Vida e Saúde

Como o bicho-preguiça pode ajudar a desvendar os 'segredos' do metabolismo humano

Estudo com participação de brasileiros buscou no DNA respostas para o baixo consumo de energia e a longevidade do mamífero

Agência O Globo - 14/06/2026
Como o bicho-preguiça pode ajudar a desvendar os 'segredos' do metabolismo humano
Como o bicho-preguiça pode ajudar a desvendar os 'segredos' do metabolismo humano - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A ciência está mais perto de compreender a lentidão dos bichos-preguiça. Pela primeira vez, uma equipe de pesquisadores sequenciou o genoma — isto é, fez a descrição completa do DNA — da preguiça-de-dois-dedos. O trabalho identificou sequências genéticas preservadas por milhões de anos nesses mamíferos, que podem ajudar a explicar por que eles têm um metabolismo tão lento e, ao mesmo tempo, altamente eficiente.

A pesquisa, publicada na revista BMC Biology na semana passada, conta com a participação de especialistas do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, além de pesquisadores do Wellcome Sanger Institute, no Reino Unido; do Max Planck Institute for Molecular Cell Biology and Genetics, na Alemanha; e de outras instituições.

Um dos pontos que mais chamam atenção no estudo é a descrição de um grande volume dos chamados “genes saltadores”. Esses elementos podem estar envolvidos em um mecanismo fundamental para a sobrevivência da espécie: a capacidade de viver com baixíssimo consumo de energia. Os achados indicam que esse tipo de gene pode integrar uma espécie de “sistema de apoio” no organismo desses mamíferos, mantendo seu funcionamento mesmo em condições que seriam problemáticas para outras espécies.

— As preguiças são super eficientes do ponto de vista metabólico. Comem muito pouco, mas sobrevivem por muitos anos. Outro aspecto interessante é que elas fazem um tipo incomum de regulação térmica. Conseguem ajustar a temperatura corporal em até 5 graus, algo muito incomum para mamíferos. Nós, humanos, por exemplo, precisamos comer mais no frio, e isso demanda muita energia — explica Pedro Galante, pesquisador do Centro de Oncologia Molecular do Hospital Sírio-Libanês e coautor do estudo. — Esses animais também têm poucos músculos, o que em geral está associado a menor sobrevida, inclusive em humanos, mas eles vivem bastante.

Segundo Galante, a descoberta abre uma janela de oportunidades. No futuro, mecanismos semelhantes aos observados nas preguiças poderão servir como ferramentas para entender disfunções metabólicas e doenças humanas.

Esse tipo de comparação é comum em análises científicas, destaca o especialista. Neste momento, porém, a pesquisa recém-publicada está centrada na área da biologia evolutiva.

— O que estamos fazendo é lançar luz em um quarto escuro. Ao olhar para esse metabolismo da preguiça, que é “normal” sob a ótica da baixa energia, podemos tentar entender como funcionam algumas condições patológicas humanas, como envelhecimento, doenças neurodegenerativas ou diabetes. Em algumas espécies, a solução já está pronta: foi encontrada ao longo de anos de evolução, como no caso dessas preguiças. Nós buscamos entender como isso acontece no organismo delas — afirma.

O pesquisador diz que há interesse em aprofundar as investigações para, no futuro, direcionar esse conhecimento a estudos voltados a problemas de saúde em humanos. Para isso, no entanto, serão necessários novos desdobramentos científicos.

— É legal estudar o metabolismo de preguiça, mas melhor ainda é tentar resolver um problema real da nossa espécie — defende Galante.

Outros bichos

Como explica o pesquisador do Hospital Sírio-Libanês, esse tipo de análise comparativa não é incomum. Em 2022, por exemplo, cientistas de diversas instituições internacionais, como a Universidade de Oxford, divulgaram um estudo sobre as interações moleculares da proteína p53, conhecida como uma “guardiã” do genoma.

De acordo com a pesquisa, essa proteína aparece em cerca de duas dezenas de cópias nos elefantes, o que pode ser uma chave para compreender a resistência da espécie ao câncer.

A p53 desempenha papel importante na resposta a danos no DNA. Além disso, atua na prevenção do crescimento celular descontrolado — dois mecanismos ligados ao surgimento de tumores. Os pesquisadores descobriram que, além de muito presente no organismo dos elefantes, a proteína escapa de um mecanismo de desativação celular que poderia limitar seu funcionamento.

Na prática, isso significa que a p53 permanece mais disponível para detectar e responder a danos nas células, oferecendo uma vantagem relevante para esses grandes mamíferos.