Vida e Saúde

Copa do Mundo 2026: veja como os jogos mexem com a saúde dos torcedores

Ansiedade antecipatória e emoção durante as partidas podem provocar alterações mentais e fisiológicas no organismo

Agência O Globo - 11/06/2026
Copa do Mundo 2026: veja como os jogos mexem com a saúde dos torcedores
Copa do Mundo 2026 - Foto:

A Copa do Mundo de 2026 começa nesta quinta-feira (11). Com o início da competição, que reunirá 48 selecionados, também surgem sentimentos intensos entre os torcedores. Nos dias que antecedem jogos decisivos, é comum que ocorram angústia, angústia, dificuldade para dormir e problemas de concentração nas tarefas do dia a dia.

Segundo a psicóloga Anna Lucia Spear King, doutora em Saúde Mental e fundadora do Instituto Delete — Uso Consciente de Tecnologias, da UFRJ, essa sensação desconfortável é conhecida como ansiedade antecipatória. Ela está associada à percepção de incerteza e falta de controle diante de um evento futuro. Neste caso, a preocupação com o desempenho da seleção ou com quem vai vencer a Copa.

— Essa ansiedade antecipatória faz com que as pessoas literalmente se sintam mal no presente, pensando em algo que pode acontecer no futuro — explica King.

A sensação de certeza e controle é importante para o bem-estar psicológico dos seres humanos, e isso tem uma explicação evolutiva. Para nossos ancestrais, sentir angústia diante da incerteza sobre a próxima refeição ou da falta de segurança era fundamental para a sobrevivência. O problema é que, ainda hoje, o organismo pode responder de forma semelhante a uma ameaça real ou imaginária.

Em geral, pessoas com antecipação tendem a imaginar a ansiedade dos cenários em relação a uma situação futura. constantemente, o cérebro interpreta esse pensamento como uma ameaça. A simples possibilidade de perder tempo, por exemplo, pode desencadear uma resposta fisiológica ao estresse, com aumento de substâncias como o cortisol, conhecido como hormônio do estresse, além dos neurotransmissores adrenalina e noradrenalina.

— Essas alterações neuro-hormonais são uma herança que trouxemos para o mundo contemporâneo. Eles visam preparar o organismo para um perigo que está por vir. É uma chamada de fato de luta ou fuga. Ela provoca alterações na pressão arterial, na frequência cardíaca, na temperatura corporal, na abertura da pupila, no aumento do fluxo de sangue nos músculos, entre outras mudanças — explica o endocrinologista Ricardo Oliveira, membro do Departamento de Endocrinologia do Exercício e do Esporte da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

É essa resposta fisiológica que desencadeia o estado de apreensão e os sintomas físicos e mentais sentidos por muitos torturadores. Além de ansiedade, dificuldade de concentração e insônia, podem ocorrer hiperventilação, dor no peito, tensão muscular, ruminação, hipervigilância, falta de ar, distúrbios acelerados, dor de cabeça, fadiga, sudorese, dor de estômago, micção frequente ou diarreia.

Para tentar controlar essa sensação e conseguir exercer as atividades cotidianas até o horário do jogo, os especialistas recomendam práticas que ajudam a liberar energia e aliviar a tensão, como exercícios físicos, além de atividades que favorecem a atenção ao presente, como meditação e exercícios de respiração.

— É importante drenar essa energia para outras atividades, como leitura ou o próprio trabalho. Também se deve evitar substâncias que aumentam o estímulo, como café, energias e alguns chás, ou que aliviam a tensão, mas são estressantes, como álcool e cigarro — recomenda o médico Marcelo Demarzo, professor livre-docente da Escola Paulista de Medicina da Unifesp.

'Haja'

O torcedor tem uma forte conexão emocional com sua seleção. Se dias ou até semanas antes de uma decisão a emoção já está à flor da pele, durante o jogo ela extravasa. O coração bate tão forte que parece que vai sair pela boca. É praticamente impossível ficar sentado ou parado. Gritos e palavrões, para muitos, ajudam a aliviar a tensão. Fisiologicamente, a ocorrência do organismo é semelhante à da esperança, mas em nível muito mais intenso.

Nesse momento, a expressão “haja coração” deixa de ser apenas um clichê e passa a ter uma explicação biológica. O sistema cardiovascular é um dos mais afetados durante momentos de ansiedade, angústia e estresse prolongado, como os gerados pela expectativa de um gol. Diversos estudos, inclusive, mostram aumento de eventos cardiovasculares após partidas de grande emoção.

Um trabalho publicado na revista científica The New England Journal of Medicine, em 2008, revelou que a incidência de emergências cardíacas entre torcedores alemães durante partidas da seleção na Copa do Mundo de 2006 aumentou, em média, 2,66 vezes. Foram registrados mais episódios de infarto, angina e arritmia. Outro estudo, realizado em 2013 pela Universidade de São Paulo (USP), indicou que as ocorrências de infarto aumentaram de 4% a 8% entre brasileiros durante jogos da Copa.

— A ansiedade e o estresse causam vasoconstrição, aumento da frequência cardíaca e sobrecarga no sistema cardiovascular. Isso pode representar risco, especialmente para pessoas com idade mais avançada e doenças prévias — afirma o cardiologista Leandro Echenique, do Hospital Albert Einstein e assessor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP).

Para a maioria das pessoas, a elevação momentânea da frequência cardíaca e da pressão arterial não é prejudicial. No entanto, em indivíduos com doenças cardiovasculares, o excesso de emoção pode representar risco. Mas como saber se a sensação de coração saindo pela boca ou o aperto no peito pela espera do gol são apenas sintomas de ansiedade ou sinais de algo mais grave?

Echenique explica que os sinais de alerta incluem dor contínua no peito, em aperto ou pressão, por mais de três minutos, associada à falta de ar, desmaio, sudorese e náusea. Nesses casos, a recomendação é procurar imediatamente um serviço de emergência.

— O diagnóstico precoce e o rápido início do tratamento fazem toda a diferença — pontua o cardiologista.

Embora assistir a uma partida de futebol, especialmente uma decisão, possa ser fonte de “estresse emocional intenso” e aumentar marcadores temporários de intensidade e constrição dos vasos sanguíneos, não é preciso abrir a mão da experiência. Afinal, torcer também é uma atividade prazerosa. Quando a bola balança a rede e o grito tão esperado de gol finalmente sai da garganta, o organismo não apenas libera a pressão acumulada, como a emoção positiva estimula neurotransmissores associados à felicidade e ao prazer, como dopamina e serotonina.

Em editorial publicado na revista científica Canadian Journal of Cardiology, em conjunto com um estudo que avaliou a frequência cardíaca de torcedores que assistam, pela televisão ou no estádio, a um jogo de particular do Montreal Canadiens, pesquisadores do Zuckerberg San Francisco General Hospital e da Universidade de Montreal escreveram que assistir ao exercício físico — e também ao futebol — “é apenas uma das várias atividades importantes para a qualidade de vida, mas associadas a algum risco”, como exercício físico e sexo. Segundo os autores, “evitar todos os gatilhos equivale a evitar a própria vida e não é uma estratégia viável”.