Vida Esportiva

Carol Solberg fala sobre machismo e misoginia dentro e fora das quadras e critica suspensão no Mundial: 'Esporte e política sempre estiveram ligados'

Agência O Globo - 24/03/2026
Carol Solberg fala sobre machismo e misoginia dentro e fora das quadras e critica suspensão no Mundial: 'Esporte e política sempre estiveram ligados'
Carol Solberg fala sobre machismo e misoginia dentro e fora das quadras e critica suspensão no Mundial: 'Esporte e política sempre estiveram ligados' - Foto: Reprodução / Instragram

Após punição por comemorar prisão de Bolsonaro, bicampeã do circuito mundial diz que 'neutralidade esportiva é mito', reflete sobre luto pela morte da mãe, Isabel Salgado, e conquistas femininas no vôlei de praia: 'Antes, definiam o tamanho máximo do biquíni'

Conquistar medalha de ouro no circuito brasileiro de vôlei de praia em 8 de março teve sabor especial para Carol Solberg. No Dia Internacional da Mulher, a atleta bicampeã do circuito mundial estava nas areias lutando por seu sonho, ao lado da parceira, Rebecca Cavalcanti. Sentia que, em quadra, reiterava que lugar de mulher é onde ela quiser enquanto o machismo e a misoginia andam fazendo um estrago (também) no mundo do esporte. Pensou nas que vieram antes, como sua mãe, Isabel Salgado, que abriu tantos caminhos. Pensei no privilégio de poder fazer o que ama.

Foi essa mesma paixão que a fez trocar a ideia de ser mãe do terceiro filho (já tem José, de 13 anos, e Salvador, de 9) pela luta por uma vaga nas Olimpíadas de Los Angeles 2028. É também o que não deixa esmorecer diante de punições por se posicionar politicamente — como a suspensão da Federação Internacional de Vôlei de Praia, que a deixou de fora da etapa do Mundial de João Pessoa, neste mês, por celebrar a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro após conquistar a conquista de bronze no Mundial da Austrália, em novembro.

Aos 38 anos, no auge da forma física e com sangue nos olhos para disputar os Jogos Olímpicos, Carol participou do “”, videocast do GLOBO, que vai ao ar nesta terça-feira (24), 18h, no Youtube e no Spotify.

'Conversa vai...':

'Rematriação':

'Neutralidade esportiva é um mito'

Foi suspensa do Mundial por comemorar a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Não foi a primeira vez que se posicionou politicamente em quadra. Gritou "Fora, Bolsonaro" em uma entrevista ao vivo após conquistar a medalha de bronze no Circuito Brasileiro, em 2020, quando também foi punido. Como enxergamos as regras que restringem as manifestações políticas?

Eles alegaram que tinham uma postura antiesportiva. Nesse último processo, resolvi ir até o final, e não rolou, por não concordar com isso. Neutralidade esportiva é um mito, não existe. É um lugar que não quero estar. Essa 'neutralidade' obriga a gente a se posicionar. Quando estou jogando, você com tudo que estou vivenciando, minhas dores, alegrias. Se você estiver sentindo alguma coisa, é impossível acabar uma partida e não ter desejo de falar o que penso. Essas regras aí estão para deixar os atletas com medo, desencorajar, desunir. São feitos para cartolas e presidentes manterem o seu poder e continuarem no controle. Minha paciência intimida, desencoraja ainda mais atletas, que ficam com recebimento de romper contratos.

'Querem reduzir atletas a um conjunto de músculos e carne que está ali pra entreter'

Já perdeu patrocínio por se posicionar?

Já perdi vários patrocínios, mas ganhei outros. Pago esse preço, fechos de portas com várias marcas. Fazem isso pra deslegitimar a voz dos atletas. Cada vez que um atleta consegue se expressar, damos alguns passos. Pensar o que rolou na NBA, a campanha para votar que o LeBron (James, que lançou a campanha 'Mais que um voto', em 2020) removeu... Que coisa linda! É uma grande hipocrisia tudo isso. O esporte e a política sempre estiveram ligados. No futebol, então, nem se fala.

Tem uma frase ótima de um historiador uruguaio... quem me mostrou foi o (jornalista) Lúcio de Castro: "Quem diz que esporte e política não se misturam ou não sabe de nada ou sabe muito". O que a ditadura e todos os governos, principalmente, na América do Sul, fizeram? Usaram o futebol como cortina de fumaça para fazer o que fez com o povo, torturar. Hitler usou a Olimpíada de Berlim para se promover, fazer propaganda de como a Alemanha era uma maravilha.

