Vida Esportiva

Obituário: Pivô talentoso, Marquinhos Abdalla foi pioneiro na NBA sem deixar de ditar o próprio destino

Morto aos 73 anos, ex-jogador virou ícone no basquete universitário e se tornou o primeiro brasileiro draftado na liga americana

Agência O Globo - 23/03/2026
Obituário: Pivô talentoso, Marquinhos Abdalla foi pioneiro na NBA sem deixar de ditar o próprio destino
Marquinhos Abdalla - Foto: Reprodução / Instagram

Se, até hoje, chegar e se firmar na NBA é um desafio para atletas brasileiros, o então pivô Marquinhos Abdalla foi o pioneiro nesse caminho. Morto aos 73 anos, na noite do último domingo (a causa não foi divulgada, mas ele já estava internado), o carioca e vice-campeão mundial de basquete deixa olegado de quem foi o primeiro jogador do país a ser draftado na liga americana, mas que optou por ditar seu próprio destino.

Selecionado na 162ª posição, na 10ª rodada do Draft de 1976 (época em que a liga a seleção tinham formatos diferentes), Marquinhos, ou "Marcos Leite", como era chamado, decidiu não atuar pelo Portland Trail Blazers. Na posição em que foi selecionado, não tinha contrato garantido para além do primeiro ano, enquanto tinha sondagens do basquete italiano. Também teria que abrir mão de defender a seleção brasileira, pelas regras da época.

Foi na mesma seleção brasileira que começou e terminou os grandes momentos da carreira. Abdalla foi um dos principais nomes de uma geração que substituiu a de Wlamir Marques e Amaury Passos, bicampeã mundial. Atuou por Fluminense e Sírio e chamou a atenção do basquete americano na primeira olimpíada que disputou, Munique-1972.

Recebeu convites e optou por se juntar ao programa de basquete da Universidade de Pepperdine, em Malibu, na Califórnia, o Pepperdine Waves. Em entrevista ao site ge.globo em 2016, contou que queria atuar numa cidade semelhante ao Rio de Janeiro.

— Havia um assédio grande e, na época, eu estava insuportável. Não queria ir para onde não tivesse praia. O Waldir Boccardo foi quem me incentivou e disse que estava na hora de eu ir. Na época, tinha pouco estrangeiro jogando. Eu acho que era único brasileiro.

Na mesma entrevista, explicou, em detalhes, sua decisão de recusar a liga americana:

— Jogar na seleção era o que eu mais desejava no mundo, e não poderia abrir mão disso por um contrato com apenas um ano garantido. Depois, para sair do profissionalismo para o amadorismo, precisaria ficar parado um ano. Na época do Draft, já estava casado e com uma filha, seria muito perigoso. Veio a Itália, com um contrato melhor, de dois anos, e que não me impediria de defender a seleção. Tive dois contatos com o pessoal do Portland, que queria saber o motivo da minha desistência. Quando estava na Itália, o Los Angeles Lakers e o New York Nets (atual Brooklyn Nets) quiseram conversar comigo. Fico curioso para saber como teria me portado na NBA, mas nunca vou saber. Só de ser reconhecido, já foi uma experiência maravilhosa.

No basquete universitário, se adaptou às regras diferentes dos Estados Unidos e empilhou prêmios individuais importantes. Conquistou, ao lado do armador Dennis Johnson (que se tornaria um tricampeão da NBA), um título de conferência em seu terceiro e último ano pela equipe. Em 2013, foi eleito ao Hall da Fama da universidade.

Tomada a decisão de não seguir no basquete dos Estados Unidos, Marquinhos trilhou carreira vitoriosa e competitiva nos basquetes de Brasil (Fluminense, Sírio e Flamengo) e Itália (Gênova e Virtus Bologna). Pelo Sírio, foi tricampeão brasileiro e campeão mundial em 1979.

Já na seleção brasileira, somou seis medalhas continentais (quatro de ouro), quatro pan-americanas (uma de ouro) e duas mundiais (bronze em 1978, nas Filipinas, e prata em 1970, na Iugoslávia). Também disputou mais duas olimpíadas: União Soviética-1980 e Los Angeles-1984. Tudo isso numa época em que o basquete brasileiro passava por uma profunda transição.

— Marquinhos era um craque dentro e fora das quadras. Um cara diferenciado, incrivelmente talentoso e campeão. O basquete brasileiro perde uma referência técnica e de pessoa. Nossas condolências aos amigos, familiares e fãs que tanto festejaram com Marquinhos em quadra. Ele já faz falta — afirmou Marcelo Sousa, presidente da Confederação Brasileira de Basketball, em pronunciamento.