Vida e Saúde
‘Efeito Ozempic’: popularização do medicamento expõe nova onda de pressão estética e culto à magreza extrema
Se durante a última década o discurso da diversidade de corpos ganhou espaço, especialistas observam agora o fortalecimento de movimento inverso
A magreza extrema voltou ao centro da cena. Dos tapetes vermelhos de premiações como Oscar e Globo de Ouro às redes sociais, corpos cada vez mais esguios — com rostos mais cavados e clavículas marcadas — reacenderam um velho debate sobre beleza, saúde e pressão estética. Nesse cenário, o chamado “efeito Ozempic” diz menos sobre uma novidade médica e mais sobre um aspecto cultural. Desenvolvido para tratar Diabetes tipo 2, o Ozempic acabou se popularizando como medicamento para emagrecimento. O uso perdeu o caráter excepcional e passou a funcionar como atalho para atingir rapidamente um padrão estético. Em tempos de soluções instantâneas, o corpo magro começa a ser tratado quase como uma mercadoria — algo que pode ser adquirido com rapidez, precisão e pouco esforço.
Se durante a última década o discurso da diversidade de corpos ganhou espaço, especialistas observam agora o fortalecimento do movimento inverso, impulsionado por redes sociais, celebridades e também por medicamentos que aceleram o emagrecimento.
Para Ludmilla Furtado, coordenadora do curso de Psicologia da Universidade Iguaçu (Unig), as características revelam uma transformação na forma como o corpo é vívido hoje.
“Quando um medicamento como o Ozempic sai do campo do tratamento e entra no campo do desejo estético, isso nos diz algo muito importante: o corpo deixou de ser vivido como experiência e passou a ser vivido como projeto”, explica. “Do ponto de vista psicológico, isso revela uma intensificação da lógica contemporânea de desempenho: não basta ser saudável, é preciso parecer ideal.”
A promessa de concordar com o 'defeito'
Entre os efeitos mais comentados nas redes sociais está o chamado “rosto de Ozempic”, expressão usada para descrever mudanças mecânicas associadas ao emagrecimento rápido. Para o especialista, as especificidades ajudam a ilustrar um mecanismo psicológico recorrente.
“A ideia de que resolver um 'defeito' corporal levaria a um estado de satisfação raramente se sustenta”, afirma Ludmilla, acrescentando que há um rebote psicológico muito comum em situações deste tipo. Segundo ela, o que se observa na prática é um deslocamento constante da insatisfação na mente humana: ao “corrigir” um aspecto, outro passa imediatamente a ocupar o lugar de incômodo.
"Nesse ciclo, o corpo passa a ser vívido como um projeto interminável, sempre passível de ajustes e nunca suficientemente bom. Esse movimento não deve ser limitado à vaidade, mas compreendido como expressão de uma subjetividade atravessada por padrões muitas vezes inatingíveis e por uma relação fragilizada com a própria imagem", explica o especialista.
Nem sempre é possível generalizar
O uso desses medicamentos por pessoas que já se encontram dentro de uma faixa de peso considerada saudável também gera debate. Ainda assim, a psicóloga alerta que é preciso evitar sugestões precipitadas.
“Não é possível afirmar, de antemão, que se trata de um transtorno alimentar ou de uma ocorrência da imagem corporal”, destaca. “Do ponto de vista clínico, o que se exige é a necessidade de escuta: compreender qual é a função desse uso na economia psíquica de cada sujeito, que lugar o corpo ocupa em sua história e que tipo de sofrimento está sendo endereçado por meio dessa escolha.”
Quando o peso volta
Outro ponto sensível a ser considerado por quem opta pelas chamadas canetas emagrecedoras é a possibilidade de o peso voltar a subir após a interrupção do medicamento.
“O retorno ao peso anterior pode ser vívido como fracasso pessoal, gerando vergonha, frustração e uma sensação de perda de controle sobre o próprio corpo”, afirma Ludmilla. “Muitas vezes, isso reforça ciclos de restrição e compulsão e abalá a relação do sujeito consigo mesmo.”
Para um especialista, o chamado “efeito Ozempic” precisa ser entendido de forma mais ampla. “Não se trata apenas de um problema individual nem de um simples recurso médico, mas do encontro entre uma cultura que exige perfeição, um mercado que promete soluções rápidas e sujeitos que, atravessados por essa lógica, buscam no corpo uma forma de pertencimento, reconhecimento e valor.”
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