Vida e Saúde

Estar acima do peso na vida adulta aumenta risco de vários tipos de câncer em até 5 vezes, mostra estudo com 600 mil pessoas

Trabalho utilizou dados recolhidos de 1911 a 2020

Agência O Globo - 14/05/2026
Estar acima do peso na vida adulta aumenta risco de vários tipos de câncer em até 5 vezes, mostra estudo com 600 mil pessoas
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O ganho de peso na vida adulta está relacionado ao aumento do risco de desenvolver alguns tipos de câncer (relacionados à obesidade) em até 5 vezes, como mostra um novo estudo apresentado no Congresso Europeu sobre Obesidade deste ano, em Istambul, na Turquia.

Para compreender como o peso impacta no desenvolvimento do câncer, a pesquisa contou com 600 mil pessoas, entre 17 e 60 anos de idade. Os dados envolvendo o peso foram recolhidos de 1911 a 2020, e aqueles de acompanhamento oncológico, até 2023.

Como resultado, os pesquisadores observaram que os homens com maior ganho de peso tinham um risco 7% maior de desenvolver câncer do que aqueles com menor ganho, e as mulheres, por sua vez, de 17%.

Homens que desenvolveram obesidade antes dos 30 anos apresentaram um risco 5 vezes maior de câncer de fígado, um risco duas vezes maior de câncer de pâncreas e carcinoma de células renais, e um risco 58% maior de câncer de cólon em comparação com homens que não ganharam peso.

Já mulheres que desenvolveram obesidade antes dos 30 anos apresentaram um risco 4,5 vezes maior de câncer de endométrio, um risco 67% maior de câncer de pâncreas, um risco duas vezes maior de carcinoma de células renais e um risco 76% maior de meningioma.

Após os 30, o ganho de peso em mulheres apresentou forte associação com câncer de endométrio, câncer de mama pós-menopausa e meningioma – tipos de câncer que têm os hormônios sexuais como uma causa direta. Fora deste grupo, o câncer de cólon também apresentou forte ligação com alterações de peso em mulheres acima dos 30 anos.

Entre os homens, as associações com cânceres relacionados à obesidade foram mais fortes para ganhos de peso abaixo dos 45 anos, principalmente para câncer de esôfago e fígado – tipos de câncer para os quais fatores como inflamação crônica, resistência à insulina e (no caso do câncer de esôfago) doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) podem desempenhar papéis importantes.

Para tipos específicos de câncer relacionados à obesidade, houve um aumento de 2,67 vezes no risco de câncer de fígado e de 2,25 vezes no risco de câncer de esôfago entre os homens, e um aumento de 3,78 vezes no risco de câncer de endométrio entre as mulheres.

Quanto aos tipos de câncer que não foram apontados como relacionados à obesidade, acrescentar alguns quilos aumentou em 3,13 vezes o risco de tumores da hipófise em homens e 2,13 vezes em mulheres. As chances de ter um melanoma maligno aumentou em 27% para ambos, de linfoma difuso de grandes células B em 48% apenas para homens, e tumores da glândula paratireoide em 33% apenas para mulheres.

Também foi verificado pela equipe que o ganho de peso em determinadas faixas etárias poderia estar relacionado ao surgimento de alguns tipos de câncer, como o carcinoma de células renais em homens no início da idade adulta, câncer de fígado em homens e câncer de cólon em ambos os sexos na meia-idade e câncer de estômago em homens e meningioma em mulheres na terceira idade. No entanto, essas tendências, em sua maioria, não foram se mostraram significativas quando analisadas estatisticamente.

De acordo com os cientistas, houve uma forte associação entre dose-resposta nos achados, ou seja, para todo ganho de peso ocorreu um aumento direto no risco. Eles apontam que os principais mecanismos biológicos que ligam a obesidade ao câncer incluam alterações no metabolismo dos hormônios sexuais, na sinalização da insulina, na secreção de adipocinas e na inflamação, todos ativados pelo processo de ganho de peso.

“No contexto da crescente prevalência de obesidade e câncer em países ocidentais e globalmente, as descobertas destacam a importância de uma perspectiva do ciclo de vida no controle do peso para a prevenção do câncer”, ressaltam os autores.