Vida e Saúde

Química do sangue humano está mudando e a culpa é do clima

Acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera vem modificando marcadores do corpo há 20 anos

Agência O Globo - 18/07/2026
Química do sangue humano está mudando e a culpa é do clima
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A piora do ar que respiramos pode estar gradualmente modificando o sangue humano. É o que concluiu um time de pesquisadores do The Kids Research Institute Australia, da Curtin University e da Australian National University (ANU), na Austrália.

Os cientistas analisaram mais de 20 anos de dados da população dos Estados Unidos e encontraram alterações graduais em um importante marcador sanguíneo relacionado ao dióxido de carbono (CO₂). Segundo eles, caso as tendências atuais persistam, esse indicador poderá se aproximar do limite superior da faixa considerada saudável nas próximas décadas.

Desde 1999, os níveis médios de bicarbonato sérico aumentaram cerca de 7% nos indivíduos analisados. Essa substância está diretamente relacionada à quantidade de dióxido de carbono transportada pelo organismo. No mesmo período, as concentrações médias de cálcio e fósforo apresentaram queda.

Essas mudanças ocorreram enquanto a concentração de CO₂ na atmosfera aumentou de aproximadamente 369 partes por milhão (ppm), em 2000, para mais de 420 ppm atualmente.

Crianças e adolescentes podem ser particularmente vulneráveis, já que seus organismos em desenvolvimento estarão expostos por mais tempo ao aumento da concentração de CO₂ na atmosfera.

Para realizar o estudo, publicado na revista Air Quality, Atmosphere and Health, a equipe utilizou dados da Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição dos Estados Unidos (NHANES), com resultados de exames de sangue de cerca de 7 mil pessoas coletados a cada dois anos entre 1999 e 2020.

O monitoramento mostrou que as alterações nos parâmetros da química do sangue seguiram um padrão que acompanhou de perto o aumento da concentração de CO₂ na atmosfera.

Segundo Alexander Larcombe, um dos autores do estudo, o padrão observado pode indicar que o organismo humano já esteja respondendo às mudanças na composição da atmosfera.

"O que estamos observando é uma mudança gradual na química do sangue que acompanha o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, principal responsável pelas mudanças climáticas", afirmou Larcombe ao SciTechDaily.

O bicarbonato ajuda o organismo a manter o equilíbrio entre acidez e alcalinidade. À medida que a concentração de CO₂ aumenta, o corpo pode reter mais bicarbonato para preservar o pH do sangue dentro da faixa normal. No entanto, manter esse ajuste por longos períodos pode produzir efeitos fisiológicos.

"Se a tendência atual continuar, nossos modelos indicam que os níveis médios de bicarbonato poderão se aproximar do limite superior da faixa considerada saudável dentro de cerca de 50 anos", disse Larcombe. "Os níveis de cálcio e fósforo também poderão atingir o limite inferior de suas faixas de normalidade ainda neste século."

Phil Bierwirth, coautor do estudo e geocientista ambiental aposentado vinculado à Faculdade Emérita da ANU, ressalta que a pesquisa não demonstra uma relação direta de causa e efeito. Ainda assim, ele afirma que a consistência das alterações observadas em toda a população merece atenção.

"Parece que evoluímos para viver em uma faixa de concentração de CO₂ atmosférico que agora pode ter sido ultrapassada. Essa faixa mantém um equilíbrio delicado entre a quantidade de CO₂ no ar, o pH do sangue, a frequência respiratória e os níveis de bicarbonato. Como a concentração de CO₂ na atmosfera hoje é maior do que em qualquer outro momento da história da espécie humana, esse gás aparentemente está se acumulando em nosso organismo. Talvez nunca consigamos nos adaptar plenamente, o que torna ainda mais importante limitar os níveis de CO₂ na atmosfera."

Para Larcombe, a concentração de CO₂ atmosférico precisa ser considerada não apenas um indicador ambiental, mas também uma variável de saúde pública.

"Não estamos dizendo que as pessoas passarão a adoecer de repente quando determinado limite for ultrapassado", afirmou. "Mas os resultados sugerem que podem estar ocorrendo mudanças fisiológicas graduais em escala populacional, e isso é algo que deveria ser monitorado como parte das futuras políticas relacionadas às mudanças climáticas."