Os de lá de cima podem e o atleta tem que ficar quieto? Minha sensação é que quero reduzir a gente a um conjunto de músculo e carne que está ali pra entreter. Viver é um ato político. Acordar de manhã, com quem você anda, a roupa que veste, o que você ouve são atos políticos.

Paolla Oliveira:

Taís Araújo:

Órgãos reguladores envelhecem com mais rigor quando o posicionamento vem de uma mulher?

Totalmente. Quando passei pelo outro julgamento, fui julgada só por homens. Começa por aí: São sempre homens te julgando. Um juiz falou assim para mim: "Garota, você está ali para falar o que aconteceu nas quatro linhas". Já começou me chamando de "garota"! O olhar para as mulheres é completamente diferente. Eu não me arrependo de jeito nenhum.

Recebe mais críticas ou apoio dos colegas do esporte quando se posiciona?

Pouquíssimo no esporte, praticamente nada. Apesar de no esporte eu me sinto sozinho, porque é uma luta solitária, recebo apoio de muita gente bacana. Quem está comigo é muito firme e me fortalece. É um desgaste mental absurdo. Vivenciar um processo enquanto se está numa competição, tendo que jogar no dia seguinte, estar exposto, não é fácil. Meu caso é um precedente para facilitar punições e me entristece muito.

'Quando me xingaram de 'vagabunda', falei 'chega!', e chamei a segurança'

Quantas mulheres precisam ser coagidas e agredidas, como casos recentes com árbitros de futebol, para que sejam respeitadas? O que precisa ser feito?

É surreal! Temos que nos unir. No vôlei de praia, a gente está exposta, de biquíni, a arquibancada é colada. No ano passado, em Itapema (Santa Catarina), depois que me manifestaram politicamente, homens bombadões me xingavam muito. Foi das piores coisas. Tentei não entrar na pilha. Mas quando eu xingaram de “vagabunda”, falei “chega!”, chamei a segurança. Bando de homem covarde!

"Falei na hora: ''Tira a mão da minha perna'", sobre assédio

Já sofreu assédio sexual?

Aos 14 anos, estava numa seleção brasileira de quadra, e alguém da equipe botou a mão na minha perna de um jeito que não gostou. Nunca tinha tido esse papo com a minha mãe. Mas falei na hora: “Tira a mão da minha perna!”. Contei isso pra minha mãe, que pegou um avião no mesmo momento pra saber exatamente o que tinha rolado.

"Antigamente, o regulamento tinha o tamanho máximo do biquíni que tínhamos que usar"

O que é considerado uma das mais importantes para os atletas nos últimos tempos?

Antigamente, o regulamento tinha o tamanho máximo do biquíni. Não poderia ser maior que tantos centímetros. Ter a liberdade de escolher como se quer estar em quadra é uma super conquista. Antes, voltávamos da licença maternidade com 75% dos pontos. Ninguém questionava essa regra, sempre feita por homens. Hoje, voltamos com 100% dos pontos.

Ney Matogrosso:

Tati Machado:

Sua mãe, Isabel Salgado, não poderia estar no mundo sem se posicionar. Sua coragem foi forjada dentro de casa?

Sem dúvida. Mas não foi uma coisa ensinada, de "ah, vamos ter esse papo". Era algo que acontecia, era como funcionava a nossa casa: todo mundo tinha voz na mesa, podia falar o que pensava. Isso conta nos exemplos mínimos e também gigantes do dia a dia. Minha mãe foi a mulher mais calorosa e generosa que já conheci. Essa força que carrega dentro de mim vem dela e me fortalece todos os dias.

'Escrevo todos os dias para ela, mando áudio', sobre o luto pela morte da mãe, a Isabel do vôlei

Três anos após a morte dela, como anda o luto?

É inacreditável pensar que vai fazer quatro anos. É doido porque ela ainda está tão presente em mim. Falo com minha mãe o tempo inteiro. Desde o início, a ideia de não falar com ela era inconcebível. Escrevo todos os dias para ela, mando áudio (para o telefone que Isabel tinha). Às vezes, só preciso falar com ela. Minha mãe era tão incrível que sinto que me preparou para passar por essa dor toda. Ela me conduz. Não sei como, mas sinto que a força pra conseguir passar por isso vem da minha conexão com ela.

