Vida e Saúde
Como funciona a vacina contra sarampo, usada regularmente desde 1973 no Brasil, e por que é segura e eficaz
População de São Paulo, Guarulhos e de São Bernardo do Campo deve ser vacinada contra o sarampo, independentemente do histórico, para conter surto
Os postos de vacinação de São Paulo, Guarulhos e de São Bernardo do Campo estão lotados após o chamado para que moradores dessas cidades com idade entre seis meses e 59 anos sejam vacinados contra o sarampo, independentemente do histórico vacinal. A resposta comprova a tradicional adesão da população brasileira à vacinação.
O objetivo é conter o surto de 23 casos comprovados no estado em 2026 (mais um caso foi identificado no Rio, mas contido). Para isso, a vacina é a resposta segura e eficaz.
A vacina contra o sarampo é dada no Brasil de forma sistemática desde 1973, quando foi criado o Programa Nacional de Imunizações (PNI) (leia a história completa do seu desenvolvimento abaixo). Antes disso, já era aplicada no país, mas de forma descoordenada pelos Estados e descontínua, sem um calendário nacional unificado.
De acordo com dados oficiais da Organização Mundial da Saúde (OMS), apenas no período entre 2000 e 2024, a vacinação contra o sarampo evitou aproximadamente 59 milhões de mortes no mundo. Os dados compilados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA estimam o mesmo patamar, apontando cerca de 60 milhões de vidas salvas.
A vacina tríplice viral é composta por vírus vivos atenuados — ou seja, enfraquecidos — que não causam a doença, mas estimulam o organismo a produzir defesas contra as três enfermidades, segundo o Ministério da Saúde. A vacina tetraviral protege contra os mesmos vírus, mais a varicela (catapora) e funciona de forma semelhante.
A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) considera protegido todo indivíduo que tomou duas doses na vida, com intervalo mínimo de um mês, aplicadas a partir dos 12 meses de idade.
Em situação de risco para o sarampo — surtos ou exposição domiciliar, por exemplo – a primeira dose pode ser aplicada a partir dos 6 meses de idade (a dose zero). Essa, porém, não deve ser considerada como dose válida para o cumprimento do esquema de rotina: continuam a ser necessárias duas doses a partir dos 12 meses, com intervalo mínimo de um mês.
Em casos excepcionais, como agora, em que é pedida uma dose extra, independentemente do histórico, é possível tomar doses além das do calendário normal. Não faz mal à saúde.
Segurança
"A vacina tríplice viral é segura e bem tolerada. As reações adversas mais comuns são leves e temporárias, como dor, vermelhidão e inchaço no local da aplicação, febre baixa e manchas vermelhas na pele. Entre 5 e 12 dias após a vacinação, algumas pessoas podem apresentar febre mais alta ou aumento dos gânglios linfáticos, sendo raros os casos de convulsões febris em crianças predispostas. A maioria dessas reações é autolimitada, sem complicações ou sequelas. Reações graves são extremamente raras", afirma o ministério.
Quem não deve tomar a vacina: gestantes, pessoas com imunossupressão grave (como em casos de uso de quimioterapia antineoplásica, infecção pelo HIV com comprometimento imunológico grave, uso de medicamentos em doses imunossupressoras ou transplantados, indivíduos com histórico de reação alérgica grave (anafilaxia) a componentes da vacina, como neomicina, e crianças menores de 6 meses.
Mulheres em idade fértil devem evitar engravidar por pelo menos um mês após a vacinação.
Eficácia
Além de segura, a vacina contra o sarampo é extremamente eficaz. Após uma dose, a proteção atinge cerca de 93%. Com duas doses, esse índice sobe para 97%, o que é suficiente para impedir a transmissão sustentada do vírus quando há cobertura adequada na população.
Como o sarampo é altamente contagioso — em um ambiente com pessoas não vacinadas, um único infectado pode transmitir o vírus para até outras 18 pessoas —, para prevenir surtos de forma efetiva, é necessário que pelo menos 95% da população esteja vacinada.
A alta cobertura vacinal também é essencial para proteger, de forma coletiva, quem não pode se vacinar, como recém-nascidos, gestantes e pessoas imunossuprimidas (como pacientes em tratamento contra o câncer).
Dados do Ministério da Saúde (MS) revelam melhora gradativa na cobertura vacinal após a queda observada na pandemia. Em fevereiro de 2026, a cobertura da primeira dose alcançou cerca de 94%, enquanto a da segunda dose chegou a aproximadamente 79% em bebês, segundo o Painel de Vacinação do MS.
História da vacina
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1954, um surto de sarampo em um internato nos arredores de Boston, Massachusetts, proporcionou aos médicos do Boston Children's Hospital a oportunidade de tentar isolar o vírus do sarampo, coletando amostras de alunos infectados. A cultura obtida com o estudante David Edmonston, de 11 anos, levou com sucesso ao cultivo do vírus e permitiu que os médicos criassem a primeira vacina contra o sarampo.
John Franklin Enders, frequentemente chamado de "pai das vacinas modernas", desenvolveu a vacina contra o sarampo a partir da cepa "Edmonston-B", nomeada em homenagem a David e usada como base para a maioria das vacinas vivas atenuadas até hoje.
Enders e sua equipe testaram a vacina contra o sarampo em pequenos grupos de crianças de 1958 a 1960, antes de iniciarem os testes com milhares de crianças na cidade de Nova York e na Nigéria. Em 1961, a vacina foi considerada 100% eficaz e a primeira vacina contra o sarampo foi licenciada para uso público em 1963, ainda de acordo com a OMS.
Apesar de desafios como a dificuldade de manter a cadeia de frio durante o transporte e armazenamento da vacina termossensível, campanhas realizadas em todo o mundo sob supervisão da OMS forneceram evidências de que a vacinação era eficaz contra o sarampo.
Uma versão melhorada da vacina contra o sarampo foi criada em 1968, quando Maurice Hilleman, pioneiro no desenvolvimento de vacinas, passou o vírus por células de embrião de galinha 40 vezes para enfraquecê-lo, produzindo uma dose que não causava efeitos colaterais graves. Essa versão atenuada foi desenvolvida em algumas das cepas ainda usadas atualmente nas vacinas contra o sarampo.
Em 1971, Hilleman combinou a vacina contra o sarampo com as de caxumba e rubéola, criando a famosa tríplice viral.
No Brasil, com a criação do PNI em 1973, a vacina contra o sarampo começou a ser aplicada de forma sistemática, para conter a altíssima mortalidade infantil provocada unicamente pelo vírus.
Na década de 1990, o país adotou a tríplice viral como parte do plano para a eliminação global do sarampo e controle da rubéola.
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