Vida e Saúde
‘Mesmo com doença neurodegenerativa, decidi me tornar fisiculturista’, diz homem com ataxia de Friedreich
Após duro diagnóstico na adolescência, Luís Gustavo Sales, de 23 anos, conta que paixão pela musculação trouxe melhoras e propósito
“Eu era um adolescente comum, que fazia tudo e adorava praticar esportes. Mas aos 15 anos, percebi que tinha alguma coisa diferente comigo. Comecei a ter tremedeira quando ia pegar alguma coisa, depois afetou a fala, que ficou meio arrastada. Também passei a ter problemas de coordenação e nos olhos. Eu tinha o olhar perdido, que é chamado de incoordenação ocular. Na escola, sofria muito bullying, muita piadinha, dizendo que eu estava bêbado ou com sono.
Inicialmente, não achava que era algo relacionado à saúde. Até que o quadro piorou muito. Fui a vários médicos e cada um me diagnosticava com uma doença diferente. Disseram que era AVC, neuropatia e até Parkinson.
Até que tive que ser internado. No hospital, a situação parecia terminal. Eu estava totalmente paralisado. Não falava, não andava, não fazia nada. Era como se falasse e minha voz não saísse. Tentasse mexer e meu corpo não respondesse. Um médico fez um exame genético e, finalmente, veio o diagnóstico certo: ataxia de Friedreich (uma doença genética, rara e progressiva, que afeta principalmente o sistema nervoso e o coração).
Ouvi dos médicos que eu não iria melhorar e que o único tratamento seria fisioterapia, em casa. Disseram que a ataxia de Friedreich era uma doença neurodegenerativa, que eu não iria mais caminhar e precisava aguardar a medicina avançar.
Para todo mundo foi um choque. Até então eu era uma adolescente comum. Foi difícil aceitar que a partir dali não teria mais volta.
Mas consegui melhorar do estado em que eu estava no hospital. Foi um processo. Fui ouvindo músicas e me forçando a tentar cantar junto. Também me forçava todos os dias a me mexer, falar alguma coisa, fazer algo. Aos poucos, fui melhorando.
Mas, aos 17 anos, comecei a ter depressão e isso foi se agravando. O tempo foi passando e, aos 18 anos, cheguei ser internado em uma clínica psiquiátrica, após três tentativas de suicídio. Nesse momento, decidi que precisava mudar de vida.
Eu tinha perdido dois anos da escola, mas quis voltar a estudar. Então veio a pandemia. Minha família passou por dificuldades, voltei a ficar triste e piorei de novo. Buscava refúgio nos jogos virtuais, mas vi que não podia ser assim, que tinha que sair e ver gente.
Então, aos 19 anos, estudei para o supletivo, fiz a prova de conclusão do ensino médio e comecei a ir para academia porque eu não tinha condições financeiras de arcar com a fisioterapia. Treinava sozinho, às vezes com a ajuda de quem estava na academia, em busca de qualidade de vida. Conforme fui treinando, fui me apaixonando pela musculação. Nessa época, também comecei a trabalhar em uma empresa de telecomunicações e fazia faculdade de engenharia de software.
Mas estava tão cansado que tive que optar pelo treino ou pela faculdade e escolhi continuar trabalhando e fazendo musculação.
Por fraqueza da doença, caí no banheiro do trabalho e precisei voltar a usar cadeira de rodas. Nessa hora, achei que minha vida fosse acabar, que não tinha mais jeito.
Mas continuei treinando e resolvi me tornar um atleta de fisiculturismo. Treinava intensivamente, todos os dias. De tanto treinar e me forçar a ficar de pé, voltei a caminhar e meu corpo começou a melhorar.
Vida de influenciador
Passei a compartilhar meus treinos nas redes sociais, só para acompanhar meu progresso. Mas então, as pessoas começaram a me seguir e vi que tinha a oportunidade de crescer na internet. Morava no Piauí e quando alcancei 30 mil seguidores, viajei para São Paulo em busca de uma oportunidade em uma academia. Dizia que meu sonho era ser atleta e me deixaram treinar. Também comecei a observar outros influenciadores e fui aprendendo a gravar vídeos e aumentar meu número de seguidores.
Por motivos financeiros tive que voltar para o Piauí. Quando anunciei que iria desistir de competir, meus seguidores me incentivaram a fazer rifa. Um deles até pagou minha passagem de avião para competir em São Paulo. Na competição, eu caí. Mas pensei “quer saber? Vou levantar” e foi quando viralizei. Hoje tenho quase 400 mil seguidores no Instagram, 20 mil no YouTube e 155 mil no TikTok e compartilho meu estilo de vida e meus treinos.
Atualmente, estou me preparando para a mesma competição em que caí ano passado. Tenho 1,65 de altura e 70 kg. O meu metabolismo basal é 2.200 calorias, mas preciso secar, então como apenas 1.300 calorias por dia. Não é fácil. Também faço cardio todo dia em jejum, por uma hora, bebo seis litros de água e faço duas horas de musculação. O objetivo é secar e, ao mesmo tempo, manter a massa muscular.
Me mudei oficialmente para São Paulo e estou morando sozinho. É um pouco difícil, mas estou me adaptando. Caminho com auxílio de andador ou muleta.
Nunca mais tinha saído na rua e caminhado sozinho para fazer algo. Sempre dependia de alguém. Esses dias, peguei o andador e fui à padaria e ao supermercado. Mesmo indo devagar, consegui chegar e foi a maior felicidade.
Perdi todas as amizades da escola. Ninguém ficou perto, nem me apoiou. Mas agora tenho apoio. Tenho amigos influenciadores, amigos atletas e seguidores que me dão força. Para uma pessoa que não tinha ninguém, vivia trancado no quarto até os 19 anos, sem ver gente, é diferente. Não sabia mais conversar. Até que as pessoas perceberam que não era arrogância, era só falta de tato social.
Hoje a ataxia tem tratamento: um medicamento lançado no final do ano passado, que custa cerca de R$ 2 milhões. Entrei com um processo para ter acesso a esse tratamento, mas ainda está na Justiça. Ele não cura, mas ajuda a melhorar um pouco e estabilizar o quadro para não deixar a doença evoluir tão rápido.”
*Em depoimento à repórter Giulia Vidale
*Em depoimento à repórter Giulia Vidale
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