Vida e Saúde
'Faz bem para o corpo e para a alma': além de fortalecer os músculos, dança ajuda a promover a socialização na terceira idade
Especialistas apontam benefícios da prática física também na prevenção de quedas
Após perder seu parceiro e mudar-se do Rio de Janeiro para Juiz de Fora, em Minas Gerais, Arlinda Guimarães, de 83 anos, se encontrou em um cenário onde não conhecia muitas pessoas, além da filha. Entretanto, aproveitando o tempo livre após a aposentadoria, decidiu experimentar novos hobbies, incluindo a dança. O que começou como uma atividade física para preencher o tempo logo se transformou em uma oportunidade de conhecer novas pessoas e revitalizar sua vida social.
— Quando cheguei em Juiz de Fora, eu não tinha um círculo de amigos. Mas quando comecei a dançar, me apaixonei logo na primeira aula e formei um grupo de amigos. Hoje, além de termos aulas durante a semana, também saímos aos finais de semana para dançar e, às vezes, só voltamos para casa de madrugada. Não tenho mais aquele problema de ficar sozinha pensando: “O que vou fazer?”. Agora, sempre tenho algo para ocupar meu tempo. A dança fez muito bem ao meu corpo e à minha alma — conta a professora aposentada, que participa de aulas de dança duas vezes por semana.
Com o envelhecimento, o círculo social pode diminuir devido a mudanças na rotina, aposentadoria, limitações de mobilidade ou perda de pessoas próximas. A fisioterapeuta e formanda em dança Valéria Rosa considera a prática da dança uma das atividades físicas mais completas, pois abrange aspectos físicos, mentais, emocionais e sociais.
— Na terceira idade, começamos a enfrentar vários problemas físicos, como dificuldades de mobilidade e dores, o que leva a pessoa a ficar cada vez mais em casa. A dança atua precisamente na questão da expressão, que muitas vezes se perde. É uma arte de se estar em contato com o outro e consigo mesmo.
Para Marcelo Santos, professor de dança e proprietário da academia Moovn — onde Arlinda faz aula — as danças de salão são as modalidades mais apreciadas pelos alunos da terceira idade, justamente pela interação que proporcionam.
— O círculo social de uma pessoa idosa costuma reduzir com o tempo. A dança, especialmente a de salão, traz esse aspecto social, pois a pessoa está sempre renovando suas amizades, mantendo-se ativa e conhecendo novos amigos. Além de interagir de forma próxima, abraçando e dançando.
Mobilidade
Arlinda confirma que a convivência e a parceria com os colegas são os aspectos que mais aprecia nas aulas. Embora também pratique musculação, ela revela que os exercícios na academia não oferecem o mesmo prazer que a dança. A professora se declara uma verdadeira “forrozeira”, com preferências pelo forró.
— Já experimentei samba, mas amo o forró e acho que a dança e a música são fatores de integração muito importantes. Além da socialização, a dança me trouxe muito mais mobilidade. Não tenho dificuldades em realizar minhas atividades diárias e não impedições.
Os movimentos praticados em uma aula de dança estimulam a mobilidade, flexibilidade, equilíbrio e coordenação motora. Especialistas afirmam que essas habilidades são cruciais para a realização das atividades cotidianas e para preservar a autonomia durante o envelhecimento.
— A dança trabalha a mobilidade, a flexibilidade, o ritmo e a coordenação motora. É comum na terceira idade perdermos parte da flexibilidade com o avançar dos anos. Portanto, os movimentos de torção, as mudanças de direção e os movimentos circulares são fundamentais para estimular a mobilidade dos tecidos, incluindo a fáscia, um tecido conjuntivo responsável pela produção do colágeno e que auxilia na coordenação motora, garantindo estabilidade estrutural — explica Rosa.
A fisioterapeuta ainda ressalta que a prática da dança pode favorecer o bem-estar emocional. A dança estimula a liberação de endorfina, hormônio associado à sensação de prazer e bem-estar, contribuindo para a saúde mental e a qualidade de vida.
Prevenção de quedas
Conforme informações do Ministério da Saúde, as quedas são a segunda principal causa de morte acidental entre idosos. Dados do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia indicam que 40% dos idosos com mais de 80 anos sofrem pelo menos uma queda por ano. Santos afirma que atividades que trabalham a força muscular, equilíbrio e coordenação, como a dança, podem auxiliar na diminuição do risco de quedas e também estimular a memória.
— Ao iniciarem a dança, os alunos desenvolvem e treinam o tônus muscular, principalmente em aspectos como apoio, equilíbrio, eixo corporal e força nas pernas, o que ajuda na prevenção de quedas. Outro grande benefício físico está relacionado à memória. A dança estimula o cérebro, favorecendo novas conexões neurais. Há um trabalho contínuo de memorização e associação de movimentos, aliado à consciência corporal.
*estagiária sob supervisão de Constança Tatsch
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