Vida e Saúde

Psicologia do medo: por que somos fascinados por filmes de terror?

No Halloween, do terror psicológico às produções com desastres. Por que gostamos de sentir medo?

Agência O Globo - 31/10/2026
Psicologia do medo: por que somos fascinados por filmes de terror?
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: OpenAI (GPT Image)

Um quarto escuro no fim de um corredor, uma voz sussurrando atrás de nós em uma rua deserta, ou um cemitério abandonado no meio da noite, mal coberto pelas sombras das árvores e mausoléus. Então, nosso sistema nervoso entra em ação, nosso coração dispara, nossa pele se arrepia, trememos e sentimos a vontade de fugir ou congelar no lugar. Entramos em contato com uma das emoções mais profundas e primordiais compartilhadas por todos os seres vivos: o medo.

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Como afirma a psicanalista Graciela Cardó, o medo faz parte da nossa evolução como mamíferos:

— De uma perspectiva etológica, esse sentimento é crucial para a sobrevivência porque ativa os instintos de fuga ou congelamento. O que seria realmente preocupante seria não reconhecê-lo.

Em outras palavras, sem o medo, não teríamos conseguido evoluir como espécie e provavelmente teríamos sucumbido em breve a predadores, doenças ou desastres naturais.

Mas os seres humanos não sentem medo apenas diante de situações reais ou ameaças potenciais, mas também diante daquilo que está além dos nossos sentidos. H.P. Lovecraft, um dos autores mais emblemáticos do gênero terror, expressou isso desta forma em "O Horror Sobrenatural na Literatura": "Sentimentos baseados no prazer e na dor surgem em torno de fenômenos compreensíveis, enquanto em torno de fenômenos incompreensíveis são tecidas personificações, interpretações maravilhosas, sensações de medo e terror." Toda uma vertente é explorada por contos, romances, filmes e videogames.

Terror controlado

— De uma perspectiva psicanalítica, as emoções precisam encontrar uma forma de serem vivenciadas. Diferentes estados afetivos buscam objetos, ideias e representações que possam habitá-los. Certamente, a experiência do Halloween nos oferece um veículo, um ritual, para vivenciar sentimentos de medo, ansiedade e terror — diz o psicanalista Daniel Kantor. — E pensando nos filmes, eles nos permitem uma dissociação instrumental entre o que sabemos não ser real e as experiências que abraçamos como se fossem verdadeiras — conclui.

O prazer, portanto, reside nessa encruzilhada. Segundo Graciela Cardó, o sucesso contemporâneo dos filmes, videogames e histórias de terror está no fato de nos permitirem vivenciar esse medo primordial, mas de forma controlada, sem nos expormos ao perigo.

— Você sabe que vai sentir medo, mas também sabe que não é real — explica ela. — Então, há prazer em todo esse sistema excitatório, porque a tensão aumenta e depois diminui. Há uma satisfação real nisso, porque a intensidade aumenta, o corpo é ativado, surge a taquicardia, você leva um susto, mas depois há uma liberação de tudo isso.

No entanto, nem todos conseguem distinguir entre realidade e ficção. É por isso que, enquanto alguns apreciam o gênero terror, outros não o toleram.

— O problema é que existem personalidades frágeis que não diferenciam entre realidade e fantasia, e a ficção as afeta profundamente, deixando-as incapazes de se libertarem dela — explica a psicanalista. Esse terror na tela pode se transformar em pesadelos ou até mesmo em ataques de pânico.

— Certamente, existem pessoas que não se adaptam a esse gênero — acrescenta Daniel Kantor. — Que vivenciaram traumas que ressurgem quando um filme as coloca novamente na experiência do medo ou do perigo.

A chave para o prazer reside no que o psicanalista chama de “experiência do tipo ‘como se’”.

— Você vai ao cinema sabendo que o filme dura uma ou duas horas — explica ele. — E o que você vê pode ficar na sua memória, mas não se tornará um trauma pessoal. A mesma coisa acontece quando vemos notícias sobre terremotos, guerras, tiroteios; elas podem evocar medo, empatia, fraternidade, dor, mas podemos desligar a televisão e nos desconectar dessa experiência… Assistir a filmes ou notícias é como um ensaio, como uma preparação pessoal ou um devaneio sobre o que vivenciaríamos quando tivéssemos que passar por essa situação.

Do que temos mais medo?

A este respeito, Graciela Cardó cita Sigmund Freud, o fundador da psicanálise, que afirmou que o estranho ou o sinistro é o cotidiano que regressa de forma distorcida.

— Penso em filmes de terror como "Cemitério Maldito", em que o gato regressa, o filho regressa, mas distorcido, com toques sinistros. É também o caso das casas assombradas: deveriam ser o nosso refúgio, mas nos filmes de terror, o familiar torna-se estranho. Isto também explica por que tantos filmes giram em torno de famílias ou da infância; em quartos, espelhos ou no próprio corpo, porque são temas que conhecemos. O terror perturba. Lembro-me daquela casa onde vive a personagem de Norman Bates em "Psicose", de Hitchcock — diz a psicanalista.

Para Kantor, o conceito freudiano do estranho é muito útil para pensar o Halloween.

— Freud fala daquilo que nos é desconhecido, mas familiar, e a morte é, por excelência, isso. A experiência do Halloween permite-nos entrar em contato com aquilo que sobrepuja a nossa racionalidade e dá lugar ao mágico sombrio, mas também ao omnipotente, a tudo o que está relacionado com a superstição ou o sobrenatural, aquilo que vai além até de uma explicação religiosa.

— A questão é que, segundo Freud, não se pode representar a própria morte. Não se pode imaginar não estar lá, então todas essas fantasias de zumbi, lobisomem, vampiro, são manifestações da ansiedade que sentimos em relação à morte — acrescenta Kantor.

O mal interior

Mas o mal nem sempre está fora de nós. Cardó cita Melanie Klein, outra psicanalista, que fala de duas posições: a do esquizoide-paranoico, onde o mal está fora, é o outro que nos assusta (o fantasma, o alienígena, o zumbi) e nós os evitamos e escapamos deles; ou a de um estado depressivo, uma mea culpa interna, onde o mal está dentro de nós. — Então também causa arrepios ou é muito assustador — comenta Cardó. — Quando o protagonista de repente percebe que ele é o vilão, que ele é o diabo. Nesse caso, lembro-me de dois filmes que me impactaram: "Coração Satânico" e "O Advogado do Diabo".

— E por que nos cativam? — pergunta a psicanalista. — Porque tudo isso está dentro de nós. O estranho também é reprimido, nossos desejos de morte e assim por diante, que vêm à tona dessa forma… Um bom filme de terror, um bom livro de terror, não apenas nos assusta, mas também nos ajuda a processar aquelas partes de nós mesmos que, de outra forma, permaneceriam ocultas.

Nesse sentido, ela destaca as fantasias de mulheres grávidas sobre terem filhos monstruosos, um tema que o gênero de terror tem explorado repetidamente.

— Às vezes são fantasias inconscientes — alerta Cardó — Ninguém sairá do cinema dizendo: "Eu fantasiei ser o Anticristo", mas acredito que todos esses filmes e romances reproduzem aspectos reprimidos que retornam de tempos em tempos. Às vezes projetamos o mal para fora e nos vemos como os bons, mas há momentos em que reconhecemos que fizemos algo errado e sentimos que [o sinistro] reside dentro de nós.