Vida e Saúde
Quem pode (e quem não deve) usar as canetas, de acordo com os especialistas
Canetas são o tratamento mais eficiente para a obesidade, com baixo risco e muitos benefícios. Já o uso no sobrepeso segue em discussão. Pois a fronteira entre sobrepeso e obesidade é mais nebulosa do que parece
Nenhuma doença é tão visível quanto a obesidade. Assim como é evidente quem tem sobrepeso. Porém, após o fim da patente da semaglutida no Brasil e a previsível expansão do uso dessa droga (princípio ativo das canetas emagrecedoras) surgem dúvidas sobre quem deve ou não fazer uso desses medicamentos, diretamente associada à magnitude do peso em excesso e aos riscos para a saúde trazida por ele. E ainda sobre a forma correta de tomar esses remédios.
É praticamente consenso entre endocrinologistas e outros especialistas que as canetas são o tratamento mais eficiente para a obesidade, com baixo risco e muitos benefícios. Já o uso no sobrepeso segue em discussão. Pois, a fronteira entre sobrepeso e obesidade é mais nebulosa do que parece.
Quem tem?
Os médicos evitam usar a expressão pessoa com obesidade e não pessoa gorda porque o adjetivo vem mergulhado no preconceito. E em um país como o Brasil com 62,6% da população acima do peso, segundo o Vigitel/Ministério da Saúde, não é difícil encontrar quem se enquadra nessa situação, que é a regra e não a exceção.
Para o início da conversa, qualquer pessoa com Índice de Massa Corporal (IMC), que mede a proporção entre altura e peso, entre 25 e 29,9 tem sobrepeso. Já as pessoas com obesidade são aquelas com IMC superior a 30. São específicas 25,7% da população brasileira adulta.
A obesidade é variável em quatro graus, que aumenta em função do peso e das demais doenças a ele associado. Mas todos os quatro graus têm risco para a saúde e recomendação para uso de canetas, sublinha João Salles, o presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Já a cirurgia bariátrica costuma ser indicada para pessoas com IMC superior a 40.
Devo usar canetas?
Raro é o dia em que não chega no consultório de Salles alguém em busca de orientação para usar as canetas emagrecedoras. Ele afirma que as seleções de inclusão para tratamento com essa classe de drogas são amplas. Mas há controvérsias entre os médicos que não dizem respeito ao peso. O que é consenso é a exclusão do uso meramente estético, pois as canetas são soluções e nenhum medicamento é isento de risco.
A recomendação oficial no Brasil para tratamento com canetas inclui pessoas com obesidade (com ou sem comorbidades) e aquelas com IMC acima de 27 e alguma comorbidade e isso abrange, por exemplo, dor articular, lombar, depressão, apneia, além dos distúrbios cardiovasculares e metabólicos.
— Essas são as pessoas que serão mais beneficiadas porque tratarão a obesidade e uma outra doença. É como acertar dois alvos de uma vez. Gente que luta contra a diabetes, doença hepática gordurosa não exclusiva, insuficiência cardíaca, por exemplo. Todas as doenças de difícil tratamento — enfatiza o endocrinologista Roberto Zagury, membro do Departamento de Diabetes, Exercício e Esporte da SBD.
A maioria dos médicos considera canetas seguras e eficientes para pessoas com obesidade. Essas drogas recebidas ano passado a chancela da Organização Mundial de Saúde e têm sinal verde da Anvisa, mediante receita médica, para o tratamento da obesidade.
A discussão a respeito do peso está relacionada, por exemplo, à forma como se avalia o risco de acúmulo de gordura. Porque, enfatize Salles, o IMC não mede a distribuição de gordura. E isso faz toda diferença para a medicina. Pessoas com muita massa muscular e baixo índice de gordura podem ter IMC elevado, mas são saudáveis. Já pessoas de peso normal ou até magras, com pernas finas, mas barriga grande apresentam alto risco de comorbidades, a despeito do IMC baixo.
O magro barrigudo concentra gordura no abdômen. E isso é muito ruim porque a gordura abdominal afeta os órgãos internos, causa inflamação crônica e deflagra uma série de doenças. Uma delas é esteatose hepática, a gordura no fígado, associada a distúrbios metabólicos graves, com destaque para o clínico geral e professor de hepatologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) João Marcello de Araújo Neto. Ele considera as drogas da aula da semaglutida como um enorme avanço porque emagrecer, frisa, não depende de força de vontade.
Araújo, especialista em fígado, observa que a distribuição da gordura abdominal é elemento para avaliar se uma pessoa é elegível para usar semaglutida. De forma simples, ela é medida pelas específicas da cintura.
O risco moderado inclui comorbidades, em especial as cardiovasculares. Estão nele os homens com qualidades acima de 94cm, e as mulheres, de 80cm. Homens com mais de 102 cm de cintura e mulheres de 88cm correm risco muito aumentado.
