Vida e Saúde
Março Amarelo: veja os sintomas da endometriose, doença que acomete cerca de 7 milhões de brasileiras
A campanha do Março Amarelo reforça a importância do diagnóstico da endometriose, doença que acomete 10% das mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo
É uma doença subdiagnosticada no Brasil: milhões de mulheres podem levar de sete a dez anos para descobrirem a condição por conta dos sintomas que são confundidos com cólicas menstruais intensas ou outros desconfortos ginecológicos. Com o objetivo de chamar a atenção para o problema e conscientizar a população sobre a doença, organizações médicas e associações de pacientes realizaram a campanha Março Amarelo, focada a discutir e divulgar os sintomas, causas e tratamentos da endometriose, doença que atinge cerca de 7 milhões de brasileiras e 10% das mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo.
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Cabelos grisalhos:
— A conscientização é essencial para que mais mulheres reconheçam os sinais de endometriose e procurem ajuda. Com diagnóstico e tratamento adequado, é possível controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida — orienta a ginecologista Caroline Alonso.
A endometriose é uma doença ginecológica inflamatória crônica caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio, que normalmente reveste o interior do útero, fora da cavidade uterina. Esse tecido pode ser desenvolvido em órgãos como ovários, trompas, intestino e outras regiões da pelve, provocando inflamação, dor e, em alguns casos, acomete os ligamentos e a vesícula.
— Trata-se de uma doença benigna, ou seja, não é maligna como o . Mas, em alguns casos raros e complexos, a endometriose pode ser encontrada no diafragma, na liberação ou no cérebro — explica o ginecologista Thiers Soares, especialista na doença.
Pacientes que possuem endometriose podem apresentar dificuldade para engravidar — a doença é responsável por 30% dos casos de infertilidade.
— Não podemos afirmar que quem tem endometriose é infértil, mas grande parte das pacientes que têm infertilidade podem ter endometriose. A doença é uma das maiores causas de infertilidade hoje no mundo. Pacientes que têm o quadro podem apresentar uma dificuldade maior para engravidar quando a endometriose afeta o ovário, o intestino, a bexiga, ou quando distorce a anatomia da pelve, por exemplo — explica o cirurgião geral e ginecologistaThiago Borges.
O estudo “Prevalência da endometriose em adolescentes brasileiros (2014 a 2024)”, publicado na Revista Brasileira de Implantologia e Ciências da Saúde, estima que cerca de sete milhões de brasileiras convivem com a doença atualmente. Uma pesquisa analisou dados do sistema DATASUS e acordos de 137 mil registros internacionais relacionados à endometriose no país entre 2014 e 2024, com maior concentração de casos nas regiões Sudeste e Nordeste.
Os 5 sintomas mais comuns da endometriose
Estudos apontam que apenas 10% dos pacientes são assintomáticos. Entre os sintomas da doença, os cinco principais são:
Cólica menstrual
Dor durante as relações sexuais
Dor ao urinar
Dor ao evacuar
Dificuldade para entrar
— Uma cólica toda mulher pode sentir. Agora, uma cólica que a faz desmaiar, faltar ao trabalho, que é insuportável e a incapacidade de realizar as atividades do seu cotidiano, não é normal, temos que investigar — alerta Thiago Borges.
Segundo o ginecologista, o diagnóstico começa ao ouvir o paciente em uma consulta bem realizada. Em seguida, existem dois exames que podem confirmar a presença da doença: a ressonância magnética de abdômen e pélvico e o ultrassom transvaginal com preparo intestinal para pesquisa de endometriose.
Por que a endometriose ocorre?
A origem da doença ainda não é totalmente compreendida. Pesquisas apontam que pode envolver fatores hormonais, genéticos, imunológicos e ambientais. Uma das hipóteses mais descobertas é a menstruação retrógrada, quando parte do tecido menstrual retorna pelas trompas e se deposita na cavidade pélvica, onde pode se implantar e crescer.
— A endometriose é uma doença que tem grande relação familiar, a genética da pessoa também influencia no desenvolvimento da doença. Por exemplo, se uma mãe ou irmã tem endometriose, há grandes chances de uma irmã mais nova também ter a doença. Mas, além disso, fatores externos também influenciam, como a alimentação: se uma pessoa se alimenta mal, pode agravar — pontua Thiers Soares.
Para Borges, fatores de estilo de vida, como dieta e atividade física, são fundamentais.
