Vida e Saúde

Ecoansiedade: Quando a preocupação com o planeta e as mudanças climáticas viram estresse crônico

Medo de novos eventos extremos pode surgir após uma experiência traumática, enquanto a incerteza sobre o futuro do planeta leva outras pessoas a repensar escolhas, planos e até a decisão de ter filhos

Agência O Globo - 14/09/2026
Ecoansiedade: Quando a preocupação com o planeta e as mudanças climáticas viram estresse crônico
Ecoansiedade: Quando a preocupação com o planeta e as mudanças climáticas viram estresse crônico

A preocupação com o futuro do planeta pode deixar de ser um medo pontual e passar a interferir de forma persistente na vida cotidiana. O receio de uma nova tempestade, a sensação de falta de controle diante de eventos extremos ou a angústia provocada pelas transformações ambientais podem afetar a saúde mental. Especialistas apontam que, quando esse sofrimento se torna frequente e começa a comprometer a rotina, pode estar associado à ecoansiedade — termo usado para descrever os impactos emocionais relacionados à crise climática e às suas consequências.

A ecoansiedade não é um diagnóstico clínico nem um transtorno específico reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), principal referência para a classificação de condições psiquiátricas. Ainda assim, pode causar sofrimento e sintomas como angústia, tristeza, irritabilidade, alterações no sono, dificuldade de concentração e crises de ansiedade ou pânico. Embora o termo tenha ganhado espaço nos últimos anos, os impactos psicológicos das mudanças ambientais são estudados há décadas. Em 2017, a Associação Americana de Psicologia (APA) a definiu como o “medo crônico de catástrofes ambientais”.

Para a designer e estrategista de sustentabilidade Jéssica Alcântara, de 30 anos, a ecoansiedade veio depois de viver uma microexplosão — corrente de ar descendente violenta que sai de uma nuvem de tempestade e desaba em direção ao solo —, em 2022, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense do Rio. A força das rajadas dobrou um telhado de alumínio, que caiu sobre a escada de acesso à sua casa. Sem conseguir descer, ela ficou presa no andar de cima enquanto via objetos voarem pela janela.

— Parecia que eu estava no olho da tempestade. Havia muito barulho, tudo era muito intenso. Olhava pela janela e não via nada, só ouvia as coisas batendo no guarda-corpo e na porta — conta Jéssica.

Nos meses seguintes, passou a ficar apreensiva diante da previsão do tempo. Em uma madrugada de 2023, durante uma ventania, teve uma crise de ansiedade tão intensa que não conseguia se levantar do chão. O episódio a levou a procurar uma psicóloga, com quem continua em acompanhamento. Com isso, o clima passou a impactar suas decisões.

— Comecei a perceber que as mudanças climáticas deixaram de ser uma discussão distante, sobre um futuro abstrato, e passaram a fazer parte das decisões concretas da minha vida. Fico pensando onde vou morar, para que não tenha risco de enchentes. Penso em lugares onde me sentirei mais segura e em que tipo de cidade quero viver — destaca.

Uma pesquisa realizada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em parceria com a Universidade de Oxford e o instituto GeoPoll, em 2024, mostrou que 56% dos entrevistados pensavam em problemas relacionados ao clima pelo menos uma vez por semana.

No Brasil, a edição de 2025 do Panorama da Saúde Mental, produzido pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, mostrou que 74,3% dos mais de 10 mil entrevistados já haviam vivenciado diretamente as consequências de algum evento climático extremo, como enchentes, queimadas ou ondas de calor. Quase 42% disseram acreditar que as mudanças climáticas têm ou já tiveram impacto sobre sua saúde mental.

Preocupação

Segundo William Berger, professor do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pessoas que já vivenciaram uma catástrofe podem ficar mais vulneráveis diante da possibilidade de que algo semelhante aconteça novamente. Além disso, quem sofre com transtornos de ansiedade, fobias ou outras condições preexistentes também pode ter respostas mais intensas. No entanto, a ecoansiedade também pode atingir quem nunca viveu essa experiência.

