Vida e Saúde

O segredo dos supercentenários brasileiros, de acordo com novo estudo

Receita para viver 100 anos ou mais e com qualidade está na diversidade de genes

Agência O Globo - 07/01/2026
O segredo dos supercentenários brasileiros, de acordo com novo estudo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Um artigo publicado terça-feira, na revista Genomic Psychiatry, afirma que o Brasil guarda o grande tesouro do mundo para desvendar e democratizar os segredos da longevidade humana extrema. Em seu artigo, Mayana Zatz e colegas do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP) analisam por que o Brasil tem um dos recursos mais valiosos — ainda que subutilizados — para compreender a longevidade humana extrema.

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Miscigenação

O Brasil oferece algo que nenhum outro país possui, enfatiza o artigo. Desde a colonização portuguesa em 1500, passando pela migração forçada de cerca de 4 milhões de africanos escravizados e pelas ondas de imigração europeia e japonesa, o país desenvolveu o que os autores descrevem como “a maior diversidade genética do mundo”.

Estudos do próprio grupo de Zatz e também de outros equipes estimaram que aproximadamente 70% da população brasileira apresenta miscigenação.

Milhares de centenários

Com cerca de 37 mil centenários, segundo o IBGE, o Brasil pode se orgulhar de desempenho olímpico na modalidade vida longa. Os números citados no artigo impressionam. Três dos 10 supercentenários do sexo masculino validados (que têm comprovadamente a idade que alegam) mais longevos do mundo são brasileiros — incluindo o homem mais velho vivo, nascido em 5 de outubro de 1912.

Zatz observa que esse fato é particularmente significativo, já que a longevidade extrema masculina é muito mais rara que a feminina. Supercentenárias brasileiras estão entre as 15 mais longevas do mundo, à frente até de países mais populosos e desenvolvidos, como os Estados Unidos, de acordo com a LongeviQuest, empresa especializada em checagem de dados de centenários.

Genoma

O mais curioso é que a idade secular e o fato de serem miscigenados são os únicos pontos em comum entre eles, que vem de todas as regiões e extratos sociais do país.

— Alguns deles nunca receberam atendimento médico decente nem puderam se dar a luxos como adotar a chamada dieta mediterrânea (a base de vegetais, azeites e peixes). Alguns têm até sobrepeso ou não comeram o que se considera adequado — diz Zatz.

Quem vê cara não vê genoma. E é nele que está a diferença. Muitos dos chamados genes de interesse para a fonte da vida loga são ligados ao sistema imunológico. Isto é, à resistência a doenças. Outros estão associados à capacidade cognitiva e muscular. O que implica romper a barreira dos 100 anos dono de seu destino.

Alguns supercentenários brasileiros ainda eram lúcidos e independentes nas atividades básicas do dia a dia. Muitos tiveram pouco ou nenhum acesso à medicina moderna. Ela observa que descobriram pelo menos 163 variantes genéticas de interesse.

Amostra inédita

O estudo abarca mais de 160 centenários, incluindo 20 supercentenários validados (totalmente documentados), vindos de várias regiões do Brasil, com origens sociais, culturais e ambientais heterogêneas. Entre os participantes estava a Irmã Inah, reconhecida como a pessoa mais velha do mundo até sua morte em 30 de abril de 2025, aos 116 anos.

O trabalho também inclui os dois homens mais velhos do planeta — um morreu em novembro de 2025 aos 112 anos, e o outro está atualmente com 113 anos.

Características

O grupo da geneticista Mayana Zatz, da USP, já identificou algumas das características que contribuem para tornar os supercentenários brasileiros biologicamente únicos. Entre elas se destacam:

Faxina turbo. Certas variações genéticas estão associadas aos linfócitos sanguíneos periféricos. Eles têm atividade proteassomal, o que vale dizer que removem proteínas velhas e quebradas de dentro das células. Se deixados lá, esses cacos proteicos podem causar doenças. Porém, nossos faxineiros interiores perdem atividade à medida que envelhecemos. Mas nos superidosos brasileiros, o serviço de limpeza funciona tão bem quanto em alguém na faixa de 20 anos.

Transformers. Análises revelaram em supercentenários células de defesa CD4+ citotóxicas com perfis típicos de linfócitos CD8+, um fenômeno praticamente ausente em jovens. Se pensarmos no sistema imunológico como um exército, as células CD4+ seriam generais, que sinalizariam a outras células o que fazer. Já os CD8+ são como tropas especiais que matam vírus e células cancerosas diretamente. Os estudos mostraram que nos superidosos alguns generais CD4+ se comportam como soldados CD8+, indo eles mesmos dar cabo de agentes nocivos. Essa capacidade vitualmente não é observada em células de pessoas jovens. Só os supercentenários conseguem fazer essa transformação. Parece ser uma arma secreta imunológica que aparece só quando se passa dos 100 anos.