Vida e Saúde

Brasil terá primeira fábrica do mundo de pele de tilápia para tratar queimaduras; entenda tecnologia

Unidade no Ceará receberá investimento inicial de R$ 52 milhões e poderá processar até 12 mil peles por dia para uso médico

Agência O Globo - 17/08/2026
Brasil terá primeira fábrica do mundo de pele de tilápia para tratar queimaduras; entenda tecnologia
Brasil terá primeira fábrica do mundo de pele de tilápia para tratar queimaduras; entenda tecnologia - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O Brasil deverá ganhar a primeira fábrica do mundo dedicada ao processamento em larga escala de pele de tilápia para uso médico. A unidade será construída em Jaguaribara, no interior do Ceará, com investimento inicial previsto de R$ 52 milhões . A tecnologia, desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Federal do Ceará (UFC) , transforma uma parte do peixe normalmente descartado pela indústria em curativo biológico para queimaduras e feridas de cicatrização difícil.

O projeto industrial será conduzido pelo Consórcio Biotec , por meio da Inova Medical . A expectativa é ampliar significativamente a capacidade de produção de um material que hoje é processado em pequena escala para pesquisas e aplicações específicas.

Atualmente, o laboratório da UFC consegue preparar, em média, até 600 peles de tilápia por mês. A previsão para a nova fábrica é atingir 4,3 mil unidades por dia no primeiro ano de operação comercial. Em uma segunda etapa, a capacidade poderá chegar a 12 mil peles diariamente.

A unidade deverá começar a ser construída a partir de outubro deste ano . O cronograma prevê entre 15 e 18 meses para conclusão das obras, instalação dos equipamentos e validação dos lotes piloto. Se os prazos forem cumpridos, a operação poderá começar em janeiro de 2028 .

A utilização comercial do produto, porém, ainda dependerá do cumprimento das critérios regulatórios e sanitários da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) .

Como funciona a pele de tilápia em queimaduras?

A pele do peixe passa por um processo de preparação e esterilização até ser transformada em um curativo biológico. O material pode ser aplicado sobre áreas lesionadas e adere à superfície da ferida, podendo ser utilizado no tratamento de queimaduras de segundo e terceiro graus.

Uma das principais vantagens apontadas pelos responsáveis ​​pelo projeto é a redução da frequência das trocas de curativos. No tratamento convencional de queimaduras, a substituição do material pode ser dolorosa e, dependendo da gravidade, exigir medicamentos analgésicos e novos procedimentos.

Segundo dados apresentados pela empresa responsável pelo projeto, o uso da tecnologia pode reduzir em 52% o custo total do tratamento de queimaduras em comparação com métodos convencionais. Também há expectativa de diminuição do uso de analgésicos opioides e da necessidade de levar pacientes repetidamente ao centro cirúrgico para a troca de curativos.

A intenção é que, com a produção industrial, a tecnologia possa atender parte da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS) .

Curativo poderá durar três anos sem refrigeração

A fábrica também pretende adotar uma nova forma de conservação da pele processada. O material será submetido à liofilização , técnica de desidratação que permite armazená-lo sem necessidade de refrigeração.

Com o processo, a previsão é de que o curativo tenha validade de até três anos em temperatura ambiente. Antes da aplicação, o profissional de saúde precisará reidratar o material com solução fisiológica.

A mudança pode facilitar o armazenamento e o transporte da pele de tilápia, especialmente para regiões distantes dos centros de produção, além de favorecer uma eventual exportação.

México, Turquia e Portugal já demonstraram interesse na tecnologia para pesquisas e futuras aplicações, segundo os responsáveis ​​pelo projeto.

Fábrica deve gerar 200 empregos

A escolha de Jaguaribara está relacionada à proximidade com o Açude Castanhão , uma das principais áreas de produção de tilápia no Ceará. A localização permite que uma destruição da indústria pesqueira seja aproveitada como matéria-prima de maior valor agregado.

A estimativa é de que a fábrica crie inicialmente 200 empregos diretos . Parte dos trabalhadores deverá passar por capacitação técnica com participação da UFC e instituições de parcerias.