Sonha com ela?

Tenho vários sonhos com ela. Algumas coisas importantes, que mudaram tudo e me fizeram ter certeza de que ela continuasse me ouvindo o tempo inteiro, que a gente vai encontrar. É a coisa mais estranha do mundo não ter a minha mãe no dia a dia. Nunca vou me acostumar. Tem momentos que estou melhores e horas que a dor vem como se fosse o primeiro dia. Eu e meus irmãos viramos um bloco. Minha mãe tinha uma coisa... a gente não podia dormir brigado. Tinha que resolver, poderia dar o trabalho que fosse. Ela se metia em todas as brigas. Sempre que isso de todo mundo se mede. É um saco (risos), dá um trabalho danificado, mas no fim das contas é isso que a gente carrega.

O que você acha disso?

Qualquer coisa. Às vezes, contando a maior besteira do mundo. No dia em que me classifiquei pra a Olimpíada e não poder dividir com ela... Entrei em todos os jogos aos prantos. Entendo que não dá pra fugir, que essa dor faz parte de mim. Meu peito está rasgado. Num dos jogos, um DJ gringo colocou a música de Tim Maia que eu dançava na sala com ela (“Não quero dinheiro”). Ele não tinha ideia disso. Pedro (Solberg), meu irmão, tinha jogado o jogo anterior. A gente se olhou sem acreditar...

No outro jogo, eu estava perdendo de 20 a 15 no segundo set... Antes, toda vez que minha mãe vinha na cabeça em quadra eu tentava fugir. Porque começou a chorar, minha mão perdia força e eu não consegui bater na bola. Nesse dia, fui pro saque e pensei nela com tudo: não sei explicar o que aconteceu, veio uma força... Virei o jogo e ganhei. Ali entendi: isso é a minha força. Vai ser chorando, rindo... E, aí, agora, não tem um jogo que não me conecte com a minha mãe. Caminhamos juntas da nossa nova maneira.

Como foi ler a biografia dela escrita por Pedro Bial?

Foi muito difícil. Estava na Suíça e tinha que ler. Pedro fez um livro muito bonito, mas confesso que ainda não consigo... Às vezes, vou vivendo o dia a dia... não é fingindo que não aconteceu, porque a ausência dela é brutal na minha vida... Mas, às vezes, estou na Academia e vem uma pessoa super fofa falar dela. Aquilo me paralisa, me deixa petrificada. É como se me obrigasse a realizar aquilo naquele dia. Tudo em relação às homenagens à minha mãe, para mim, é difícil de lidar. Lido mal. Minha irmã (Maria Clara Salgado) ficou muito a frente dessas coisas, e aí a gente vê como o luto é diferente pra cada um. Para Maria, tudo isso ajudou, fortaleceu.

Qual foi a maior lição que ela te deixou sobre o poder de quem você é?

Minha mãe me ensinou tudo na vida. Ser filha dela é o que mais me define, é do que mais me orgulho. Saber que caminho com ela do jeito que for... Me sinto sortuda e, ao mesmo tempo, falo: "Que raiva! Por que a perdi?". É uma loucura esse sentimento. Predomina a gratidão por ter vivenciado isso. Minha mãe me deu tanto amor... Perder esse porto seguro... Tinha dias que eu ligava para ela e só queria chorar. Eu só falei "alô" e ela sabia exatamente tudo que estava acontecendo. Perder isso é muito difícil. Aquele sofá da casa da minha mãe... Deitar na cama dela... É cruel, aprender a viver sem isso, é duro. Mas olho e escolho obrigado por ter tido a melhor mãe do mundo. É estranho, mas ela me preparou para encarar esse rojão. Quando tudo começou, eu pensei: "Como estou passando por isso? Não é possível o que está acontecendo na minha vida?". Olhava para meus irmãos e conversava: "Como estamos aguentando?". E pensei: "Foi ela que me preparou para passar por essa porrada". Dei tipo de ter vindo dessa mulher tão foda.

Como equilibrar esse legado e a construção da própria identidade no esporte?

