Vida e Saúde

Tomar melatonina para dormir é seguro? Médico explica riscos e dose ideal

Comercializada como suplemento, substância tem uso específico e eficácia limitada; médicos alertam para os riscos do consumo indiscriminado

Agência O Globo - 14/08/2026
Tomar melatonina para dormir é seguro? Médico explica riscos e dose ideal
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A promessa de dormir melhor, mais rápido e com mais qualidade tem levado cada vez mais pessoas às prateleiras de farmácias em busca de melatonina. Vendida como suplemento, a substância ganhou espaço na rotina de quem enfrenta dificuldades para dormir — mas, por trás da popularidade, existem riscos e desinformação.

"A melatonina pode ser útil em situações específicas, mas não é uma solução universal para insônia", afirma o otorrinolaringologista Nilson André Maeda, especialista em distúrbios do sono no Hospital Paulista.

Segundo ele, o uso sem orientação médica tem se tornado comum, o que pode reduzir a eficácia e trazer riscos desnecessários.

Produzida pela glândula pineal, a melatonina é o hormônio responsável por sinalizar ao organismo a transição entre dia e noite, ajudando a sincronizar o ritmo circadiano — especialmente o ciclo sono-vigília.

Sua produção aumenta com a ausência de luz, atinge o pico durante a madrugada e cai ao amanhecer. Já a versão sintética, disponível em suplementos, é quimicamente idêntica, mas sua administração externa não reproduz esse padrão biológico de forma natural.

Por isso, embora a ideia de tomar um comprimido e adormecer rapidamente pareça tentadora, a melatonina não age como os remédios tradicionais para dormir: "Ela não é um sedativo ou hipnótico. Sua principal função é sinalizar ao organismo a hora biológica de dormir, contribuindo para a sincronização do ritmo circadiano", explica Maeda.

"Por isso, costuma ter melhor efeito quando a dificuldade de sono está relacionada a alterações desse ritmo", ressalta o otorrinolaringologista.

As indicações reconhecidas incluem a síndrome da fase atrasada do sono — quando a pessoa só consegue dormir e acordar muito tarde —, distúrbios ligados a viagens com mudança de fuso horário (jet lag), trabalho em turnos noturnos e alguns casos em pessoas com transtornos do espectro autista ou TDAH.

Em idosos, cuja produção natural tende a diminuir, a suplementação também pode ser benéfica. Fora desses contextos, porém, os resultados são menos consistentes. "Na insônia crônica, seja isolada ou associada a outras condições, como estresse ou ansiedade, a eficácia costuma ser baixa".

"Nesses casos, o tratamento de primeira escolha continua sendo a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I), que tem eficácia comprovada e é recomendada pelas diretrizes internacionais", reforça o médico.

Apesar do bom perfil de segurança, a melatonina não está isenta de efeitos colaterais. Sonolência diurna, tontura, dor de cabeça e náuseas estão entre os mais relatados, geralmente de forma leve.

Estudos sugerem que o uso contínuo por até 12 meses é seguro, mas as evidências sobre efeitos a longo prazo ainda são escassas.

Há também um alerta quanto à interação com outras substâncias: a melatonina pode potencializar o efeito sedativo do álcool, de benzodiazepínicos e de alguns antidepressivos. Em gestantes, lactantes e crianças, o uso deve ser feito apenas com acompanhamento médico.

Doses elevadas são outro motivo de preocupação: "A recomendação é sempre priorizar a menor dose eficaz, geralmente entre 0,5 mg e 3 mg, administrada no horário adequado ao ritmo circadiano de cada pessoa. Tomá-la de forma aleatória, no meio da noite ou diante de insônia aguda, tende a não funcionar", orienta Maeda.

Para o especialista, a melatonina pode ser uma aliada no cuidado com o sono — mas apenas quando usada de forma criteriosa. "Mais do que buscar soluções rápidas, é fundamental adotar hábitos saudáveis de sono e, em muitos casos, procurar avaliação médica especializada", conclui.