Vida e Saúde

'Fui médica de mim mesma', diz brasileira que convive com diabetes há 75 anos

Aos 94 anos, Carmen Wills viu as transformações radicais no controle glicêmico e tratamento da doença

Agência O Globo - 14/11/2025
'Fui médica de mim mesma', diz brasileira que convive com diabetes há 75 anos
- Foto: Depositphotos

“Completei 75 anos de convivência com a diabetes tipo 1: agora tenho 94 anos de idade. Meu acompanhamento médico para o controle da doença acontece a cada trimestre, e procuro sempre obedecer o que a médica me pede. Cuido da minha alimentação, mas já não quero mais fazer aqueles cálculos da quantidade de carboidratos que posso consumir, mas de olho mesmo consigo saber bem a medida. Não exagero.

Por conta da idade, uso aparelho para ouvir melhor e tenho degeneração macular (perda progressiva da visão). Fui a três médicos, mas todos me disseram que nada tem a ver com a diabetes, é algo da idade mesmo. Não tenho hipertensão e meus exames estão sempre na média esperada.

Comigo acontecem coisas engraçadas. Domingo fui à igreja e voltei de carro de aplicativo. O motorista estava muito preocupado com o pai que não cuidava da diabetes. Eu contei que tinha um livro. Ele pediu para tirar uma foto comigo e fez um vídeo para mandar para o pai.

Na aula de pilates, costumo ouvir que há pessoas de 20 anos que não levantam com a mesma velocidade que eu. Tem gente que está começando a fazer exercícios depois de ver meus vídeos me exercitando. Não faço isso para me exibir, mas graças a Deus que dá resultado para (inspirar) os outros. Mesmo na minha igreja está todo mundo fazendo regime, se exercitando e se cuidando. Pois assim dá para viver com mais saúde.

Penso que, em certo sentido, a diabetes até ajudou na minha vitalidade, mesmo sabendo que a vida longa é algo comum na minha família. Porque precisei me cuidar mais, a vida toda. Nos primeiros 30 anos em que lidei com a doença, eu não tinha recurso nenhum a não ser o exame de urina para medir a glicemia. Não adiantava nada, porque quando percebíamos pelo teste que a a glicemia estava alta já era uma informação da véspera, não era da hora (pois o exame não chegava a tempo). Então, esse dado não servia para muita coisa. E eu tinha baixas de glicemia, porque não tinha como controlar sempre.

Uma vez por mês, eu fazia exame no laboratório. Às vezes, levava quatro dias para termos o resultado. Hoje em dia é possível ver o resultado em tempo real, por meio de um sensor. Os resultados saem na tela do celular, meu e da minha filha.

Por conta do cenário anterior, controlei a alimentação toda a vida. Não abuso do carboidrato e da gordura. Não gosto de comer carne assada muito gorda, arroz e massas como pouco. Uns 100 gramas está bom. Sinto que tudo isso me ajuda.

Quando descobri a diabetes, engravidar era praticamente “proibido”, não era aconselhado. Mas naquele tempo não tinha pílula e havia pouco acesso a preservativos. Acabei engravidando duas vezes, e no oitavo mês tive que fazer as cesáreas. Tive duas filhas.

Descoberta

Claro, temos que dizer que o diabetes tipo 1 não é algo que vem da família, é uma doença autoimune. No meu caso, descobri quando tinha 19 anos. Foi uma época em que experimentava um mal-estar muito grande. Os sintomas foram muito acentuados, porque (em casos assim) se sente muita sede ou muita fome. Aí você come e bebe exageradamente, vai ao banheiro toda hora. E vai se desidratando e perdendo peso. Eu já era muito magra e perdi 10 quilos. Sentindo um desconforto terrível.

Cheguei a ser hospitalizada em um estado pré-coma. Foi algo que começou devagar. Não aparece bem na hora. Nessa época eu estava a três meses de terminar o curso científico e não me sentia bem. Por vezes tinha tonturas, coisas assim. Fui ao médico e ele disse que eu tinha amígdalas ruins, até fiz cirurgia e piorei bastante depois. Ninguém fez exame de glicemia. Porque, aliás, naquele tempo não faziam. Era década de 1950.

