Vida e Saúde

8 em cada 10 casos de câncer de pulmão em SP são descobertos em estágio avançado, revela estudo

Maior parte dos diagnósticos foi encontrado nas fases III e IV, o que dificulta o tratamento de tumores; novo estudo deverá refletir situação de todo o país.

Agência O Globo - 16/09/2026
8 em cada 10 casos de câncer de pulmão em SP são descobertos em estágio avançado, revela estudo
8 em cada 10 casos de câncer de pulmão em SP são descobertos em estágio avançado, revela estudo - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Uma análise realizada com dados do estado de São Paulo mostrou que 79% dos casos de câncer de pulmão detectados nas últimas décadas no serviço público estavam nos estágios III ou IV, os mais avançados da doença. A análise usou dados de 16.038 pacientes diagnosticados entre 2000 e 2016 em todo o estado — o acompanhamento desse grupo foi encerrado em 2022.

A análise, que reflete apenas o estado mais populoso do país, foi publicada no periódico Journal of Thoracic Disease. Do total de casos avaliados pelo estudo, 49,8% dos pacientes estavam em estágio IV e 29,1% em estágio III no momento em que foram diagnosticados. Apenas 11,6% estavam em estágio I e apenas 6,8% na fase II.

Trata-se de um dado especialmente preocupante, pois o câncer de pulmão é um dos que mais mata no Brasil, sendo o terceiro em letalidade entre homens (incluindo lesões de traqueia e brônquio) e o quarto em ocorrência para mulheres. A detecção precoce, explica o cirurgião torácico do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Oswaldo Cruz e coordenador do estudo, Fernando Conrado Abrão, é um aspecto de extrema importância para o bom prognóstico do quadro.

— Apenas 18% dos pacientes chegam para diagnóstico em estágio I e II, que é o momento em que os pacientes têm chance de cura com o tratamento. Esse dado, que reflete o diagnóstico tardio, é muito alarmante e bem atual — diz. — Como a maioria dos cânceres, essa é uma doença silenciosa. Quando há sinais, já estamos lidando com uma condição mais avançada. Há outra causa que sabemos que contribui: o acesso à saúde. O estudo não mapeia isso, mas sabemos que há distância entre o paciente chegar ao serviço de saúde e, por outro lado, conseguir navegar por ele.

Fernando lembra que uma medida de proteção para o câncer de pulmão é evitar o tabagismo, um alto fator de risco para a doença. De acordo com dados do Ministério da Saúde, cerca de 90% das mortes causadas por câncer de pulmão são em pacientes com histórico de consumo de tabaco.

— O aspecto mais importante é não fumar. E se fumar, procure ajuda. Temos no SUS e no serviço de saúde público e privado especialistas, do clínico geral ao pneumologista, que podem ajudar quem precisa parar de fumar — afirma Fernando. — Também é possível fazer rastreio da doença, individualmente para o paciente quando o cirurgião torácico achar necessário. Quem se beneficia desse rastreio é quem está acima de 50 anos e fuma há mais de 20 anos.

O especialista afirmou que planeja fazer um estudo semelhante com dados de todo o país, não unicamente de um estado.

Em nota, o Governo de São Paulo apontou que registrou 23.132 internações por neoplasia de pulmão entre 2023 e 2026. Afirmou que "vem ampliando, desde o início da atual gestão, as ações de prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer, com medidas voltadas especialmente ao controle do tabagismo".

Há, por exemplo, a Política Estadual de Controle do Tabagismo (PECT), que reúne ações para reduzir a prevalência do uso de produtos de tabaco e da dependência de nicotina, com vigilância e prevenção. No âmbito da política, diz a pasta de Saúde, mais de 1 milhão de pessoas foram atendidas. No aplicativo do Poupatempo há também o serviço "Vida Sem Nicotina" para quem quer parar de fumar.

Pelo app, o usuário pode realizar o Teste de Fagerström, que avalia o grau de dependência à nicotina, e consultar locais da rede pública em busca de tratamento.