Vida e Saúde

Acesso fácil à maconha aumenta risco de uso entre adolescentes, aponta estudo

Dados publicados na revista científica Addiction indicam que a percepção de disponibilidade da droga pesa mais do que a influência de amigos

Agência O Globo - 12/06/2026
Acesso fácil à maconha aumenta risco de uso entre adolescentes, aponta estudo
- Foto: Ascom PMAL

O uso de maconha por adolescentes apresenta forte associação com a facilidade de acesso à droga, segundo um novo estudo publicado na revista científica Addiction. Embora muitos apontem as amizades como principal porta de entrada para o consumo de Cannabis sativa, pesquisadores da Universidade de Montreal, no Canadá, analisaram o peso real da influência de pessoas próximas nesse comportamento.

A pesquisa utilizou dados de Quebec, no Canadá, provenientes do estudo COMPASS, que acompanhou 1.768 estudantes de 11 escolas entre 2017 e 2019. De acordo com os resultados, ter amigos que usam cannabis, mas não perceber a droga como algo de fácil acesso, não aumenta significativamente o risco de início do consumo.

Por outro lado, a crença de que a Cannabis sativa é fácil de obter, mesmo quando nenhum amigo faz uso da substância, pode elevar substancialmente esse risco. Os pesquisadores ressaltam que a combinação dos dois fatores — amigos usuários e percepção de acesso fácil — produz o efeito mais expressivo.

Nos casos em que os dois cenários estavam presentes, os adolescentes apresentaram risco 21,6 pontos percentuais maior de iniciar o uso de maconha.

“Os adolescentes que tinham amigos que usavam cannabis e que percebiam a cannabis como fácil de obter apresentavam a maior probabilidade de iniciar o uso”, afirma Marie-Pierre Sylvestre, professora da Escola de Saúde Pública da Universidade de Montreal e autora principal do estudo.

Nesse contexto, a percepção de acesso à maconha se mostrou um fator central. Segundo Sylvestre, os dados indicam que enxergar a droga como algo acessível pode explicar aproximadamente 39% da relação entre ter amigos que usam cannabis e iniciar o consumo.

“O que funciona na prevenção é capacitar os jovens, não apenas falar com eles sobre cannabis. Atividades interativas lideradas por colegas ou profissionais da comunidade têm um impacto muito maior do que uma palestra ou simplesmente transmitir informações”, defende Sylvestre.

Cenário brasileiro no uso de maconha

No Brasil, o terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), divulgado em dezembro, indica que um em cada sete brasileiros com 14 anos ou mais já consumiu maconha. O estudo também registrou aumento no uso recente: em 2023, 6% dos entrevistados relataram ter usado a droga no último ano, o equivalente a cerca de 10 milhões de brasileiros. Em 2012, esse percentual era de 2,8%.

O consumo atinge principalmente os mais jovens. Na faixa de 18 a 24 anos, 23,3% — cerca de um em cada quatro — afirmaram já ter experimentado cannabis alguma vez na vida, enquanto 13,2% relataram consumo habitual. A idade média de experimentação é de 18 anos, e pouco menos da metade dos usuários iniciou o consumo antes da fase adulta.

A pesquisa foi realizada pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com a Ipsos, e financiada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

Risco do uso da maconha na adolescência

Um estudo publicado na revista científica JAMA Health Forum, conduzido por pesquisadores da Califórnia, nos Estados Unidos, apontou que jovens entre 13 e 17 anos que relataram uso de cannabis no último ano apresentaram o dobro do risco de receber diagnóstico de transtornos psicóticos e bipolares até os 26 anos. O grupo também apresentou maior probabilidade de desenvolver depressão e ansiedade.

“À medida que a cannabis se torna mais potente e é comercializada de forma mais agressiva, o estudo mostra que seu consumo por adolescentes está associado ao dobro do risco de transtornos psicóticos e bipolares, duas das condições de saúde mental mais graves”, afirma Lynn Silver, diretora do programa Getting it Right from the Start, do Instituto de Saúde Pública, e coautora do trabalho.