Vida e Saúde
Terapia experimental regenera cartilagem afetada pela artrite e pode ajudar a evitar cirurgias
Abordagem bloqueia proteína ligada ao envelhecimento que enfraquece as articulações; testes ainda precisam avançar em humanos
Um tratamento experimental foi capaz de restaurar cartilagem perdida nos joelhos, abrindo caminho para possíveis alternativas não cirúrgicas no combate à osteoartrite.
No estudo, liderado por pesquisadores da Escola de Medicina de Stanford, nos Estados Unidos, a equipe também obteve resultados promissores em amostras de tecido humano.
A terapia tem como alvo uma proteína associada ao envelhecimento. Em testes com camundongos idosos, o bloqueio dessa proteína impediu o desenvolvimento de artrite após lesões articulares graves.
Quando expostas ao novo tratamento, amostras de material humano coletadas durante cirurgias de substituição do joelho começaram a produzir cartilagem nova e funcional.
Se estudos posteriores confirmarem a eficácia da abordagem em humanos, a técnica poderá reduzir a necessidade de cirurgias de substituição de joelho e quadril. A administração poderia ser feita por meio de injeção local ou medicamento oral.
Uma versão oral do tratamento já está sendo testada em ensaios clínicos para tratar a perda de força muscular relacionada à idade.
Desgaste gradual
A osteoartrite é a forma mais comum de artrite. A doença desgasta gradualmente a cartilagem das articulações, causando dor, rigidez e inchaço. Atualmente, os tratamentos se concentram principalmente no alívio da dor e, em casos graves, na cirurgia de substituição articular.
O tratamento testado pelos cientistas de Stanford atua bloqueando uma proteína chamada 15-PGDH, descrita como uma gerozima, isto é, uma proteína que aumenta com a idade e contribui para o declínio da função dos tecidos no organismo.
As gerozimas foram identificadas pela primeira vez em 2023 pela mesma equipe responsável pelo estudo atual. Em trabalhos anteriores, os cientistas demonstraram que a 15-PGDH desempenha papel importante na perda muscular relacionada ao envelhecimento em camundongos.
O papel da 15-PGDH foi melhor compreendido quando os pesquisadores bloquearam a proteína em animais idosos, que ganharam massa muscular e resistência física. O oposto também foi observado: quando a gerozima foi aumentada artificialmente em camundongos jovens, os músculos ficaram menores e mais fracos.
Segundo os pesquisadores, a 15-PGDH também está ligada à regeneração de células ósseas, nervosas e sanguíneas.
Características próprias
A dificuldade de regenerar cartilagem está relacionada a uma característica que a diferencia de outros tecidos do corpo. Em geral, a regeneração ocorre quando células-tronco se multiplicam e se especializam em células com funções específicas.
No caso dos condrócitos, células responsáveis pela produção de cartilagem, a regeneração ocorre de forma autônoma, quando elas alteram sua atividade genética para retornar a um estado mais jovem. Trata-se, porém, de um fenômeno raro.
O corpo humano possui três tipos principais de cartilagem: a elástica, que dá flexibilidade a estruturas como a orelha externa; a fibrocartilagem, que absorve impactos em locais como os discos vertebrais; e a hialina, mais escorregadia, que permite o movimento de joelhos, quadris e ombros.
A osteoartrite afeta principalmente a cartilagem hialina, seja pelo processo de envelhecimento, seja após lesões ou sobrecarga mecânica. Nesses casos, os condrócitos passam a produzir moléculas inflamatórias e a degradar o colágeno, principal componente estrutural da cartilagem.
Injeção local
A pesquisa atual partiu da comparação entre cartilagens de camundongos jovens e idosos. Os cientistas observaram que os níveis de 15-PGDH praticamente dobravam com a idade.
Para testar essa associação, eles injetaram em algumas cobaias uma molécula capaz de bloquear a ação da proteína. Parte dos animais recebeu aplicações no abdômen, expondo todo o organismo ao tratamento; outra parte recebeu a substância diretamente no joelho.
A equipe também analisou cartilagens retiradas de pacientes submetidos à substituição total do joelho devido à osteoartrite. Após uma semana de tratamento com o inibidor de 15-PGDH, o tecido apresentou menos células degradadoras de cartilagem e menor atividade de genes associados à destruição da estrutura articular.
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