Vida e Saúde
Wolbachia: Anvisa autoriza nova empresa a produzir mosquitos que combatem a dengue; entenda
Brasil ganha nova fábrica em Campinas, da Flyttr, com quase o dobro da capacidade atual e autorização para uso de linhagem inédita que resiste a altas temperaturas
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou uma nova empresa a produzir mosquitos Aedes aegypti modificados para carregarem uma bactéria chamada Wolbachia, que impede a disseminação dos vírus da dengue, Zika e chikungunya. Além de ampliar a capacidade de implementar o método nas cidades brasileiras, o aval para a Flyttr (antiga Oxitec) engloba uma linhagem inédita da bactéria que resiste a altas temperaturas.
Antes, o único fornecedor autorizado a produzir os mosquitos no país era a Wolbito do Brasil, joint venture entre o World Mosquito Programa (WMP) e a Fiocruz. As liberações começaram em 2012, organizadas pelo Ministério da Saúde, e já alcançaram dezenas de cidades, cobrindo uma população estimada de 6 milhões de pessoas. Estudos com dados de vida real apontam reduções de até 89% nos novos casos de dengue nos locais.
— O uso da Wolbachia tem trazido resultados fantásticos pelo mundo. O efeito varia de acordo com fatores como concentração populacional; temos uma maior dificuldade de implementar em comunidades, por exemplo, mas todas essas estratégias são complementares para enfrentar a doença. Essa aprovação da Anvisa é muito bem-vinda, estamos frente a uma nova janela de oportunidades para combate e controle da dengue — afirma Renato Kfouri, infectologista e pediatra, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
Desenvolvida na Austrália, a técnica envolve produzir versões do Aedes aegypti que carregam a bactéria Wolbachia, microrganismo presente em aproximadamente 60% dos insetos, mas que não é encontrado naturalmente nos mosquitos que transmitem a dengue. Porém, quando inserida neles, a Wolbachia impede a disseminação dos vírus da dengue, Zika, chikungunya e febre amarela.
Ao serem liberados no ambiente, esses mosquitos modificados transmitem a bactéria a seus descendentes, e as populações de Aedes aegypti aos poucos são substituídas por aquelas que carregam a Wolbachia. Com isso, reduzem a incidência das doenças na região, e tudo de forma segura, já que a bactéria é inofensiva para humanos.
Em 2025, a Wolbito do Brasil inaugurou uma biofábrica em Curitiba, com capacidade de produzir 100 milhões de ovos por semana, ampliando a estratégia no país. Agora, a iniciativa ganha um novo aliado. No início de julho, a Anvisa concedeu, por unanimidade, um aval para que a fábrica da Flyttr em Campinas, São Paulo, também produza os mosquitos com Wolbachia.
A unidade, que foi inaugurada no final do ano passado, tem uma capacidade maior: 190 milhões de ovos por semana. Além disso, a autorização permite não apenas o uso da linhagem tradicional da bactéria, a wMel, mas também de uma nova linhagem chamada wAlbB, tolerante a temperaturas mais altas, o que pode viabilizar a implementação do método em cidades mais quentes.
— Essa pode ser uma ferramenta bastante importante para cidades que inclusive não estão contempladas hoje, existe uma limitação de temperatura máxima. Ela já é uma linhagem conhecida, bem estudada pelos acadêmicos e já foi utilizada em alguns países da Ásia, como Cingapura e Malásia. Já tínhamos um corpo de literatura bastante robusto em relação a ela — diz Natalia Ferreira, diretora-geral da Flyttr no país e doutora em Genética e Biologia Molecular pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Além disso, ela explica que a Flyttr pode usar uma estratégia de caixinhas para enviar os mosquitos às cidades que receberão o método Wolbachia, o que elimina a necessidade de construção de unidades regionais para distribuição dos mosquitos vivos, como é feito hoje. O produto é entregue ainda na forma de ovos, em pequenas caixas que são ativadas com água diretamente no local de soltura.