— A endometriose é uma doença muito inflamatória, e a coisa mais inflamatória do nosso dia a dia hoje é a nossa alimentação. Uma das principais recomendações é mudar a alimentação e praticar atividade física, que é um grande modulador inflamatório — explica.
A doença também mulheres atinge jovens
Embora seja frequentemente associada à vida adulta, a endometriose pode surgir ainda na adolescência. O estudo publicado na Revista Brasileira de Implantologia e Ciências da Saúde acordou 1.192 internações de adolescentes entre 10 e 19 anos por endometriose no Brasil entre 2014 e 2024, sendo que a maior concentração ocorreu na faixa etária de 15 a 19 anos.
A pesquisa destaca a importância de investigar quadros de dor intensa e persistente desde a adolescência, visto que a doença pode impactar a qualidade de vida das jovens, além de causar dor crônica e alterações intestinais ou urinárias associadas ao ciclo menstrual. Reconhecer a doença nos primeiros anos após o início da menstruação pode ajudar a reduzir complicações ao longo da vida reprodutiva, como a infertilidade e o agravamento das lesões endometrióticas.
— O principal é respeitar seus sintomas e buscar o diagnóstico. Um diagnóstico precoce nos dará a possibilidade de um tratamento precoce. E com o tratamento precoce, reduzimos muitos anos perdidos de dor desse paciente — recomenda Borges.
Endometriose após os 40 anos
Estudos alertam que a endometriose também pode permanecer ativa ou ser exposta após os 40 anos. Dados do estudo brasileiro sobre prevalência da doença mostram que a faixa etária de 40 a 49 anos concentra o maior número de internações no país. Mas, muitos dos casos acabam sendo confundidos com sintomas do climatério ou da .
— Muitas mulheres maduras convivem com dores pélvicas e desconfortos por anos sem investigar a causa, acreditando que esses sintomas fazem parte do climatério. No entanto, a endometriose pode permanecer ativa nessa fase da vida e impactar significativamente a qualidade de vida — explica Caroline Alonso.
A medicina destaca que sentir dor intensa não deve ser encarado como algo normal. Cólicas incapacitantes, durante as relações sexuais ou alterações intestinais relacionadas ao ciclo menstrual são sinais de alerta e devem motivar a busca por avaliação ginecológica.
Tratamento da endometriose
O tratamento da endometriose varia de acordo com a intensidade dos sintomas de cada paciente. Em muitos casos, o recomendado pelos médicos é o uso de medicamentos contraceptivos, pois a doença está relacionada à menstruação, bloqueando-a, pode melhorar os sintomas.
— É importante pontuar que a medicação não cura a endometriose nem trata as lesões, ou seja, mesmo que essa paciente tenha uma melhora muito grande dos sintomas, ela precisará investigar e realizar novos exames todo ano para poder saber se a doença estagnou ou avançou. A doença pode progredir independentemente do tratamento — explica Borges.
Outro tratamento é a cirurgia, indicada em três casos específicos:
Dor intratável: quando um paciente experimentou medicamentos, mudou os hábitos alimentares, praticou atividade física, tomou anticoncepcional, tentou terapia pélvica, e, mesmo assim, não melhorou da dor.
Infertilidade: em pacientes onde a única causa que sobrou para a infertilidade é a endometriose, ou seja, quando um paciente está tentando engravidar, investigou o marido, investigou seu sistema reprodutor e a causa maior é a doença. Nesse caso, operando, ela tem um aumento na chance de gravidez natural.
Complicações: quando a paciente tem uma endometriose intestinal grave; na sepultura da bexiga; pegando um ovário de grande tamanho; pegando um nervo ou no intestino delgado, por exemplo.
Campanha amarela
Criada por organizações médicas e associações de pacientes, a campanha Março Amarelo busca ampliar o debate sobre a endometriose e incentivar o diagnóstico precoce, permitindo que mais mulheres tenham acesso ao acompanhamento médico e ao tratamento adequado.
Durante o mês de março, instituições de saúde, profissionais e entidades promovem ações educativas para incentivar a busca por acompanhamento ginecológico e ampliar o acesso à informação. A campanha destaca que reconhecer os sinais da doença e procurar avaliação médica diante de dores intensas ou persistentes é um passo fundamental para melhorar a qualidade de vida dos pacientes e ampliar as chances de tratamento adequado.
*estagiária sob supervisão de Constança Tatsch
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