— Quando falamos de uma pessoa que nunca passou por um desastre, falamos de ansiedade pela antecipação do perigo. Quando acontece, tudo muda. É como se a gente abrisse a porta para sequelas psiquiátricas, como transtorno do estresse pós-traumático, depressão pós-trauma e outros quadros secundários quando ocorre um trauma físico — explica.

É o caso de Diogo Feliciano, de 30 anos. Morador de São Paulo, o cientista político nunca passou por um evento climático extremo, mas acompanha de perto as mudanças ambientais e considera difícil não estar em um constante estado de ecoansiedade. A situação influencia suas escolhas cotidianas, como não querer dirigir carro, priorizando o transporte público e evitando o consumo de fast fashion — comércio de roupas em grande escala, com baixo custo e alta velocidade.

A crise climática também interfere na maneira como pensa o próprio futuro. Diogo diz ter vontade de ser pai, mas decidiu que pretende adotar uma criança em vez de ter um filho biológico. A escolha está relacionada à incerteza sobre as condições de vida nas próximas décadas.

— Eu tenho muita vontade de ser pai. Mas não penso em colocar uma criança no mundo agora, porque me sinto um pouco sem esperança e sem perspectiva de como vamos estar nos próximos anos. Eu me sentiria muito culpado de colocar uma criança em um mundo que parece que não aguentará 30 anos — afirma.

As notícias sobre a crise climática também despertam nele uma sensação de impotência. Diogo se incomoda, por exemplo, com o avanço de grandes projetos de tecnologia que, segundo ele, podem ampliar a pressão sobre recursos naturais, enquanto suas próprias ações parecem ter alcance limitado.

— Enquanto estou fazendo um trabalho de formiguinha, como vou combater uma Big Tech do Vale do Silício que está instalando vários data centers? É muito desesperador você fazer um trabalho que, é claro, vai ter impacto, mas é um impacto muito menor — avalia.

Apesar disso, afirma que ainda tem esperança e que é ela que o motiva a trabalhar com temas ambientais e ampliar o conhecimento sobre o assunto.

Partir para a ação

Para lidar com a preocupação relacionada à crise climática, Laura Cristina de Toledo Quadros, vice-diretora do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), afirma que uma possibilidade é transformá-la em ação. Isso pode começar com medidas individuais, como a coleta seletiva, e avançar para ações conjuntas de educação ambiental, participação comunitária e mobilização por políticas públicas.

— Pode ser desde uma ação mínima, como todas as pessoas da sua casa fazerem a coleta seletiva, até conscientizar o seu condomínio, a sua vila ou a sua cidade. Você pode criar estratégias de conhecimento, participar de grupos voluntários de educação ambiental — afirma Laura Cristina.

Berger destaca estratégias voltadas à percepção de controle e ao cuidado individual. Para pessoas que apresentam ansiedade relacionada a trauma ou fobias, a terapia cognitivo-comportamental pode ser indicada, dependendo do caso. Preparação e treinamento para situações de emergência também podem ajudar a reduzir a sensação de impotência.

No caso de Jéssica, parte desse caminho aconteceu pelo conhecimento. Ela encontrou um grupo de 215 pessoas que também têm ansiedade relacionada a questões climáticas, onde informações são compartilhadas e ajudam os integrantes a entender a chegada dos fenômenos.

— O sentimento de impotência alimentava minha ansiedade. Trabalhei isso com a minha psicóloga e fui orientada a sempre ter um plano B e entender melhor o que está acontecendo. A sustentabilidade me fez entender que pensar no futuro não precisa significar viver com medo dele — conta.

Para Diogo, o que fez diferença foi fazer uma higiene do sono para controlar os pensamentos.

— Não leio nada durante a noite para não impactar no sono. É um processo para controlar o máximo possível — conclui.