Vida e Saúde

A síndrome misteriosa que faz as pessoas ficarem bêbadas espontaneamente

Condução sob o efeito do álcool, problemas de relacionamento, acusações de consumo secreto de álcool: a síndrome da fermentação intestinal pode causar estragos na vida e na reputação das pessoas

Agência O Globo - 12/04/2026
A síndrome misteriosa que faz as pessoas ficarem bêbadas espontaneamente
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Em 2019, Mark Mongiardo, então diretor atlético de uma escola de ensino médio, foi parado no condado de Sullivan, em Nova York, após um jantar com a equipe de golfe masculina. Ele havia comido um cachorro-quente e batatas fritas, acompanhados de um refrigerante. Não tinha tomado uma gota de álcool, mas o policial que o parou por usar o celular enquanto dirigia sentiu o cheiro de álcool nele. Um teste do bafômetro indicou que o teor alcoólico no sangue de Mongiardo era de 0,18%, mais do que o dobro do limite legal para dirigir.

Detalhe inesperado:

Canetas emagrecedoras:

Era sua segunda infração por dirigir alcoolizado em dois anos, mas esses episódios de intoxicação inexplicável haviam começado décadas antes. Desde o início de sua carreira como professor de educação física e treinador, no início dos anos 2000, Mongiardo, hoje com 43 anos, havia sido repetidamente chamado à atenção porque colegas e jogadores sentiam cheiro de álcool nele.

Em 2016, ele foi reprovado em um teste surpresa de urina e foi obrigado a participar de terapia. Ele deixou aquele distrito escolar porque “sentia que uma reputação começava a se formar”. Duas semanas depois de começar outro emprego, ele foi preso pela primeira vez por dirigir embriagado.

Problemas começaram a surgir em casa também. Ele se lembra de um jantar de Natal em que teve dificuldade para formar uma frase completa ou até mesmo pegar o garfo.

— Não havia álcool sendo servido, e de repente eu estava bêbado — disse. — Meus próprios pais diziam à minha esposa que ela deveria me deixar.

Não era a primeira vez que isso acontecia em reuniões de feriados. Ele não associava os sintomas à embriaguez enquanto aconteciam, e no dia seguinte sua memória costumava estar confusa. Embora insistisse que não estava sendo desonesto, sua família achava que ele estava bebendo às escondidas.

Mongiardo afirma que, nas ocasiões em que consumiu álcool, sempre bebeu apenas socialmente. Mas, depois de sua primeira prisão por dirigir embriagado, sua esposa disse a ele que era necessário parar completamente. Quando foi preso pela segunda vez, em 2019, já fazia quase um ano desde sua última bebida alcoólica.

Foi quando um membro da família sugeriu que ele procurasse o gastroenterologista Prasanna C. Wickremesinghe, que trabalha no Richmond University Medical Center em Staten Island. Conhecido como "Dr. Wick", o profissional já tratou dezenas de pessoas com comprometimento inexplicável.

Sob seus cuidados, Mongiardo passou por um dia inteiro de testes. Ele recebeu uma bebida açucarada e foi cuidadosamente monitorado para garantir que não tivesse acesso a álcool. Ao longo de oito horas, amostras de sangue foram coletadas e analisadas, e seu teor alcoólico no sangue subiu gradualmente para 0,14%.

— Wick entrou balançando a cabeça e me disse: "Você tem síndrome da autofermentação” —conta Mongiardo. — Eu simplesmente comecei a chorar histericamente.

Diagnóstico difícil

À medida que nosso corpo digere os alimentos, os microrganismos intestinais convertem carboidratos e açúcares em etanol, um tipo de álcool — geralmente em quantidades mínimas que são rapidamente metabolizadas. De acordo com Bernd Schnabl, co-diretor do San Diego Digestive Diseases Research Center em San Diego, os microrganismos em pacientes com síndrome da autofermentação trabalham em excesso, aumentando a produção de etanol.

Quando os níveis de etanol superam a capacidade de metabolização do fígado, a pessoa fica bêbada como se tivesse consumido álcool. Casos da síndrome são relatados desde pelo menos a década de 1950, com os primeiros exemplos nos Estados Unidos aparecendo em revistas científicas nos anos 1980. A condição é considerada extremamente rada e a maior parte da pesquisa publicada consiste em relatos de casos individuais. Ela já foi retratada como uma curiosidade na TV, aparecendo em “Grey’s Anatomy” e “The Good Doctor”.

