Vida e Saúde

As 4 lesões mais comuns que os jogadores de futebol (profissionais ou amadores) sofrem em campo

Seleção brasileira foi uma das 48 seleções presentes na copa que mais sofreram com as lesões de seus jogadores

Agência O Globo - 19/06/2026
As 4 lesões mais comuns que os jogadores de futebol (profissionais ou amadores) sofrem em campo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A Copa do Mundo começou há uma semana, e todas as 48 seleções já jogaram ao menos uma partida. Porém, o que chamou atenção neste começo do torneio foram as diferentes lesões que os jogadores de diversos países sofreram.

A equipe brasileira foi uma das que mais foram acometidas: o atacante Rodrygo sofreu uma ruptura no ligamento cruzado anterior e machucou o menisco externo do joelho direito, que o tirou da competição. O zagueiro Éder Militão lesionou a coxa esquerda, enquanto o atacante Estêvão foi afetado no posterior da coxa direita. Ambos foram cortados dos planos da comissão técnica. Neymar lesionou a panturrilha direita e não jogou o primeiro jogo do Brasil contra o Marrocos.

No cenário internacional, Serge Gnabry, da Alemanha, sofreu uma ruptura do músculo adutor da coxa direita e está fora do Mundial. Na França, o jogador Hugo Ekitike rompeu o tendão de Aquiles e foi cortado. Já na Espanha, Fermín López fraturou o quinto metatarso do pé direito e precisou passar por cirurgia.

Uma lesão muscular acontece quando as fibras musculares sofrem algum tipo de dano. Isso geralmente ocorre devido a esforço físico excessivo, o que pode fazer com que elas se estiquem ou contraiam acima da sua capacidade. Responsáveis por gerar força, os músculos são essenciais para o movimento do corpo. Quando danificados, podem surgir dores intensas e limitações.

Em um jogo de futebol profissional ou até durante os treinos, as chances de uma lesão ocorrer são grandes, por conta da energia exigida dos membros inferiores, o excesso de repetição nos movimentos e a fadiga muscular.

Há três tipos de lesões. A primeira na escala de gravidade é a de grau I, mais leve, como um pequeno estiramento ou ruptura de algumas fibras musculares, com dor leve e mínima perda de força. Segundo o Einstein Hospital Israelita, pode haver inchaço e sensibilidade, mas o movimento ainda é possível, ainda que com algum desconforto.

Já a lesão de grau II, a mesma da panturrilha de Neymar, é considerada moderada, pois a ruptura engloba mais fibras musculares. O paciente pode sentir dor mais pronunciada, inchaço, arroxeamento, e uma perda parcial de força e função. O movimento pode ser limitado e doloroso.

Por último, a de grau III, é considerada grave. Há ruptura completa do músculo ou separação do músculo do tendão. Esta lesão causa dor intensa, inchaço significativo, hematomas extensos, e uma perda quase total de função do músculo afetado.

Entre os jogadores de futebol, a região mais afetada é a dos membros inferiores. Na lista de lesões mais frequentes está a parte posterior da coxa, conhecida como isquiotibiais ou bíceps femoral, cuja principal função é estender o quadril e flexionar o joelho. A panturrilha pode ser lesionada com as mudanças bruscas de direção ou impulsão. Músculos adutores (parte interna da perna, próximo a virilha) podem ser afetados durante acelerações, movimentos laterais e também em mudanças de direção. Já os quadríceps (parte anterior da coxa) podem se danificar durante os arranques rápidos, chutes e movimentos explosivos.

Além das lesões musculares, há as lesões articulares, que costumam ocorrer durante os jogos em acidentes durante disputas corporais — um esbarrão brutal entre dois jogadores ou um chute mais forte no joelho, por exemplo, acarretando em uma lesão de ligamento cruzado anterior.

— As articulares são mais comuns durante o jogo, porque decorrem de acidentes. Já as musculares são mais passíveis de acontecer durante os treinos, porque o músculo está fadigado ou estressado pela carga excessiva de força, ou até mesmo pelo jogador estar se recuperando de outra lesão — explica o médico do esporte Francisco Tostes, sócio do Instituto Nutrindo Ideais.

O nutrólogo e médico do esporte Eduardo Rauen afirma que 80% das lesões em jogadores de futebol ocorrem nas pernas, sendo 30% dos casos nos joelhos, 13% nos tornozelos e, por último, coxas e virilha.

