Vida e Saúde

OMS aponta que mortes causadas pela pandemia de Covid-19 triplicam número oficial

Relatório revela que para cada óbito registrado entre 2020 e 2023, outros dois não foram notificados oficialmente

Agência O Globo - 15/05/2026
OMS aponta que mortes causadas pela pandemia de Covid-19 triplicam número oficial
OMS - Foto: Reprodução

Um relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a pandemia de Covid-19 resultou em 22,1 milhões de mortes em excesso entre 2020 e 2023, número mais de três vezes superior aos 7 milhões de óbitos oficialmente registrados. Os dados evidenciam a dimensão da crise sanitária, considerada uma das maiores da história recente.

“Isso implica que, para cada morte por Covid-19 reportada, houve cerca de duas mortes adicionais em excesso relacionadas à pandemia. Essa constatação destaca tanto a subnotificação de mortes diretamente causadas pelo vírus quanto as mortes indiretas impulsionadas por interrupções nos cuidados de saúde, desafios econômicos e outros fatores sociais durante esse período”, aponta o relatório.

A chamada mortalidade em excesso corresponde à diferença entre o número de mortes ocorridas no período analisado e o total esperado na ausência da pandemia, com base em dados anteriores. O índice inclui tanto mortes diretamente ligadas ao vírus, mas não registradas por subnotificação, quanto óbitos indiretos decorrentes do impacto da crise nos sistemas de saúde.

O relatório “Estatísticas Mundiais de Saúde 2026” indica que o pico das mortes em excesso ocorreu em 2021, quando foram registradas 10,4 milhões a mais do que o esperado — um aumento de 17,9%. Segundo o documento, esse cenário foi provocado “principalmente pelo surgimento de variantes mais letais do coronavírus, como a Delta, e pelo forte estresse sobre os sistemas de saúde”. Com o avanço da vacinação, o número caiu para 3,3 milhões em 2023.

A OMS ressalta que as estatísticas oficiais de mortalidade por Covid-19 são problemáticas em muitos países, devido a diferenças no acesso a testes, capacidade diagnóstica desigual e inconsistências na certificação do vírus como causa de morte. Por isso, a análise da mortalidade em excesso é considerada fundamental para retratar a realidade da pandemia.

O relatório explica ainda o motivo de os dados de 2020 a 2023 só terem sido consolidados agora, em 2026. Grandes lacunas de informações entre os países dificultaram o processo: até o fim de 2025, apenas 18% das nações haviam enviado os dados à OMS dentro do prazo de um ano, enquanto quase um terço jamais reportou as informações.

Além disso, apenas um terço dos países atende aos padrões da OMS para dados de mortalidade de alta qualidade; cerca de metade possui dados de baixa ou muito baixa qualidade, ou simplesmente inexistentes. Por isso, a consolidação dos números demanda tempo e envolve métodos estatísticos para estimar informações ausentes.

Para Alain Labrique, diretor do Departamento de Dados, Saúde Digital, Análises e Inteligência Artificial da OMS, essas lacunas “limitam severamente a capacidade de monitorar tendências de saúde em tempo real, comparar resultados entre países e desenhar respostas eficazes de saúde pública”. Mesmo assim, ele ressalta a importância da divulgação dos novos dados.

“Como este relatório é a primeira vez em que conseguimos ver o alcance temporal completo da pandemia de Covid-19, vemos também que a pandemia reverteu quase uma década de ganhos globais na expectativa de vida”, afirmou Labrique durante coletiva de imprensa de lançamento do relatório.

Antes da pandemia, a expectativa de vida global ao nascer vinha crescendo desde o início do século 21, passando de 67 anos, em 2000, para 73 anos, em 2019. A Covid-19, porém, interrompeu esse avanço, “apagando quase uma década de progresso em apenas dois anos”.

Em 2021, a expectativa de vida global ao nascer caiu para 71 anos, retornando a níveis observados em 2011. Somente entre 2022 e 2023, com o avanço da vacinação e a melhora do cenário epidemiológico, o indicador voltou a crescer e atingiu novamente os 73 anos.