Mas o interesse pela condição está crescendo: na reunião anual do Colégio Americano de Gastroenterologia, em outubro passado, houve cinco apresentações separadas sobre casos de autofermentação. Um estudo recente publicado na Nature Microbiology, co-liderado pelo Schnabl, incluiu 22 pacientes. Outra pesquisa futura de Wickremesinghe e Fahad Malik, gastroenterologistas do St. Joseph’s Health Hospital em Syracuse, em Nova York, inclui 34 pacientes.

Quanto mais a pesquisa é divulgada, mais casos surgem, destaca Malik. Ele afirma ter sido contatado por pacientes da Europa e do Oriente Médio. Os médicos dizem que a condição pode ser mais comum do que se pensava.

Muitos casos passam despercebidos porque o diagnóstico é difícil. Malik diz que seus pacientes muitas vezes já haviam consultado vários médicos antes de chegar ao seu consultório.

— Eles já consultaram um neurologista, um psiquiatra, seu médico de família, e todos dizem: "Não conseguimos descobrir o que é isso" — relata.

O diagnóstico é ainda mais complicado porque, assim como indivíduos podem se comportar de forma diferente quando estão bêbados, pacientes com síndrome da autofermentação podem ter sintomas variados quando o intestino está produzindo excesso de etanol.

— Os mais comuns são alterações de humor, ansiedade, depressão, agressividade, fadiga, confusão mental e mudanças na forma de falar e andar — destaca Malik, acrescentando que seus pacientes frequentemente são inicialmente diagnosticados com transtornos mentais.

Um cavalo ou uma zebra?

Barbara Cordell, enfermeira de 74 anos e pesquisadora da síndrome da autofermentação em Carthage, Texas, fala frequentemente com “pessoas que juram que não bebem, mas sofreram um acidente ou foram pegas dirigindo embriagadas sem conseguir explicar”.

— Conversei com tantas pessoas desesperadas por uma resposta, desesperadas para que alguém acreditasse nelas — afirma.

O marido de Cordell, Joe Bartnik, hoje com 77 anos, começou a ficar inexplicavelmente bêbado em 2004. Às vezes acontecia em um domingo de manhã na igreja ou durante uma caminhada após o jantar. Os olhos dele ficavam vidrados, sua postura mudava e ele arrastava as palavras. Durante os episódios, ele, que também é enfermeiro, insistia que estava bem. No dia seguinte, muitas vezes não se lembrava de nada.

Em 2009, Bartnik teve um episódio tão intenso que Cordell achou que ele estava tendo um derrame e chamou uma ambulância. No pronto-socorro, seu teor alcoólico no sangue registrou 0,37%, mais de quatro vezes o limite legal. Ele não havia tomado uma única bebida. Os médicos insistiam que ele estava bebendo secretamente.

— Como profissional da saúde, sei que muitas pessoas estão em negação e nem sempre dizem a verdade — diz Cordell. — É claro que a maioria dos médicos assumiria que é um cavalo e não uma zebra.

Cordell queria acreditar no marido, mas era difícil não ser cética. Ela começou a marcar garrafas de bebida, verificar o lixo em busca de latas vazias de cerveja e pesquisar termos como “bêbado sem beber”. Quando ele foi diagnosticado, alguns meses após a visita ao pronto-socorro, Bartnik já lidava com a síndrome da autofermentação há seis anos.

Ela escreveu o caso do marido para uma revista médica e, posteriormente, um livro sobre a condição. Em 2017, fundou a Auto Brewery Syndrome Advocacy and Research, uma organização sem fins lucrativos para pacientes.

Causas e tratamentos

A síndrome da autofermentação parece ser causada por múltiplos fatores. No estudo da Nature Microbiology, amostras de fezes de pacientes com a síndrome foram comparadas com as de parceiros domésticos não afetados, para tentar identificar quais organismos eram responsáveis.

Os pesquisadores encontraram um crescimento excessivo de bactérias intestinais específicas, incluindo E. coli e Klebsiella pneumoniae, ambas conhecidas por produzirem etanol. Outros estudos, incluindo os de Wickremesinghe e Malik, atribuíram a condição ao crescimento excessivo de fungos intestinais.

