Vida e Saúde
Antibiótico após relação sexual pode ajudar a prevenir sífilis e clamídia; SUS adota estratégia
Conhecida como DoxiPEP, abordagem usa uma dose de doxiciclina após exposição de risco; sistema público tem até 180 dias para implementar a medida
O Ministério da Saúde autorizou o uso da doxiciclina como profilaxia pós-exposição, abordagem conhecida como DoxiPEP, para reduzir a chance de infecção por sífilis e clamídia. A medida foi publicada no Diário Oficial da União nesta quarta-feira (11) e deverá ser rompida no Sistema Único de Saúde (SUS). A expectativa é que estados e municípios tenham até 180 dias para organizar a oferta do medicamento.
Quem poderá usar a DoxiPEP
De acordo com parecer da Conitec — órgão responsável por avaliar a inclusão de medicamentos, exames e tratamentos no SUS —, o uso da doxiciclina 100 mg como profilaxia pós-exposição foi considerada benéfica para os seguintes grupos:
homens que fazem sexo com homens (HSH);
homens cisgêneros gays, bissexuais e pansexuais;
mulheres transgênero adultas.
Segundo a aparência, a estratégia pode ser utilizada tanto por pessoas que vivem com HIV e Aids (PVHA) quanto por aquelas sem diagnóstico de HIV.
Como o antibiótico atua na prevenção
A DoxiPEP consiste no uso de antibiótico doxiciclina após uma relação sexual sem preservativo para reduzir o risco de algumas infecções sexualmente transmissíveis bacterianas, como sífilis, clamídia e, em menor grau, gonorreia.
A orientação é tomar uma dose de 200 mg do medicamento até 72 horas após uma exposição considerada de risco.
Estudos clínicos e pesquisas de desenvolvimento indicam que uma estratégia pode reduzir entre 77% e 88% o risco de sífilis e cerca de 65% o risco de clamídia. No caso da gonorreia, o efeito tende a ser menor — cerca de 54% em estudos realizados nos Estados Unidos, variando conforme a prevalência local de resistência bacteriana à tetraciclina, classe de antibióticos a qual pertence à doxiciclina.
DoxiPEP não substitui outras formas de prevenção
Segundo o infectologista Hilton Luís, a nova estratégia não substitui outras formas de prevenção já utilizadas no combate às ISTs.
— Isso não quer dizer que 'liberou geral' para transar sem camisinha. O remédio não protege contra todos os ISTs, não previne gravidez e não substitui preservativos, PrEP para o HIV, vacinas ou testagem regular — afirma.
O especialista ressalta que a proposta é discutir o uso do antibiótico na chamada prevenção combinada, que reúne diferentes estratégias adaptadas à realidade de cada pessoa.
— Estudos realizados até agora indicam que a maioria das pessoas que usaram o DoxiPEP não mudaram radicalmente seu comportamento sexual, mas ocorreram maior sensação de proteção e menos ansiedade em relação às infecções — explica.
Risco de resistência bacteriana
Outro ponto de atenção é o risco de resistência bacteriana, já que o uso frequente de antibióticos pode favorecer o surgimento de microrganismos menos sensíveis ao medicamento.
— Usar antibiótico repetidamente pode fazer com que algumas bactérias aprendam a driblar esse remédio, o que é uma preocupação real em saúde pública — observe o infectologista.
Por isso, segundo ele, as principais diretrizes internacionais recomendam que a estratégia seja direcionada a grupos com maior vulnerabilidade às ISTs, com acompanhamento médico e monitoramento constante.
Para o especialista, a incorporação do DoxiPEP no Sistema Único de Saúde (SUS) também pode ajudar a ampliar o acesso à prevenção e permitir o acompanhamento dos possíveis impactos da estratégia na população.
— Estar no SUS é um passo importante para organizar o monitoramento da resistência bacteriana e, sobretudo, promover o acesso às pessoas que mais podem se beneficiar dessa tecnologia preventiva — diz.
Sífilis e clamídia
A sífilis e a clamídia estão entre as ISTs mais comuns. Ambas são transmitidas principalmente por relações sexuais sem preservativo, incluindo sexo vaginal, anal e oral.
A sífilis, causada pela bactéria Treponema pallidum, costuma começar com uma ferida indolor na região genital, anal ou na boca. Sem tratamento, a doença pode evoluir e afetar órgãos como o coração e o sistema nervoso. A infecção também pode ser transmitida de gestante para o bebê durante a gravidez, podendo causar malformações, parto prematuro ou morte fetal.
Já a clamídia, provocada pela bactéria Chlamydia trachomatis, muitas vezes não apresenta sintomas. Quando surgem, os sinais podem incluir corrimento genital, dor ao urinar e dor pélvica. Sem tratamento, a infecção pode causar doença inflamatória pélvica, dor crônica e infertilidade.
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