Vida e Saúde

Retatrutida: nova caneta emagrecedora faz metade dos pacientes a perderam 30% ou mais do peso, o equivalente à bariátrica

Medicamento experimental da fabricante do Mounjaro ainda não foi submetido para aprovação das agências reguladoras e, portanto, não pode ser comercializado

Agência O Globo - 21/05/2026
Retatrutida: nova caneta emagrecedora faz metade dos pacientes a perderam 30% ou mais do peso, o equivalente à bariátrica
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A retatrutida, um novo medicamento da classe de fármacos para obesidade conhecida como “canetas emagrecedoras”, levou 45,3% dos pacientes que receberam uma dose mais alta em um novo estudo a alcançarem uma redução de 30% ou mais do peso, nível associado à cirurgia bariátrica.

A molécula foi desenvolvida pela Eli Lilly, mesma farmacêutica da Mounjaro, e ainda é considerada experimental. Isso porque os estudos da fase três, a última dos testes clínicos e que comprovam eficácia e segurança, ainda estão sendo publicados, e o remédio não foi consultado para análise das agências reguladoras. Somente após aprovação, será permitida a venda.

Os novos dados, divulgados nesta quinta-feira pela Eli Lilly, são referentes ao estudo TRIUMPH-1, um dos testes de fase três períodos pela farmacêutica que envolveu 2.239 participantes com sobrepeso e uma comorbidade associada ao peso ou obesidade. Os voluntários foram divididos em quatro grupos e acompanhados por 80 semanas, cerca de um ano e meio.

Três grupos receberam doses diferentes do medicamento, injetadas semanalmente: de 4 mg, de 9 mg e a mais alta, de 12 mg. O quarto grupo recebeu um placebo para comparação. Os participantes foram alocados aleatoriamente e não souberam receber o remédio ou placebo, para evitar uma influência sobre os resultados.

Após o período de 80 semanas, o grupo que recebeu a dose de 4 mg perdeu, em média, 19% do peso, o que no estudo foi o equivalente a 21,4 kg. Já o de 9 mg viu o número na balança cair 25,9%, o que representou 29,2 kg. A dosagem mais alta, de 12 mg, perdeu 28,3% do peso, 31,9 kg. Para comparação, a dose mais alta do Mounjaro, de 15 mg, proporciona uma queda de, em média, 25,3% após 88 semanas, segundo o estudo SURMOUNT-4.

“Da dose de 4 mg, alcançando quase 20% de perda de peso com um passo de escalonamento (ampliação da dose inicial de 2 mg para o final), até uma dose de 12 mg, que proporcionou um nível de perda de peso há muito associado à cirurgia bariátrica, a retatrutida oferece o potencial de uma abordagem centrada no paciente para a obesidade”, afirma Kenneth Custer, vice-presidente executivo e presidente da Lilly Cardiometabolic Health, em nota.

O que é a retatrutida?

A retatrutida é considerada uma nova geração dos fármacos antiobesidade por ter mais alvos do que os anteriores. A molécula faz parte dos análogos de GLP-1, classe de medicamentos que simula a ação do hormônio GLP-1 no corpo. No pâncreas, essa interação estimula a produção de insulina. Já no estômago, reduz a velocidade da digestão da comida e, no cérebro, ativa a sensação de saciedade.

Um dos remédios mais famosos desse grupo é a semaglutida, do Ozempic e do Wegovy, desenvolvido pela farmacêutica Novo Nordisk. Em seguida, veio a tirzepatida, do Mounjaro, que tinha o diferencial de ser um duplo analógico, simulando não só o GLP-1, como também um outro hormônio intestinal chamado GIP.

Agora, a retatrutida é uma geração ainda mais nova por ser um triplo agonista: além do GLP-1 e do GIP, simula também o hormônio glucagon. Com isso, o efeito na perda de peso é maior do que o de seus antecessores. 45,3% dos participantes que receberam a maior dose atingiram perdas de 30% ou mais, equivalente a uma cirurgia bariátrica, e 27,2% chegaram a uma redução de 35% ou mais do peso após as 80 semanas.

Além disso, entre o grupo que recebeu a maior dose no novo estudo, 65,3% alcançaram um índice de massa corporal (IMC) inferior a 30 no fim dos testes, ou seja, saíram da classificação de obesidade. Incluindo 37,5% que, no início do estudo, eram enquadrados como obesidade classe 3, com um IMC maior que 40.

Os pesquisadores lideraram ainda uma extensão do estudo por até 104 semanas com aqueles que tinham um IMC maior ou igual a 35. Os participantes que ganharam a retatrutida 12 mg alcançaram uma média de redução de 30,3% do peso, o equivalente a 38,5 kg.

O tratamento com o remédio também promove melhorias em outras medidas, como suplementos de cintura, colesterol não-HDL, triglicerídeos, pressão arterial sistólica e proteína C reativa de alta sensibilidade (hsCRP). Os resultados do estudo serão apresentados na 86ª Sessão Científica Anual da Associação Americana de Diabetes e publicados em revista científica revisada por pares.

"A obesidade é uma doença crônica, e as pessoas que vivem com obesidade recebem opções de tratamento que correspondem à biologia complexa de sua doença neurometabólica. Foi impressionante ver que todas as doses de retatrutida resultaram em redução de peso clinicamente significativa para quase todos os participantes", diz Ania Jastreboff, professora da Escola de Medicina da Universidade de Yale, que dirige o Centro de Pesquisa para Obesidade de Yale, e principal pesquisadora do estudo, em nota.

O medicamento também foi considerado seguro, com efeitos adversos semelhantes a outras canetas emagrecedoras. Os mais comuns foram náuseas, que chegaram a acometimento de 42,4% dos tratados com maior dose, e diarreia (32%). Os participantes também relataram constipação (26,1%) e vômitos (25,3%). Outros eventos adversos foram infecções e disestesia (sensações necessárias ao toque, como formigamento e queimação), normalmente leves a moderados e passageiros.