Vida e Saúde

Cirurgia inovadora amplia autonomia de pacientes com Parkinson por mais de uma década

Especialista esclarece que estimulação cerebral profunda realizada em Moacyr Luz não cura o Parkinson, mas pode garantir benefícios duradouros, de até 10 a 15 anos

Agência O Globo - 07/01/2026
Cirurgia inovadora amplia autonomia de pacientes com Parkinson por mais de uma década
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A cirurgia cerebral realizada no cantor e compositor Moacyr Luz, que convive há quase vinte anos com a doença de Parkinson, reacendeu o debate sobre um dos tratamentos mais avançados para sintomas motores difíceis de controlar. A técnica de estimulação cerebral profunda (DBS), à qual o sambista foi submetido em outubro, ganhou destaque entre as notícias positivas de 2025. Embora não interrompa a progressão da doença, o procedimento pode proporcionar anos de significativa melhora na qualidade de vida.

“A doença de Parkinson é progressiva, mas a estimulação cerebral profunda permite que o paciente viva melhor por muito tempo”, explica o neurologista e professor da Universidade Iguaçu (Unig), Antonio Catharino. “Em muitos casos, os benefícios se mantêm por cinco, dez ou até 15 anos”, acrescenta.

Estudos clínicos publicados em 2021 na revista Neurology indicam que a DBS pode manter benefícios importantes por mais de uma década em pacientes com Parkinson. Em grupos acompanhados por até 15 anos após a cirurgia, foram registrados avanços duradouros em sintomas motores como tremor, rigidez e flutuações motoras, além de redução da necessidade de medicamentos. Embora o procedimento não interrompa a evolução da doença, os dados mostram que ele pode garantir anos adicionais de autonomia, funcionalidade e melhor qualidade de vida aos portadores. Outro benefício é a redução da dose de levodopa – medicamento essencial no tratamento – o que diminui os efeitos colaterais do uso prolongado.

Mais tempo com independência

O DBS atua regulando a atividade elétrica de áreas específicas do cérebro responsáveis pelos movimentos, reduzindo em torno de 50% a 60% os principais sintomas motores do Parkinson, causado pela perda de células produtoras de dopamina. Além dos sintomas motores, a doença pode provocar alterações na fala e no funcionamento cognitivo.

“A redução da dose de levodopa pode chegar a 30% ou até 60%, o que também melhora os efeitos colaterais de um tratamento prolongado”, destaca Catharino. Na prática, isso representa mais autonomia para atividades diárias, menos limitações físicas e maior participação social – fatores essenciais para o bem-estar do paciente e de sua família.

Um aspecto pouco conhecido é que pacientes submetidos ao DBS tendem a manter melhores índices funcionais ao longo da evolução da doença, em comparação com aqueles que seguem apenas o tratamento medicamentoso. “Mesmo com a progressão natural do Parkinson, a incapacidade pode ser retardada. Há redução do risco de quedas, menor necessidade de hospitalizações e mais independência por um período prolongado”, afirma o neurologista.

Tratamento precoce: idade do paciente faz diferença

Os melhores resultados são observados em casos com diagnóstico bem definido de Parkinson idiopático e boa resposta prévia à levodopa, fator importante para o sucesso do DBS. Segundo o especialista, a intervenção é contraindicada para pessoas com quadros psiquiátricos graves, como depressão não controlada ou psicose, que podem ser agravados pela cirurgia. Pacientes mais jovens, geralmente abaixo dos 70 ou 75 anos, tendem a apresentar respostas mais duradouras, embora a idade, por si só, não seja uma contraindicação absoluta. “O importante é uma seleção criteriosa dos pacientes e o acompanhamento multidisciplinar pós-operatório, fundamental para diminuir riscos e aprimorar resultados”, explica o médico.

Apesar dos benefícios, o professor da Unig alerta que o DBS não atua sobre todos os sintomas. Alterações de marcha, equilíbrio, fala e sintomas cognitivos costumam responder pouco ao tratamento, e a doença segue seu curso natural.

“Entender esses limites é importante para alinhar expectativas. O DBS não é cura, mas é uma ferramenta poderosa para melhorar a vida do paciente por muitos anos”, ressalta Catharino.

A estimulação cerebral profunda é considerada um procedimento seguro quando realizada por equipes experientes, como a que atendeu Moacyr Luz, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. As complicações graves são raras.