Nunca foi um peso ser filha da minha mãe. Existe uma comparação, uma curiosidade. Qualquer pessoa que siga a profissão dos pais gera uma curiosidade normal. Carreguei numa boa isso, ela abriu tantos caminhos. Vivenciei tanta coisa incrível ao lado dela. O vôlei fez a gente estar muito próximo, rodamos o mundo. Minha mãe foi minha treinadora por anos, dos meus 15 aos 20 anos. Agradeço por ter vivido esses momentos. Chorado perdendo, ganhando, torcendo para meu irmão. Foi especial.

Quando ela deixou de ser minha treinadora, foi um momento de transformação, de descobrir quem eu era. Cresci como atleta. Porque tinha uma coisa confortável de estar em família. De repente, tinha que tocar meu caminho, fazer as minhas escolhas. Minha mãe era muito protetora, uma voz muito forte. Foi importante seguir adiante.

'Aos 38 anos, sinto-me no meu melhor momento'

No Mundial de 2025, você se destacou em quase todos os fundamentos: maior pontuadora, bloqueada, sacadora. O que mudou na sua rotina de treinos para você atingir esse nível de dinâmica aos 38 anos?

Demorei muito a amadurecer como atleta. A Jacque (Jacqueline Silva) sabia isso: "Se pudesse, aos 40 anos, ter o físico que tinha com 20 e essa cabeça que tenho agora...". Tenho a sorte de não ter sofrido nenhum dano sério. Volto rápido, pego músculo rápido. Aos 38, sinto-me no meu melhor momento. Sou muito mais calma, tranquila dentro de quadra. Faço um trabalho há oito anos com minha psicóloga, Aline...

O que você está trabalhando na análise?

Essa concentração. Não ficamos só no esporte, conversamos muito da vida. Mas essa coisa de parar de pensar na expectativa dos outros. De ter a tranquilidade de pensar: "Cara, eu treinei, me preparei, fiz tudo. Agora, é deixar isso aqui acontecer". Às vezes, estou dentro da quadra e não escute mais nada, só vejo acontecendo. É quase um mantra. De repente, não tenho a menor ideia se o jogo está sendo transmitido, se tem gente me xingando, torcendo, só consigo ver aquilo ali. É legal quando isso acontece.

A presença.

É, uma presença absoluta. Eu amo jogar vôlei. Perdi muita coisa na minha adolescência. Abri mão para poder vivenciar isso, né. Não fui nas festas, perdi os carnavais todos. Depois que tive filho também... Lidar com a saudade deles... Então, esse amor pelo esporte, sabe? Gosto tanto de fazer isso! Com a Aline, é o trabalho no lugar de chegar na tranquilidade, de falar: "Agora não interessa, deixa a coisa fluir".

O que você motiva a buscar mais uma Olimpíada após a experiência de Paris 2024?

Jurava que quando acabasse Paris, ia querer engravidar, tinha vontade de ter mais um filho. Quando acabei, falei: “Quero tentar mais uma!”. E não veio o desejo de engravidar. Quis muito ter José e Salvador. A ideia das dificuldades, de viajar com neném, da volta após a gravidez, não me assustava. E esse desejo não veio dessa vez. Então, falei “não é pra ser!”. Quero muito essa vaga, vou dar tudo!

"Ninguém pergunta ao pai quem está cuidando dos filhos"

Seu filho José, correu o circuito mundial contigo enquanto o amamentava. Mas não é sempre que dá para levar as crias juntas. E mães que deixam os filhos em casa para irem atrás de seus sonhos são muito julgadas...

Muito. A quantidade de homens que têm filhos e ninguém pergunta aos pais: "Quem está cuidando dos seus filhos?". Sempre digo a eles o quanto gosto do que estou fazendo. E o quanto morro de saudades deles. É difícil pra caramba. É ruim saber que estão sofrendo de saudade, me dói. Mas é a nossa vida. Eles nos verem correndo atrás dos nossos sonhos os fazem ser outros meninos. Quem serão esses meninos com suas parceiras, suas amigas? Estou indo trabalhar, fazer o que acreditar. A culpa vem, me visita, e tu tenta me livrar. Falo: "Não vou entrar nessa". Os homens sempre fizeram isso.

Mãe boa é mãe feliz, não é?

