Vida e Saúde

O que acontece com o cérebro na montanha-russa?

O fechamento de uma montanha-russa radical em um parque de diversões nos EUA após registros de lesões graves levanta preocupações sobre a segurança dessas atrações.

Agência O Globo - 29/08/2026
O que acontece com o cérebro na montanha-russa?
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: OpenAI (GPT Image)

O fechamento da montanha-russa X2, do parque Six Flags Magic Mountain, nos Estados Unidos, após relatos de uma série de lesões graves, incluindo hemorragias cerebrais, chamou a atenção para os riscos associados a atrações extremamente radicais. Embora danos cerebrais sejam possíveis nesse tipo de brinquedo, estudos mostram que são raros.

Há muito tempo, a X2 se destaca das montanhas-russas convencionais. O que a diferencia de outras montanhas-russas é a sua característica de "quarta dimensão": os assentos giram 360 graus em torno do trilho enquanto os trens atingem velocidades de quase 128 km/h (80 milhas por hora) durante cerca de dois minutos.

A Six Flags, rede de parques de diversões detentora da atração, a descreve como uma experiência de adrenalina de "quinta dimensão", com giros, reviravoltas e descidas de cabeça para baixo, projetados para criar uma sensação de desorientação. De acordo com uma investigação da CNN, ao longo de duas décadas (a atração foi aberta em 2002 e reformulada em 2008), a X2 foi associada a uma série de lesões graves, incluindo hemorragias cerebrais, cirurgias de emergência, sequelas permanentes e mortes. Os relatos mais recentes ocorreram em julho deste ano.

Em menos de uma semana, cirurgiões de um hospital do sul da Califórnia correram contra o tempo para salvar a vida de duas mulheres que sofriam de hemorragias cerebrais alarmantemente semelhantes. As lesões eram do tipo que os médicos encontram em pacientes após colisões em alta velocidade ou outros acidentes violentos que fazem o cérebro girar e se chocar contra as paredes internas do crânio. No entanto, nenhuma das duas mulheres havia se envolvido em qualquer incidente. O fator comum: ambas haviam andado na X2. Desde os acontecimentos, a atração está fechada.

Mas, afinal, montanhas-russas são tão perigosas a ponto de causar lesões cerebrais graves? Estudos mostram que casos de lesões graves em montanhas-russas são raros. Uma revisão de 2019 publicada pela revista científica Neurology Advisor apontou que cerca de 300 milhões de pessoas andam de montanha-russa nos Estados Unidos todos os anos, enquanto as taxas de hospitalização e morte associadas a brinquedos de parques de diversões permanecem relativamente baixas.

De acordo com os pesquisadores, embora lesões neurológicas — como hematomas subdurais (sangramento entre o cérebro e o crânio), acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e hemorragias intracranianas — tenham sido documentadas na literatura médica, elas geralmente surgem como relatos de casos isolados, e não como ocorrências generalizadas. A análise também apontou que alguns pacientes apresentaram sintomas horas ou até semanas depois de visitar um parque de diversões, o que pode dificultar o reconhecimento da relação de causa e efeito.

Outro trabalho, publicado em 2017 na revista científica Journal of Neurotrauma, constatou que a tensão cerebral durante passeios em montanhas-russas era comparável à observada em cabeceios no futebol e permanecia abaixo dos níveis tipicamente associados à concussão. Os autores concluíram que as montanhas-russas não parecem representar um risco imediato de lesão cerebral aguda para a maioria dos usuários, embora tenham ressaltado a necessidade de mais pesquisas para compreender os possíveis efeitos em indivíduos vulneráveis.

No entanto, alguns especialistas afirmam que brinquedos que expõem os passageiros a forças excepcionalmente intensas - como o caso da X2 - merecem uma análise mais detalhada. Lyndia Wu, professora de engenharia mecânica da Universidade da Colúmbia Britânica que estuda os efeitos das montanhas-russas no cérebro, disse à CNN que, embora o risco de lesões cerebrais traumáticas decorrentes de montanhas-russas seja geralmente considerado muito baixo, atrações como a X2 podem justificar pesquisas adicionais.

Em um relato de caso publicado na revista científica The American Journal of Emergency Medicine, médicos que atenderam uma paciente machucada após andar em uma montanha-russa alertaram que "os avanços na tecnologia de montanhas-russas e a concorrência do setor para atrair frequentadores em busca de fortes emoções podem acabar elevando a aceleração e o desempenho a níveis que superam a capacidade física dos passageiros de suportá-los".

As montanhas-russas também podem causar dores temporárias no pescoço ou nas costas, dores de cabeça ou dores musculares, especialmente após percursos que envolvem aceleração rápida, curvas fechadas e mudanças bruscas de direção. Especialistas observam que a maioria das lesões ocorre sem qualquer falha mecânica do próprio brinquedo e costuma ser de gravidade leve.

No entanto, as mesmas forças que podem provocar desconforto temporário em pessoas saudáveis ​​podem representar riscos maiores para indivíduos com condições médicas preexistentes ou outras vulnerabilidades subjacentes. Por isso, parques de diversões recomendam rotineiramente que visitantes com problemas cardíacos, pressão alta, problemas no pescoço ou nas costas, cirurgias recentes, gravidez ou histórico de convulsões evitem atrações de alta intensidade.

A biologia individual também pode desempenhar um papel importante nesse risco. De acordo com o estudo publicado no Journal of Neurotrauma, dois passageiros na mesma montanha-russa sofreram movimentos de cabeça e níveis de deformação cerebral significativamente diferentes, apesar de estarem em posições semelhantes, o que sugere que algumas pessoas podem ser mais suscetíveis a lesões do que outras.

As evidências não apontam para a necessidade de evitar parques de diversões nem montanhas-russas radicais. A recomendação é ler as placas de aviso, optar por não ir em determinada atração caso se enquadre em alguma das condições listadas e consultar um profissional de saúde antes do passeio, caso a situação não esteja clara.

Os sintomas relevantes que exigem avaliação de emergência após qualquer atração são aqueles que surgem nos minutos e horas seguintes: dor de cabeça súbita e intensa (ou nitidamente pior do que uma dor de cabeça comum), dor no pescoço acompanhada de dor de cabeça, vômitos, confusão mental, fala arrastada, fraqueza ou dormência em um dos lados do corpo, alterações na visão ou perda de consciência.