Vida e Saúde

Horas em vídeos curtos e sem sentido? Saiba o que a ciência diz sobre o “brain rot”

Pesquisas apontam riscos do uso excessivo de telas para a saúde mental, especialmente entre adolescentes

Agência O Globo - 19/06/2026
Horas em vídeos curtos e sem sentido? Saiba o que a ciência diz sobre o “brain rot”
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Você já se deitou na cama — ou entrou no ônibus voltando para casa —, abriu um aplicativo de vídeos curtos e passou horas rolando a tela? Muitas vezes, consumindo conteúdos bobos, repetitivos ou sem sentido?

Na internet, essa prática ganhou um nome: “brain rot”, expressão em inglês que pode ser traduzida como “cérebro apodrecido”. A gíria surgiu em tom de brincadeira para descrever conteúdos que serviriam apenas para “desligar” o cérebro, como se o excesso desse consumo pudesse causar um “apodrecimento” mental.

A expressão também passou a ser associada a personagens criados por inteligência artificial, conhecidos como “brain rot italiano”. Quem convive com crianças pequenas provavelmente já ouviu falar de figuras virais como “Tung Tung Tung Sahur”, uma das mais populares desse universo.

Apesar do tom de piada, pesquisas recentes indicam que o chamado “brain rot” pode estar relacionado a prejuízos reais para a saúde do cérebro. Em maio, o governo dos Estados Unidos divulgou um alerta do Cirurgião-Geral sobre os malefícios do uso de telas por jovens, com destaque para redes sociais, jogos, chatbots e outras atividades digitais.

Cada vez mais estudos apontam que o uso excessivo de dispositivos digitais, como celulares, tablets e computadores, além das redes sociais, pode ser prejudicial, especialmente para a saúde mental, informa o site Science News.

O impacto preocupa sobretudo entre adolescentes. Jason Nagata, médico especializado em saúde de adolescentes e mídia digital na Universidade da Califórnia, em São Francisco, liderou um estudo que acompanhou quais aplicativos os jovens abriam e usavam durante o período escolar.

Segundo a pesquisa, os aplicativos educacionais apareciam quase sempre no fim da lista. Em contrapartida, as redes sociais estavam entre os apps mais acessados pelos estudantes.

Em 2021, um estudo com 500 estudantes de 15 a 19 anos, na Índia, mostrou que um em cada três apresentava sintomas de dependência de telefones celulares. Outras pesquisas indicam que o uso compulsivo — ou mesmo o hábito intenso — de smartphones pode interferir no sono, no desempenho escolar e nas relações de amizade.

Causa e efeito

Um dos principais estudos sobre o desenvolvimento cerebral de adolescentes é conhecido como ABCD, sigla em inglês para Adolescent Brain Cognitive Development, ou Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente.

Com base em dados do ABCD, Nagata publicou, em 2025, um estudo no American Journal of Preventive Medicine apontando que passar muito tempo em frente às telas está associado a maior risco de problemas de saúde mental, como depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e transtornos alimentares.

Uso de IA pode ser nova forma de “brain rot”

Com a popularização de chatbots como ChatGPT, Claude e DeepSeek, uma nova forma de “apodrecimento cerebral” começou a ser discutida. Dependendo da forma como são usados, esses sistemas podem funcionar como uma espécie de “substituto” do raciocínio próprio.

Por serem ferramentas recentes, ainda há poucos estudos sobre os efeitos dessa modalidade de inteligência artificial no cérebro. No entanto, os primeiros achados sugerem que o uso excessivo pode reduzir o esforço cognitivo e diminuir a atividade cerebral em determinadas tarefas.

Nem tudo parece perdido

Para Baumgartner, crianças e adolescentes se adaptam rapidamente às novas mídias. Uma de suas pesquisas indica que jovens que usam dispositivos digitais com frequência enquanto realizam outras atividades podem relatar mais dificuldade de concentração.

No entanto, quando não tentam fazer várias coisas ao mesmo tempo, esses adolescentes conseguem se concentrar tão bem quanto colegas que relatam menos multitarefas digitais.

“Se você usa a mídia de uma forma que faz você se sentir melhor consigo mesmo, que permite aprender e se conectar com outras pessoas, isso é ótimo”, afirma Nagata. “Se você se sente mal com o conteúdo que tem visto, isso pode ser um sinal para parar.”