Vida e Saúde

Cuidado com o skincare exagerado: rotinas e produtos virais podem afetar sua pele

Alguns casos de dermatite, acne, irritações e alergias estão associados ao uso indiscriminado de substâncias e cremes que se popularizam nas redes sociais

Agência O Globo - 12/05/2026
Cuidado com o skincare exagerado: rotinas e produtos virais podem afetar sua pele
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Uma paciente adulta com uma lesão facial foi consultada no consultório da dermatologista Daniela Saavedra na Clínica Dávila, no Chile. “Ela me disse: 'Vi esses produtos no TikTok, experimentei e agora meu rosto está muito irritado.' Examinei-a e constatei que ela tinha um caso bastante extenso de dermatite de contato ao redor das locais e têmporas, que exigirá tratamento, incluindo corticosteróides orais”, relatou Saavedra ao jornal chileno El Mercurio.

Atenção básica:

Alerta:

Histórias como essa são comuns entre dermatologistas do mundo todo. Os especialistas geralmente concordam com o aumento dos efeitos adversos associados ao cuidado obsessivo com a pele ou ao uso incluído em produtos recomendados nas redes sociais para melhorar a aparência da pele do rosto.

Preocupação global

Os especialistas alertam que as especificações se intensificaram nos últimos anos, impulsionadas por plataformas como Instagram e TikTok, onde rotinas complexas e recomendações sem supervisão profissional se tornam virais.

— As reações adversas aos produtos para a pele estão se tornando cada vez mais comuns em consultas médicas, e isso também está relacionado ao fato de que uma faixa etária de quem aplica essas rotinas tem aumentado — disse Luis Felipe Parada, dermatologista da Clínica Indisa.

— Antes, afetava principalmente mulheres jovens, mas agora vemos casos até em crianças e idosos — acrescentou.

Segundo especialistas, entre os efeitos mais comuns observados estão dermatites, reações alérgicas, manchas e agravamento de condições preexistentes, como acne ou rosácea.

— Frequentemente vemos isso porque o paciente aumentou o número de produtos que utiliza e também porque ativos que são ácidos e que causam descamação ou esfoliação das camadas da pele se tornaram populares — disse Parada.

Adaptação:

Uma das tendências que se popularizaram nos ambientes online são os produtos de beleza coreanos, que geralmente são desenvolvidos para condições de pele e ambientais diferentes da América Latina, comentou Marcelo Lefimil, dermatologista da Clínica Santa María, também no Chile.

— Os cuidados com a pele coreana são muito na moda e promovem o uso de vários produtos, mas a verdade é que em nossa região temos diferentes níveis de umidade e tipos de pele, o que muitas vezes torna nossa pele mais seca e menos tolerante a tantos produtos, ou a todos os tipos de produtos. Quanto mais produtos você usa, maior a probabilidade de uma ocorrência — explicou o dermatologista.

Este é um tema preocupante em muitos países. De acordo com um relatório do ano passado da Universidade de Yale, os jovens nos Estados Unidos estão adotando rotinas de cuidados com a pele cada vez mais complexas, incorporando substâncias que desativam a supervisão médica.

Segundo os médicos, entre os produtos mais frequentemente usados ​​em tratamentos antivirais — e que seus pacientes experimentaram — são ingredientes ativos como retinol e ácido salicílico, ambos amplamente usados ​​em dermatologia, mas que excluem o uso correto.

Cuidados com a pele em transformação:

O retinol, por exemplo, é um derivado da vitamina A que acelera a renovação celular e é usado para tratar acne, manchas e sinais de envelhecimento.

— No entanto, seu uso sem supervisão ou em concentrações prejudiciais pode causar confiança. Normalmente, utilizamos com um aumento gradual da dosagem — comentou Lefimil.

Algo semelhante acontece com o ácido salicílico, um esfoliante químico que ajuda a desobstruir os poros, mas, se usado incorretamente, pode ressecar a pele e desequilibrá-la, causando danos que podem ser graves.

Elisa Bustamante, de 34 anos, conta que decidiu experimentar esse ácido depois de assistir a vídeos no YouTube de uma criadora de conteúdo que o recomendava como parte de sua rotina de cuidados com a pele.

— Meu objetivo era limpar as impurezas e ter uma pele mais macia — disse ela ao El Mercurio. — Certa manhã, lavei o rosto, apliquei o produto e comecei a sentir uma sensação de queimação, e meu rosto ficou muito quente. Quando eu olhei no espelho, estava vermelho, e minha pele estava áspera e muito dura ao toque. Chorei de angústia e não consegui marcar uma consulta com um dermatologista — disse.

Gestação e parto:

Após consultar um médico, o profissional disse a Bustamante que o produto lhe causou "irritação severa por ser muito abrasivo para o meu tipo de pele".

Carolina Sepúlveda, dermatologista da Clínica Biobío, no Chile, também relatou um caso recente de um paciente que comparou ao seu consultório com piora da acne.

— Ele tinha visto nas redes sociais que um produto de determinada marca concluiu curava a acne, então começou a usá-lo, mas acabou obstruindo seus poros, o que agravou seu quadro — explicou ela.

Ideais irrealistas

Por trás desses casos, os especialistas identificam um padrão: a crescente busca pela pele perfeita. Muitos pacientes, segundo dizendo, esperam uma pele lisa, sem poros e completamente uniforme, agora conhecida como pele de vidro.

— Atualmente, existem ideias bastante obsessivas sobre a pele perfeita, mas os seres humanos têm poros, glândulas, pelos... nossa pele não é completamente lisa (...). As pessoas consultam e experimentam produtos motivados por ideais das redes sociais que são muito difíceis de alcançar ou inexistentes — opinou Parada.

— Muitas pessoas comparam seus rostos com pessoas nas redes sociais que usam filtros ou que estão sempre maquiadas. Nessa busca pela pele de porcelana, elas a alteram e adicionam mais produtos, quando a verdade é que a pele responde melhor com menos intervenções — acrescentou Tomás Tabilo, dermatologista da Clínica DermAcné.

Rotina de cuidados:

Este é um ponto em que os médicos concordam: menos é mais.

— O básico deve ser um produto de limpeza, um hidratante e protetor solar. Qualquer outro produto, se necessário, deve idealmente ser prescrito por um dermatologista — disse Sepúlveda.

Segundo Tabilo, diante da vasta gama de opções e da sobrecarga de informações, “os pacientes experimentam coisas diferentes porque não sabem o que é certo para eles”. O problema, alerta-o, “é que incorporar constantemente rotinas complexas ou novos produtos é como uma aposta biológica que pode levar a novos problemas ou agravar condições já existentes”.

— Não seria pecado experimentar um novo produto de limpeza ou hidratante, mas se você tiver um produto com compostos como ácidos esfoliantes ou retinóides, ele sempre deve ser avaliado por médicos — especial.

Os especialistas também recomendam cautela com produtos cosméticos vendidos online, pois é mais difícil verificar se eles possuem registro sanitário e a origem de seus componentes.