para trás. Para cada dois pontos que recuperavam, Oscar e Marcel marcavam mais três — a matemática jogava a nosso favor.
Oscar foi tão veloz que chegou ao futuro antes do basquete mundial. Stephen Curry só o alcançou recentemente.
Tive a alegria de encontrar Oscar em diversos eventos esportivos. Pudemos conviver mais de perto durante a Olimpíada de Pequim-2008, que ele comentou na Globo. Vi uma das maiores estrelas daqueles jogos tremer ao encontrar Oscar. Astro na China, Kobe Bryant era apenas um menino na Itália quando seu pai, Joe Bryant, jogou na mesma liga em que Oscar atuava. Kobe nunca esqueceu o estilo de jogo de Oscar, que serviu de modelo para seus arremessos de longa distância. Como repórter, sugeri que Kobe e Oscar jogassem uma partida para minha matéria. Kobe aceitou, Oscar não. Explicou: nunca mais tinha entrado em quadra. Do basquete, só guardava as glórias e as sequelas — não conseguia assistir a um filme inteiro sem sentir dores.
E jogar uma bolinha? Nem pensar. Ele nunca entrou para brincar.
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