Vida e Saúde

Março Amarelo: veja os sintomas da endometriose, doença que acomete cerca de 7 milhões de brasileiras

A campanha do Março Amarelo reforça a importância do diagnóstico da endometriose, doença que acomete 10% das mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo

Agência O Globo - 16/03/2026
Março Amarelo: veja os sintomas da endometriose, doença que acomete cerca de 7 milhões de brasileiras
Março Amarelo: veja os sintomas da endometriose, doença que acomete cerca de 7 milhões de brasileiras - Foto: Reprodução

É uma doença subdiagnosticada no Brasil: milhões de mulheres podem levar de sete a dez anos para descobrirem a condição por conta dos sintomas que são confundidos com cólicas menstruais intensas ou outros desconfortos ginecológicos. Com o objetivo de chamar a atenção para o problema e conscientizar a população sobre a doença, organizações médicas e associações de pacientes realizaram a campanha Março Amarelo, focada a discutir e divulgar os sintomas, causas e tratamentos da endometriose, doença que atinge cerca de 7 milhões de brasileiras e 10% das mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo.

Formação de:

Cabelos grisalhos:

— A conscientização é essencial para que mais mulheres reconheçam os sinais de endometriose e procurem ajuda. Com diagnóstico e tratamento adequado, é possível controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida — orienta a ginecologista Caroline Alonso.

A endometriose é uma doença ginecológica inflamatória crônica caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio, que normalmente reveste o interior do útero, fora da cavidade uterina. Esse tecido pode ser desenvolvido em órgãos como ovários, trompas, intestino e outras regiões da pelve, provocando inflamação, dor e, em alguns casos, acomete os ligamentos e a vesícula.

— Trata-se de uma doença benigna, ou seja, não é maligna como o . Mas, em alguns casos raros e complexos, a endometriose pode ser encontrada no diafragma, na liberação ou no cérebro — explica o ginecologista Thiers Soares, especialista na doença.

Pacientes que possuem endometriose podem apresentar dificuldade para engravidar — a doença é responsável por 30% dos casos de infertilidade.

— Não podemos afirmar que quem tem endometriose é infértil, mas grande parte das pacientes que têm infertilidade podem ter endometriose. A doença é uma das maiores causas de infertilidade hoje no mundo. Pacientes que têm o quadro podem apresentar uma dificuldade maior para engravidar quando a endometriose afeta o ovário, o intestino, a bexiga, ou quando distorce a anatomia da pelve, por exemplo — explica o cirurgião geral e ginecologistaThiago Borges.

O estudo “Prevalência da endometriose em adolescentes brasileiros (2014 a 2024)”, publicado na Revista Brasileira de Implantologia e Ciências da Saúde, estima que cerca de sete milhões de brasileiras convivem com a doença atualmente. Uma pesquisa analisou dados do sistema DATASUS e acordos de 137 mil registros internacionais relacionados à endometriose no país entre 2014 e 2024, com maior concentração de casos nas regiões Sudeste e Nordeste.

Os 5 sintomas mais comuns da endometriose

Estudos apontam que apenas 10% dos pacientes são assintomáticos. Entre os sintomas da doença, os cinco principais são:

Cólica menstrual

Dor durante as relações sexuais

Dor ao urinar

Dor ao evacuar

Dificuldade para entrar

— Uma cólica toda mulher pode sentir. Agora, uma cólica que a faz desmaiar, faltar ao trabalho, que é insuportável e a incapacidade de realizar as atividades do seu cotidiano, não é normal, temos que investigar — alerta Thiago Borges.

Segundo o ginecologista, o diagnóstico começa ao ouvir o paciente em uma consulta bem realizada. Em seguida, existem dois exames que podem confirmar a presença da doença: a ressonância magnética de abdômen e pélvico e o ultrassom transvaginal com preparo intestinal para pesquisa de endometriose.

Por que a endometriose ocorre?

A origem da doença ainda não é totalmente compreendida. Pesquisas apontam que pode envolver fatores hormonais, genéticos, imunológicos e ambientais. Uma das hipóteses mais descobertas é a menstruação retrógrada, quando parte do tecido menstrual retorna pelas trompas e se deposita na cavidade pélvica, onde pode se implantar e crescer.

— A endometriose é uma doença que tem grande relação familiar, a genética da pessoa também influencia no desenvolvimento da doença. Por exemplo, se uma mãe ou irmã tem endometriose, há grandes chances de uma irmã mais nova também ter a doença. Mas, além disso, fatores externos também influenciam, como a alimentação: se uma pessoa se alimenta mal, pode agravar — pontua Thiers Soares.