Pesquisadores ainda estão “um pouco confusos” sobre as causas subjacentes da síndrome da autofermentação e por que ela ocorre apenas em algumas pessoas, afirma Schnabl. Alguns especialistas, incluindo ele e Wickremesinghe, acreditam que pode estar ligada ao uso de antibióticos, que alteram a microbiota intestinal. Wickremesinghe destaca que, em seu estudo com quase três dúzias de casos confirmados, “todos, exceto um paciente, haviam sido expostos a antibióticos”, alguns pouco antes do início dos sintomas e outros anos antes.

Para muitos pacientes, incluindo Bartnik, o tratamento pode ser relativamente simples. Ele eliminou completamente carboidratos e açúcares da dieta e fez várias rodadas de antifúngicos. A medicação funciona reduzindo drasticamente todos os fungos do intestino, não apenas os em excesso. Quando os fungos se multiplicam de novo, espera-se que o equilíbrio seja restaurado. Pacientes cujos sintomas são causados pelo crescimento bacteriano, acrescenta Schnabl, são tratados com uma combinação de antibióticos e probióticos para reequilibrar a microbiota.

— Consideramos o tratamento bem-sucedido se os pacientes puderem voltar a ter uma dieta normal — diz Malik.

Entretanto, muitos pacientes, como Bartnik, optam por permanecer em uma dieta com poucos carboidratos ou açúcares. Além disso, ele não bebe mais nada e, em alguns pacientes, o consumo de álcool pode causar uma recaída. Mesmo que isso não aconteça, Malik recomenda que os pacientes continuem abstinentes, para facilitar o diagnóstico caso os sintomas retornem.

Após o tratamento, alguns pacientes nunca mais têm um episódio de síndrome da autofermentação. Em outros, os sintomas tornam-se crônicos e reaparecem assim que interrompem a medicação. Há ainda aqueles que podem ter recaídas meses ou anos depois. Schnabl participa de um pequeno ensaio clínico para investigar se transplantes fecais podem ajudar a restaurar a microbiota intestinal e tratar a condição de forma mais permanente.

Mesmo com tratamento bem-sucedido, outros problemas podem surgir. Alguns pacientes em recuperação podem desenvolver sintomas de abstinência de álcool, que vão de dores de cabeça e ansiedade até, em casos raros, convulsões.

Além disso, o especialista afirma que houveram casos em que, depois do tratamento, os pacientes que não tinham o costume de beber passaram a sentir desejo pelo álcool. Às vezes, essas pessoas começam a beber para saciar o desejo e podem precisar de tratamento para transtorno por uso de álcool.

E, ocasionalmente, Schnabl explica, os pacientes na verdade não têm a síndrome da autofermentação e estavam bebendo secretamente o tempo todo. Ele defende fortemente que os médicos reconheçam a síndrome como uma condição legítima, mas alerta que um padrão diagnóstico formal precisa ser estabelecido.

No caso de Mongiardo, encerramentos e atrasos judiciais durante a pandemia de Covid fizeram com que seu caso de de direção sob efeito de álcool de 2019 perdesse o prazo do “julgamento rápido” e fosse arquivado. Enquanto isso, ele perdeu o emprego de diretor atlético e teve que vender a casa. Mudou-se para a Flórida em 2020, onde hoje trabalha para uma rede de varejo. Sua esposa e filhos se mudaram para lá em 2022.

Mudanças na dieta e algumas semanas de medicação antifúngica colocaram sua síndrome da autofermentação sob controle. Ele agora segue uma dieta sem carboidratos e açúcares e continua abstendo-se de álcool. Relatou ter tido apenas dois episódios adicionais nos últimos anos. No final de 2025, criou um canal no TikTok, que já conta com mais de 10 mil seguidores, com o objetivo de dar visibilidade à condição.

— Quero que todos, e todos os médicos, vejam como um distúrbio real, e vejam o que ele fez comigo e o que poderia potencialmente fazer com alguém que não sabe que tem a síndrome — afirma Mongiardo. — Quantas vezes entrei no carro para ir trabalhar? Quantas vezes estava com meus filhos no carro? É assustador pensar, ao longo dos anos, quantas vezes eu poderia ter estado bêbado e não sabia.

O subdiagnóstico também pode ser atribuído ao ceticismo médico. Pacientes são rotineiramente descartados como “alcoólatras escondidos”, disse Dr. Schnabl, apesar do crescente corpo de pesquisas sobre a síndrome da autofermentação. “Às vezes dou palestras, e médicos vêm até mim depois e dizem que ainda não acreditam”, contou.