Pois é. Outra coisa legal da maternidade é a derrota e a vitória. Chega em casa e seu filho olha para você, não importa se ganhou ou perdeu. Quando perdi a Olimpíada... Estava lá naquele estádio gigante, em Paris, maior glamour... de repente, estava sentado no meio fio com os meninos correndo de um lado para o outro. Sai da vila, fui para o apartamento onde Fernando (Jovem, companheiro de Carol e pai dos meninos) estava com eles... Tinha que dar banho, tocar a vida. A maternidade te dá uma bola pra frente, sabe? Não dá tempo de ficar se lamentando. É intenso, visceral, é de verdade. Amo estar com meus filhos e viverei isso. Minha mãe curtia muito estar com a gente. Viajava e nos carregava a quando dava e, quando não dava, estava tudo certo. Tinha certeza de que estava correndo atrás dos sonhos dela.

"Sinto medo de homem o tempo inteiro"

Pensa sobre a responsabilidade de criar pessoas, principalmente, meninos, mais bacanas?

Muito. Principalmente o José, que tem 13 anos. Ele está andando de ônibus. Uma noite estava grelhado... Foi assaltado uma vez. Falei pra ele: "Você sentiu esse medo... tem noção que, para as meninas, andar de ônibus não é só esse medo? É o medo de ser abusada, estuprada. Tenho quase 40 anos e continuo tendo medo de homem. Se ando numa rua, se entro no Uber, estou preocupado. Sinto medo de homem o tempo inteiro. Estou muito preocupado, falo o tempo inteiro, sinto uma responsabilidade gigante. Não basta ser o cara que não vai fazer, quero que combata, que tenha coragem de se indispor com seus amigos. Não dá mais para participar disso, nem ouvir. Também precisamos tirar a armadura, as coisas entendem que devem botar os sentimentos para fora, chorar... Tem que lavar o prato, arrumar a cama... É uma missão morro de medo de estar me escapando.

O fato de verem a mãe tomando decisões e o pai cuidando também ajuda a construir um imaginário de admiração pela mulher e mostrar que a responsabilidade por eles vem do masculino também...

Fernando é megaparceiro. Temos uma relação de divisão total das funções em casa. Não há diferença. A gente atua junto em casa em tudo, é bem dividido, e os meninos percebem. Fernando é apaixonado pelo trabalho dele, mas muitas vezes a gente tem que compor. Ele tem que abrir mão de alguma coisa por conta do meu trabalho para nossa criação dos meninos. Quando eu tinha que ficar muito tempo no Mundial, ele abriu mão de coisas dele para viajar com os dois, levá-los para mim ver.

Tem uma coisa bacana de ele falar para os meninos: "Têm noção que sua mãe está indo atrás do sonho dela?". Valoriza, sabe? Isso é muito lindo. E até a coisa do sonho olímpico é um sonho junto, todo mundo participando, vibrando.

"Gosto de me olhar no espelho, mas tem várias coisas que gostaria de mudar: meu pezinho"

E essa beleza toda aí... Gosta de você? Como faz para ter essa pele jogando no sol?

Gosto de me olhar no espelho, curto. Tem várias coisas que gostaria de mudar. Meu pezinho (risos). Mas estou de bem comigo mesma. Faça uma capa de protetor solar, tem um pó compacto que vira um bloco. Claro que sou vaidosa, mas, quando entro em quadra, não estou pensando em nada disso. Treino, malho pra caramba, mas é tudo voltado para a performance. Tem muita gente que adora estar com um braço musculoso. Não acho tão bonito. Adoraria, às vezes, não estar. Mas se vai me a saltar e bater ajudar mais forte... Sou uma carioca, e sempre tive muita pouca paciência para essa coisa de me arrumar muito.

"Quero que lembrem de mim como um jogadora que sempre jogou com muita paixão. E como alguém que não aceitou as regras de não poder se posicionar"

Como gostaria de ser lembrado pelas próximas gerações de jogadores? Já sabe o que vai fazer depois da retirada das areias?

Estou buscando essa vaga para LA no meu ciclo final mesmo. E achando um barato pensando no que vou fazer. Não tenho ideia. Minha mãe falava muito isso: "Vocês podem tudo. O que quiserem". Ela dava força para qualquer aventura que propuséssemos, botava a gente lá em cima. Quando meu irmão começou a tocar violão, e fazia "plem", ela falava: "Maravilhoso!". Quero que lembrem de mim como um jogadora que sempre jogou com muita paixão. Não tem um jogo em que não dê o meu máximo. Não me interessa se você jogar bem, mas dei meu sangue. É como uma pessoa que não aceitou. Não quero aceitar essas regras de não poder se posicionar politicamente. Quero estar nessa luta.