Vida e Saúde

Alimentos ultraprocessados estão ligados à infertilidade em mulheres, aponta novo estudo

Pesquisa da Universidade McMaster, publicada na Nutrition and Health, analisou dados de mais de 2.500 mulheres

Agência O Globo - 20/03/2026
Alimentos ultraprocessados estão ligados à infertilidade em mulheres, aponta novo estudo
- Foto: Reprodução / Agência Brasil

Mulheres que consomem menos alimentos ultraprocessados ​​apresentam maior probabilidade de engravidar, segundo um novo estudo da Universidade McMaster, no Canadá. A pesquisa analisou dados de mais de 2.500 mulheres participantes da Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição (NHANES), levantamento americano que entrevistas, registros alimentares de 24 horas e exames laboratoriais para coleta de informações descobertas sobre dieta, saúde e biomarcadores.

De acordo com os autores, a ligação entre o consumo desses alimentos e a infertilidade se manteve mesmo após o ajuste para fatores como idade, peso, estilo de vida e outros aspectos de saúde. O estudo define a infertilidade como a ausência de concepção após um ano de tentativa, excluindo mulheres que não declararam esse quadro.

Os resultados indicaram que mulheres que relataram infertilidade consumiram mais alimentos ultraprocessados, que correspondiam a cerca de 31% da ingestão diária, além de apresentarem menor adesão à dieta mediterrânea — padrão alimentar rico em frutas, vegetais, grãos integrais e gorduras saudáveis.

Exposição a substâncias químicas

"A maior parte do que ouvimos sobre alimentos ultraprocessados ​​se concentram em calorias e obesidade. Nossas descobertas sugerem algo interessantes mais complexos — parece haver outro mecanismo em ação, que pode envolver vias além de calorias ou peso, incluindo exposições químicas já hipotetizadas em estudos anteriores", explica Anthea Christoforou, professora assistente do Departamento de Cinesiologia e autora sênior do artigo.

Mesmo com ingestão aparentemente adequada de nutrientes, o consumo elevado de ultraprocessados ​​significa maior exposição a aditivos e substâncias químicas que vão além das calorias, ressalta Christoforou.

Angelina Baric, coautora do estudo e estudante de pós-graduação, acrescenta: "Alimentos ultraprocessados ​​frequentemente contêm compostos como ftalatos, BPA e acrilamidas, que podem migrar das embalagens ou de máquinas plásticas usadas no processamento. Saiba-se que esses compostos interferem nos hormônios, o que pode explicar a relação observada".

Dieta mediterrânea e fertilidade

A dieta mediterrânea mostrou associação positiva com a fertilidade, mas esse efeito isolado quando a obesidade foi considerada, lembrando que seu benefício pode estar relacionado à manutenção do peso e do metabolismo saudável.

Os resultados, publicados na revista Nutrition and Health , sugerem que a qualidade e o grau de processamento dos alimentos influenciam a saúde reprodutiva para além das calorias ou do peso corporal. O estudo reforça a necessidade de orientações alimentares específicas para mulheres em idade reprodutiva.

Embora o efeito individual pareça modesto, em modelos ajustados, a maior ingestão de ultraprocessados ​​esteve associada a uma redução de aproximadamente 60% na probabilidade de fertilidade.

Implicações e

"Pouquíssimos estudos abordaram uma questão tão específica para o público feminino. A fertilidade é um fator crucial e esta é a primeira vez que padrões alimentares e infertilidade são analisados ​​nessa escala", destaca Christoforou.

Os autores alertam que os resultados mostram uma associação — e não uma relação de causa e efeito. Ainda assim, a magnitude das descobertas tem implicações relevantes em nível populacional, considerando o consumo frequente de ultraprocessados.

"Não se trata de perfeição, mas de perceber como os alimentos são processados, escolha mais alimentos em seu estado natural e opte por ingredientes reconhecíveis. Mesmo pequenas mudanças podem reduzir a exposição a substâncias ainda específicas", conclui Baric.