— Com essa tecnologia, conseguimos, a partir de um único centro de manufatura, atender o Brasil inteiro e até mesmo exportar para outros países. É como se fosse uma fábrica dentro de uma caixa; podemos mandá-las direto para as cidades, que só as posicionam e as ativam. E aí esse investimento que seria preciso em infraestrutura pode ser convertido em áreas maiores cobertas, com mais pessoas contempladas — explica Natalia.
Essa tecnologia já era utilizada pela Flyttr para o Aedes do Bem, outra estratégia que usa mosquitos machos geneticamente modificados para, ao acasalarem com as fêmeas, gerar descendentes que apenas sobrevivem até a fase adulta se forem também machos. Isso para reduzir a população de mosquitos, já que apenas as fêmeas picam os humanos, ou seja, transmitem os vírus.
O novo aval da Anvisa para a produção dos mosquitos com Wolbachia tem duração de cinco anos e condiciona que a produção da Flyttr seja destinada exclusivamente para atender ao Programa Nacional de Controle das Arboviroses do Ministério da Saúde. A adaptação da fábrica para isso começou em 2024 e contou com um investimento da Fundação Bill e Melinda Gates.
— Quando começamos a expansão da fábrica, já demos início às reuniões com o Ministério. Eles pediram uma proposta, que foi apresentada em fevereiro. Agora, com essa aprovação, esperamos retomar os diálogos. Ter mais um fornecedor tende a levar os preços para baixo. Todo mundo ganha, e espero que isso seja realmente o ponto de virada para que o Brasil conte uma história diferente, sendo o primeiro a diminuir drasticamente o número de casos de dengue — diz Natalia.
A diretora da Flyttr conta que a empresa já deu início à produção dos ovos, já que as unidades têm uma validade longa, de meses. A ideia é construir um estoque que esteja pronto para quando o Ministério da Saúde solicitar. A expectativa é começar a fornecer já pensando na próxima temporada de dengue, que começa no fim do ano, especialmente em meio ao risco de agravamento do cenário devido ao El Niño.
Fortalecer o combate à dengue é especialmente importante no Brasil. Segundo o painel de monitoramento global da doença da Organização Mundial da Saúde (OMS), atualizado nesta segunda-feira, o país lidera os casos no mundo, com cerca de 65% do total, seguido pelo Paquistão e pela Indonésia. De acordo com dados do Ministério da Saúde atualizados no último sábado, são 419 mil casos prováveis e 259 mortes registradas em 2026.
Kfouri explica que, nesse sentido, a adoção de tecnologias novas, como o método Wolbachia, é complementar à de outras ferramentas, como as novas vacinas aprovadas para prevenir a infecção:
— A dengue é um enorme desafio em saúde pública. Ela tem quatro sorotipos, então as pessoas podem se reinfectar. Quando temos muito tempo com só um sorotipo circulando, você imuniza naturalmente aquela população, mas a entrada de um novo provoca essas ondas e pode haver surtos muito grandes, como foi em 2024. Por isso, precisamos sempre trabalhar nos dois pilares fundamentais, que são o controle da população de mosquitos, como pela Wolbachia, e a redução do risco de contaminação, por meio das novas vacinas, por exemplo.
Em outubro do ano passado, a pasta da Saúde definiu uma lista de 52 cidades a serem contempladas no biênio de 2025/2026 com o método Wolbachia, 41 apenas neste ano. Os locais foram selecionados com base em critérios como população superior a 50 mil habitantes e histórico de alta transmissão de dengue e/ou chikungunya e/ou Zika nos últimos 20 anos, com ênfase nos últimos três anos. Campinas, por exemplo, é uma das que se prepara para receber a estratégia e que poderia se beneficiar da biofábrica da Flyttr, que já está operante no município.
Os resultados da implementação da tecnologia têm sido animadores. Um estudo publicado na revista científica New England Journal of Medicine avaliou a incidência da dengue dois anos após a liberação dos mosquitos na Indonésia e constatou uma redução de 77% nos casos de dengue e de 86% nas hospitalizações.
Em Niterói, no Rio de Janeiro, primeira cidade brasileira com 100% do território coberto pelo método Wolbachia, foi observada, em 2024, uma redução de 89% dos casos de dengue. Um estudo publicado na The Lancet estima que cada real gasto na técnica gera uma economia que vai de R$ 44 a R$ 550.
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