— Podemos falar que 40% das lesões são musculares, 20% nas articulações, 15% contusões e apenas 3% são fraturas — diz Rauen, fundador da Liti.

A prevenção é uma das preocupações do grandes clubes. Segundo Tostes, o departamento de fisiologia das equipes costuma saber quando algum jogador está com os músculos fadigados e estressados para poupá-lo dos treinos, controlando seu tempo no jogo e a carga de peso durante os treinamentos. Dependendo dos casos, esses atletas tendem a ficar mais tempo no banco para se recuperar do que jogando.

É preciso levar em conta também as condições sociais daquele esportista. Como considerar se ele está dormindo adequadamente, comendo bem, se o corpo está apto para receber grandes cargas, qual o seu nível de descanso dele, quantos jogos ele jogou e seu histórico de lesões.

— Ter um controle de nutrientes é importante para ele não ter uma câimbra durante o jogo, por exemplo. Quanto mais o músculo estiver nutrido, menor é a chance de ter uma lesão — afirma Rauen.

O jeito e o estilo individual de cada jogador também contribuem para a incidência de lesões. Os dribles, marca reconhecida de Neymar, por exemplo, são focados no confronto direto, nas provocações visuais, como as pedaladas, e nas mudanças bruscas de direção. Isso leva o jogador a ter maior contato físico com o adversário, tornando-se um alvo estático fácil por frações de segundo.

— Esses atletas que driblam mais e têm mais mudança de direções são mais expostos a traumas. Eles encontram os zagueiros do time adversário, que fazem a defesa, são pessoas maiores, mais fortes, e esse embate entre o mais rápido e o mais forte acaba gerando conflito e lesão — explica Rauen.

Outro estilo com particularidades é o do jogador Lionel Messi. O atacante argentino é conhecido por seus dribles mais curtos de desaceleração rápida, o que acaba protegendo mais o corpo do jogador porque há a antecipação do trauma e a fuga do contato. Messi costuma chutar a bola antes de sofrer o impacto. Se a falta é cometida, ele já mudou a trajetória transformando-a em um esbarrão.

Um dos poucos riscos do drible curto é o desgaste muscular por explosão (excesso de piques curtos que sobrecarregam a musculatura posterior da coxa), algo que se agrava com a idade, mas que raramente se transforma em uma lesão cirúrgica ou grave.

— O estilo do Messi, podemos chamar de mais conservador, tem menos contato físico, porém, tem mais aceleração e desaceleração, favorecendo as lesões musculares — Diz Rauen.

Histórico de lesões

Não à toa, Neymar tem um histórico grande de lesões. No último jogo do atacante com a camisa do Brasil, em 17 de outubro de 2023, contra o Uruguai, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, ele rompeu o ligamento cruzado anterior (LCA) e do menisco do joelho esquerdo.

O atacante precisou passar por uma cirurgia e ficou mais de um ano longe dos gramados. Ele voltou a jogar somente em 21 de outubro de 2024, ainda pelo Al-Hilal, da Arábia Saudita. Neymar disputou duas partidas, mas, por conta do longo período de inatividade, sofreu uma nova lesão, desta vez na coxa.

Depois disso, ele ainda sofreu outras duas lesões na coxa quando ele já estava jogando no Santos. No dia 17 de maio deste ano, sofreu a lesão de grau 2 na panturrilha.

Em mais de dois anos, Neymar disputou apenas 45 partidas desde a última vez em que vestiu a camisa do Brasil. Para efeito de comparação, o argentino Lionel Messi, então com 37 anos, disputou 54 jogos somente em 2025. Nesse mesmo período, Cristiano Ronaldo, de 40 anos, jogou 46.

Paulo Zogaib, especialista do Núcleo de Medicina do Exercício e do Esporte do Hospital Sírio-Libanês, afirma que este histórico de lesões é mais importante do que propriamente a idade dos jogadores.

— O que muda é o tempo de atividade do atleta e o histórico de lesões. Um atleta que 38 anos está há cerca de 30 exercitando e fazendo aquele mesmo gesto motor de treinamento, ou seja, aquele músculo provavelmente está fadigado, se ele sofreu lesões ali é ainda pior — afirma Zogaib.

