Vida e Saúde

Estudo de Harvard aponta que características do baço podem indicar risco de doença cardíaca

Pesquisa identificou alterações no órgão associadas à doença arterial coronariana, independentemente de fatores como colesterol e pressão alta

Agência O Globo - 12/09/2026
Estudo de Harvard aponta que características do baço podem indicar risco de doença cardíaca
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Características do baço identificadas em exames de imagem podem estar associadas ao risco de desenvolver doença arterial coronariana (DAC), segundo um estudo liderado por pesquisadores da Harvard Medical School e do Mass General Brigham, nos Estados Unidos. Os resultados, publicados nesta quarta-feira na Science Translational Medicine, apontam uma possível relação entre o órgão e os mecanismos envolvidos no desenvolvimento de placas nas artérias que irrigam o coração.

A pesquisa analisou dados de 42.059 participantes do UK Biobank e utilizou ferramentas de inteligência artificial para identificar características do baço em exames de imagem abdominal. Dos 107 parâmetros avaliados, dez apresentaram associação com a doença arterial coronariana.

Os pesquisadores também fizeram análises genéticas para investigar a relação entre as características observadas no baço e genes já associados à DAC. Os genes identificados estão envolvidos em processos como inflamação, funcionamento das células musculares lisas, hipertensão e formação de células de gordura.

Uma das associações chamou atenção: duas variantes genéticas no cromossomo 9, na região conhecida como 9p21, estavam relacionadas a uma textura irregular e não uniforme do baço e a maiores chances de doença arterial coronariana. A associação permaneceu mesmo quando considerados fatores de risco tradicionais, como pressão arterial e colesterol.

Relação com inflamação

Segundo os pesquisadores, os resultados ajudam a investigar o papel do baço na doença cardiovascular. O órgão participa da filtragem do sangue e da produção e regulação de células do sistema imunológico e inflamatório.

— As evidências relacionam cada vez mais o sistema hematopoiético às doenças cardíacas, e o baço é um importante centro desse sistema, armazenando e filtrando o sangue e produzindo células imunes e inflamatórias — afirmou Zhi Yu, professor-assistente de medicina da Harvard Medical School e pesquisador do Mass General Brigham.

O estudo também reforça a possibilidade de que alterações no baço possam refletir processos biológicos associados ao desenvolvimento da doença cardíaca. Os pesquisadores, no entanto, ressaltam que os achados ainda não significam que exames do órgão possam ser usados para prever individualmente o risco de DAC.

Resultados não se repetiram em pacientes

Para verificar se as associações encontradas na população geral também apareceriam em pacientes atendidos na prática clínica, os pesquisadores analisaram dados de 2.745 pessoas do Mass General Brigham Biobank.

A maior parte das associações identificadas no UK Biobank não foi reproduzida nesse segundo grupo. Os autores apontam que uma possível explicação está nas diferenças entre as duas populações. O UK Biobank reúne, em geral, participantes mais saudáveis e submetidos a exames realizados com protocolos mais uniformes. Já os pacientes de hospitais podem ter históricos médicos mais complexos e exames realizados com diferentes protocolos de imagem.

Os pesquisadores afirmam que novos estudos, com protocolos de imagem mais padronizados e grupos clínicos maiores, serão necessários para confirmar as associações e determinar se elas podem contribuir para a prevenção ou o tratamento da doença arterial coronariana.

— Essas descobertas esclarecem novos mecanismos que ligam o baço à doença arterial coronariana, oferecendo possíveis alvos para intervenções terapêuticas nesse eixo ainda pouco explorado — afirmou Meghana Kamineni, primeira autora do estudo e médica do Mass General Brigham.