Vida e Saúde

Reconhecidas pelo Guiness, irmãs vivem tema de estudo

História inaugura a minissérie “Vidas Longas” com quatro episódios no EXTRA, até quarta-feira

Agência O Globo - 13/09/2026
Reconhecidas pelo Guiness, irmãs vivem tema de estudo
- Foto: Reprodução / Instagram @folhadaregiaose

Do alto de seus 104 anos, Zoraide de Deus Mota não vê o mundo sozinha nem na hora de bater um recorde mundial. Neste ano, ela deu as mãos às suas duas irmãs Levita de Deus Nunes, de 109 anos, e Zulina de Deus Nunes, de 103, para receber o título do Guinness World Records de “trio de irmãos vivos mais longevo do mundo”. O fato de três mulheres centenárias, lúcidas, pertencerem à mesma família reforça a hipótese de que a herança genética tenha papel importante na longevidade. A mãe das três irmãs, Jovelina de Deus Nunes, também viveu até os 100 anos, assim como uma tia delas. A família despertou o interesse de cientistas que investigam os fatores relacionados ao envelhecimento saudável e se tornou objeto de pesquisa conduzida pelo Projeto DNA Longevo, da USP.

A história das irmãs contada aqui inaugura a minissérie “Vidas Longas” que será publicada no EXTRA em quatro episódios, de hoje até quarta-feira. Nas páginas, falaremos sobre vários aspectos que envolvem a longevidade: dicas de saúde e cuidado, economia, curiosidades e, claro, histórias de vida.

As irmãs recordistas nasceram em Cedro de São João, no interior de Sergipe, cresceram em uma família de 8 irmãos e atravessaram mais de um século de transformações no Brasil: viram a chegada da TV, a popularização dos automóveis, da internet e dos celulares. Hoje, vivem em casas pela Zona Norte do Rio e as lembranças repousam, acima de tudo, na infância. Zulina evoca as memórias dos banhos de rio em Sergipe, quando boa parte dos alimentos era produzida pela própria família, que não tinha geladeira. A alimentação natural e a rotina ativa são ressaltadas por todas elas como fatores fundamentais para a saúde.

Além de tudo, porém, o segredo da vida longa, para dona Zoraide, é estar bem acompanhada:

— Ter a família unida faz diferença na vida de uma pessoa. Desde pequena, sempre tive apoio dos pais para tudo e mantive o contato com os irmãos. E assim continuo até hoje com filhos, netos e bisnetos. Família é tudo.

A trajetória das três é marcada pelo trabalho constante e pelo apoio mútuo. Levita, a mais velha, passou boa parte da juventude cuidando da família na zona rural e, mais tarde, trabalhou por 12 anos na Rede Globo. Zoraide iniciou a carreira como professora rural e, no Rio, tornou-se enfermeira. Já Zulina dedicou-se aos trabalhos manuais e à costura, atividades que garantiram o sustento de seus seis filhos.

Na metade do século passado, as três voltaram a viver na mesma cidade, fortalecendo o vínculo. Zoraide teve cinco filhos com Enéas Alves da Mota, de quem se divorciou em 1975. Ao longo da vida, sofreu perdas profundas, incluindo a morte de dois de seus filhos. Hoje, vive com a filha Ângela e tem 9 netos e 13 bisnetos.

“Convivo com a Dona Zoraide há quase 7 anos e desde o início senti uma grande afeição pelo jeito doce que ela tem. Mulher guerreira, sempre exerceu sua profissão e criou os filhos com dedicação. Aprendi com ela a levar a vida com leveza e sem exageros. Ela ama viajar, jogar buraco com as amigas, sair para beber um bom vinho, comemorar os aniversários e ama observar conversas e contribuir no papo. Ela não pensa no ontem, e sim no que fará no dia seguinte”, elogia Jéssica Carrocino, namorada de Lucas Guerra, bisneto de Zoraide.

‘Chama atenção a capacidade de seguir’

O Projeto DNA Longevo, da USP, estuda o trio de irmãs e outros mapeados pela organização Longeviquest, referência no mapeamento de supercentenários pelo mundo. Os cientistas acreditam que podem encontrar os ‘genes da longevidade’.

— A gente quer descobrir o que esses genes fazem, como eles protegem. Assim poderemos ajudar as pessoas que não tiveram a sorte de vir premiadas. No futuro, imagina-se que será possível alterar genes para que se transformem em ‘genes da longevidade’ — resume Mayana Zatz, professora da USP responsável pelo projeto: — Ainda estamos analisando os dados e fatores biológicos responsáveis pela proteção. Continuamos a recrutar novas centenárias. Já temos 220 coletadas e queremos chegar a 500. Quanto maior o número, melhor será a identificação das variantes ‘protetoras’.

Segundo Mayana, pesquisa publicada na revista Science estima que a contribuição genética para a longevidade é de cerca de 55%. Mas a herança genética é apenas um dos ingredientes da receita da vida longa.

— Essas pessoas costumam ter histórias de vida marcadas por uma boa alimentação desde a infância, por uma convivência familiar forte, pela presença da fé e por uma vida de muito trabalho. Também chama atenção a capacidade de enfrentar as dificuldades e seguir em frente — resume a pesquisadora da Longeviquest Iara Souza: — Nosso principal objetivo é verificar a idade real e construir uma base de informações rigorosamente verificadas para ajudar cientistas em estudos sobre longevidade. Buscamos transformar esse processo em um tributo à pessoa, à família e à sociedade.