Mas a discussão vai além da concentração de gordura abdominal e do que está na bula das canetas. Salles diz que uma pessoa que começa a se engordar significativamente, mas ainda não desenvolveu comorbidades, pode ser elegível para evitar problemas futuros, desde que existam elementos clínicos para avaliar o risco.
Não devo usar canetas
Mas o endocrinologista Marcio Mancini, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo, alerta que pessoas de peso normal e sem nenhuma comorbidade, magra ou com baixo sobrepeso devem se manter longe das canetas.
— Nunca foram estudados nesse grupo. Não se sabe o que pode acontecer com o metabolismo dessas pessoas. Que efeitos podem aparecer. As canetas são seguras para o grupo em que foram estudados. Porém, parte significativa das pessoas que usam essas drogas ou querem usar é movida apenas pela estética. Isso pode lhes mostrar custar mais caro do que o preço da caneta — ressalta Mancini.
Salles acrescenta que nem considera orientar para o uso estético, que os médicos chamam de recreativo, porque ele simplesmente não é aconchegante.
— São drogas para tratar uma doença, distúrbios metabólicos. São remédios desenvolvidos para certas condições. Não são meros procedimentos estéticos. Isso sem falar nos manipulados, aplicações em clínicas. Isso é muito perigoso, receita para problema de saúde — ressalta o presidente da SBD.
A endocrinologista Priscila Sousa diz que muita gente usa a caneta movida pelo “desejo social de emagrecer”.
— A sociedade cobra das pessoas com aparência jovial, saudável. Mas o ganho de peso é esperado à medida que envelhece, muda a composição corporal. Muita gente quer voltar a ter o corpo dos 30, mesmo estando com 60 e ainda dentro de um peso aceitável. As canetas parecem a solução. Mas essas drogas não foram desenvolvidas nem científicas para isso. É realmente um risco e, por isso, não especificamos. Elas são excelentes, mas não nesses casos — observe Sousa.
Antes de começar
Antes de iniciar um tratamento com canetas emagrecedoras com semaglutida (Wegovy/Ozempic) ou tizerpatida (Mounjaro) e as novas formulações de semaglutida que devem surgir após a queda da patente é essencial buscar uma avaliação médica completa. Isso evita a frustração e a maioria dos casos de contraindicações e efeitos colaterais que se vê, acrescenta Salles.
Existem comorbidades e características individuais que vão influenciar a opção por determinado tratamento, combinação de medicamentos e outros fatores, acrescenta Zagury.
— O fim da patente da semaglutida permitirá que muito mais pessoas se beneficiem de um tratamento que, feito da forma correta, é muito seguro. Estamos felizes com isso. Mas a decisão sobre quem deve ou não ser tomada sempre precisa ser feita por um médico —diz Zagury.
O tipo de exame a ser feito antes do início do tratamento varia de paciente para outro. Mas costuma ser padrão:
Hemograma completo: Verifica anemia, placas e infecções.
Glicemia de jejum e hemoglobina glicada (HbA1c): Avalia controle glicêmico aviso, essencial para diabéticos ou pré-diabéticos.
Função renal (creatinina, TFG): Exclui insuficiência renal grave, uma contraindicação.
Função hepática (TGO/TGP, bilirrubinas): Detecta problemas no fígado, como esteatose.
Lipidograma (colesterol total, HDL, LDL, triglicerídeos): Base para monitorar o metabolismo.
Eletrólitos (sódio, potássio) e função tireoidiana (TSH): Risco de alterações tireoidianas familiares, algumas das quais são contraindicações.
Amilase e lipase: Base para avaliar pancreatite (outra contraindicação).
Ultrassonografia abdominal e da tireoide: Também avaliar contra-indicações que devem ser tratadas antes do início do uso de semaglutida.
Os médicos analisaram ainda a história familiar (casos de certas formas de câncer, por exemplo) e o ECG cardíaco para avaliar risco cardiovascular.
Como usar
Usar caneta parece simples, mas não é. Primeiro, o médico deve decidir que as drogas existentes são mais adequadas a um determinado paciente. Se apenas semaglutidaou tizerpatida. Algum outro medicamento pode ser acrescentado, dependendo das necessidades de cada pessoa.
Nunca se deve começar com doses elevadas. Isso provoca efeitos colaterais quase em todo o mundo. É preciso fazer progressão de dosagem a cada quatro semanas. A falta de progressão é outra causa de efeitos adversos. Também é necessário evitar comida gordurosa porque ela aumenta a náusea, justamente um dos efeitos colaterais mais comuns das canetas. Outro alerta é beber mais água porque esses medicamentos inibem a sede.
Mas isso não basta. As drogas emagrecem a maioria rapidamente. Isso pode levar a uma perda expressiva de nutrientes e de massa magra. É preciso ter orientação nutricional e aumentar a ingestão de proteínas.
A perda de fome pode ser tão intensa que há pessoas que passam a comer apenas um pão por dia. É o mesmo que nada. Em consequência, ficam desnutridos e suscetíveis a efeitos adversos.
— Não se trata de efeito da caneta, mas do mau uso dela — observa Araújo Neto.
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