Para Borges, fatores de estilo de vida, como dieta e atividade física, são fundamentais.

— A endometriose é uma doença muito inflamatória, e a coisa mais inflamatória do nosso dia a dia hoje é a nossa alimentação. Uma das principais recomendações é mudar a alimentação e praticar atividade física, que é um grande modulador inflamatório — explica.

A doença também mulheres atinge jovens

Embora seja frequentemente associada à vida adulta, a endometriose pode surgir ainda na adolescência. O estudo publicado na Revista Brasileira de Implantologia e Ciências da Saúde acordou 1.192 internações de adolescentes entre 10 e 19 anos por endometriose no Brasil entre 2014 e 2024, sendo que a maior concentração ocorreu na faixa etária de 15 a 19 anos.

A pesquisa destaca a importância de investigar quadros de dor intensa e persistente desde a adolescência, visto que a doença pode impactar a qualidade de vida das jovens, além de causar dor crônica e alterações intestinais ou urinárias associadas ao ciclo menstrual. Reconhecer a doença nos primeiros anos após o início da menstruação pode ajudar a reduzir complicações ao longo da vida reprodutiva, como a infertilidade e o agravamento das lesões endometrióticas.

— O principal é respeitar seus sintomas e buscar o diagnóstico. Um diagnóstico precoce nos dará a possibilidade de um tratamento precoce. E com o tratamento precoce, reduzimos muitos anos perdidos de dor desse paciente — recomenda Borges.

Endometriose após os 40 anos

Estudos alertam que a endometriose também pode permanecer ativa ou ser exposta após os 40 anos. Dados do estudo brasileiro sobre prevalência da doença mostram que a faixa etária de 40 a 49 anos concentra o maior número de internações no país. Mas, muitos dos casos acabam sendo confundidos com sintomas do climatério ou da .

— Muitas mulheres maduras convivem com dores pélvicas e desconfortos por anos sem investigar a causa, acreditando que esses sintomas fazem parte do climatério. No entanto, a endometriose pode permanecer ativa nessa fase da vida e impactar significativamente a qualidade de vida — explica Caroline Alonso.

A medicina destaca que sentir dor intensa não deve ser encarado como algo normal. Cólicas incapacitantes, durante as relações sexuais ou alterações intestinais relacionadas ao ciclo menstrual são sinais de alerta e devem motivar a busca por avaliação ginecológica.

Tratamento da endometriose

O tratamento da endometriose varia de acordo com a intensidade dos sintomas de cada paciente. Em muitos casos, o recomendado pelos médicos é o uso de medicamentos contraceptivos, pois a doença está relacionada à menstruação, bloqueando-a, pode melhorar os sintomas.

— É importante pontuar que a medicação não cura a endometriose nem trata as lesões, ou seja, mesmo que essa paciente tenha uma melhora muito grande dos sintomas, ela precisará investigar e realizar novos exames todo ano para poder saber se a doença estagnou ou avançou. A doença pode progredir independentemente do tratamento — explica Borges.

Outro tratamento é a cirurgia, indicada em três casos específicos:

Dor intratável: quando um paciente experimentou medicamentos, mudou os hábitos alimentares, praticou atividade física, tomou anticoncepcional, tentou terapia pélvica, e, mesmo assim, não melhorou da dor.

Infertilidade: em pacientes onde a única causa que sobrou para a infertilidade é a endometriose, ou seja, quando um paciente está tentando engravidar, investigou o marido, investigou seu sistema reprodutor e a causa maior é a doença. Nesse caso, operando, ela tem um aumento na chance de gravidez natural.

Complicações: quando a paciente tem uma endometriose intestinal grave; na sepultura da bexiga; pegando um ovário de grande tamanho; pegando um nervo ou no intestino delgado, por exemplo.

Campanha amarela

Criada por organizações médicas e associações de pacientes, a campanha Março Amarelo busca ampliar o debate sobre a endometriose e incentivar o diagnóstico precoce, permitindo que mais mulheres tenham acesso ao acompanhamento médico e ao tratamento adequado.

Durante o mês de março, instituições de saúde, profissionais e entidades promovem ações educativas para incentivar a busca por acompanhamento ginecológico e ampliar o acesso à informação. A campanha destaca que reconhecer os sinais da doença e procurar avaliação médica diante de dores intensas ou persistentes é um passo fundamental para melhorar a qualidade de vida dos pacientes e ampliar as chances de tratamento adequado.

*estagiária sob supervisão de Constança Tatsch