Segundo o médico, dependendo da lesão sofrida, o músculo fica com um tipo de cicatriz e, mesmo com a recuperação, nunca mais será o mesmo. O jogador pode começar a pisar de uma maneira diferente, andar diferente, o que auxilia em novas lesões musculares.

— Se o corte é pequeno regenera bem, mas se ele for maior do que a capacidade do corpo aguenta fica um risco ali, uma cicatriz que somando isso ao tempo de jogo, histórico de lesões e a idade do jogador, vai se deteriorando. O Cristiano Ronaldo, por exemplo, teve poucas lesões ao longo da carreira dele, então a musculatura dele provavelmente está boa. O Neymar, pelo histórico de lesão, pode não ter a mesma sorte — explica.

Prevenção

Uma das principais prevenções quando se trata de lesão é controlar a carga de peso daquele atleta durante os treinamentos e fortalecer a musculatura. Realizar movimentos parecidos com o que vão fazer em campo durante o treino, porém com um peso maior.

— Realizar salto com colete, deslocamento lateral com elástico, como se eles estivessem fazendo um esforço maior do que eles têm que fazer em campo. Quando tira essa sobrecarga, o esforço no campo é menor do que ele fez no treinamento físico, assim o limite dele fica maior, aumentando o grau de segurança — afirma Zogaib.

O médico diz que as regiões citadas no início da matéria, dos membros inferiores, que são os mais comuns de acontecerem lesões, são as mais treinadas e trabalhadas para evitar novos danos.

O endocrinologista e médico do esporte Guilherme Renke, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Personalizada (SBMP), lembra que outra forma de prevenir as lesões é colocar os jogadores em suas posições (fisiologicamente) ideais em campo.

— Conseguimos fazer um exame genético no jogador e saber qual é o tipo de fibra muscular que ele tem mais. Por exemplo, quem tem o tipo 1 é mais resistente, pode atuar na defesa, ser um zagueiro, enquanto o de tipo 2 tem a fibra mais explosiva e pode ser um ótimo corredor e atacante — diz.

Realizar aquecimentos antes dos treinos e jogos também é uma ótima forma de prevenir lesões, bem como hidratar o corpo, se alimentar bem, ter uma boa noite de sono e um tempo bom de repouso, bem como aumentar o fluxo sanguíneo dentro dos músculos.

Tratamento

Há dois tipos de tratamento: a conservadora e a cirúrgica. A conservadora consiste em exercícios de fisioterapia, compressas de água gelada, quente, anti-inflamatórios, entre outros. É muito utilizada por médicos adeptos da medicina regenerativa e não invasiva.

— A cirurgia é uma escolha para facilitar a recuperação dependendo de cada caso, mas independente disso, o cenário mais importante é a fisioterapia pré e pós cirúrgica para melhorar as chances de uma recuperação muscular. Não existe mais essa questão de repouso absoluto ou trinta dias sem fazer nada, é preciso colocar os músculos para trabalhar — afirma Renke.

De modo geral, os médicos afirmam que os atletas devem começar a fazer fisioterapia e exercícios na região do trauma supervisionados por especialistas. Se a lesão precisar de cirurgia, é importante que a fisioterapia comece antes e continue depois dela.

— No caso do Neymar, por exemplo, se abrirmos o músculo dele e suturar pode ser pior para ele. É melhor ele fazer exercícios de fisioterapia por um tempo, visto que a lesão não é muito grave. Mas se o atleta tem uma ruptura do cruzado não adianta usar o modo conservador. É preciso abrir e fazer a cirurgia. Se o atleta é profissional, precisa colocar sempre na balança, se ele pode se recuperar em dois meses com cirurgia por que deixá-lo seis meses em tratamento conservador? — explica Zogaib.

Amador X profissional

Jogadores de futebol amador, ou seja, aqueles que jogam durante o final de semana ou amistosos com amigos também tendem a sofrer lesões e as mesmas que os jogadores profissionais, porém, como eles não colocam tanta energia e nem tanta velocidade como os profissionais, os atletas amadores tendem a sofrer lesões menos graves, como torsões.

Por outro lado, como não há treinamento profissional, preparação e a prevenção diária, podem sofrer mais lesões do que os profissionais.

— Ocorre o contrário. Enquanto no profissional, as lesões musculares ocorrem pelo excesso de volume de treinos e jogos, no amador ocorre pela falta de preparo — resume Rauen.