Eu fiquei muito assustada, achei que era câncer, pois me sentia muito mal. Aliás, nem falávamos esse nome ‘câncer’ naquela época. Dizíamos: ‘aquela doença’, por medo. Foi minha irmã quem me deu a notícia: ‘olha você está com diabetes’. Pensei: ‘que bom que é só isso’. Comecei a tomar a insulina. Fiquei um mês no hospital e achei que no momento em que saísse estaria tudo certo, eu estava liberada. A minha avó tinha diabetes tipo 2 (a variação doença que pode estar ligado aos hábitos de vida além de fatores genéticos), eu só sabia que ela tinha que se cuidar e que não podia comer doces. Era tudo o que eu sabia sobre a doença até então.

Mesmo uso da insulina não era tão disponível. Inclusive, ela não era fabricada no Brasil. Era uma descoberta recente: foi em 1921 e eu nasci em 1931. Então, era tudo importado. Eu tinha que tomá-la antes de cada refeição, com aquelas seringas de vidro, todas fervidas. Era uma agulha muito grande que lesava a pele. Foi muito difícil o começo.

Nos primeiros 30 anos tive muitas crises de hipoglicemia. Eu sempre dirigi muito, então por vezes saia de casa, ia em algum lugar e passava mal e sumia — naquele tempo não tinha celular, apenas telefones públicos. Mas sempre me apareceram anjos para socorrer. Em crises mais sérias, alguém sempre me socorreu e me ajudou. Mesmo não sabendo do que se tratava. Porque às vezes passa uma impressão de que você está bêbada, ou algo assim. Para lidar com esses episódios é preciso comer algo, algo doce. Inclusive, dia desses um menininho de 8 anos me disse que gostava das crises pois esse era o momento que a mãe o deixava comer doces. Eu dei risada.

Hoje, os controles da doença são mais precisos, então nem existe restrição para que a gente dirija, por exemplo. Naquela época não se sabia muito da doença, era chamada até mesmo de diabetes juvenil.

Relação familiar

Com meus equipamentos para medição, consegui conhecer o mundo. Europa, Ásia, África, viajei o mundo ao lado do meu marido. O diabetes não me impediu, quando você consegue controlar e fazer as coisas como deve, você tem liberdade para viver bem. A minha filha mais velha, porém, teve um pouco de trauma com a minha doença. Pois já aconteceu de eu estar em casa com ela e eu perder os sentidos. E ela ficou desnorteada. Era bem pequena, deveria ter uns 8 anos, mas teve ideia de chamar os vizinhos. Quando tinha hipoglicemia, ela achava que eu falava muito duro com ela. Então ficou essa queixa em relação à diabetes. Uma psicóloga explicou que as mães com essa doença deveriam conversar mais com as crianças, dizer o que é. Se bem que hoje mudou, as crianças que têm e as mães que sofrem com isso.

Quando era mais jovem, eu tinha planos de estudar Medicina. Mas não estudei, pois namorei, casei e ficou complicado. Então, fui médica de mim mesma e permaneço estudando. Aos 60 anos, vivi um câncer de mama. Descobri fazendo o autoexame. Tive de fazer uma cirurgia de retirada total de um dos seios, químio e radioterapia.

Nessa época, o diabetes ficou muito descontrolado por conta dos medicamentos. Ainda era um tratamento muito precário. A químio era caríssima, caríssima mesmo. Vivemos um dilema, queríamos vender o carro para pagar o tratamento, mas conseguimos tratar a doença pelo SUS. Lá, conheci a médica endocrinologista que agora me trata mais há 30 anos. Não deixei nada me abater, tenho muita fé e assim vou para frente.

Hoje em dia conheço muitas crianças com diabetes, elas me abraçam e dizem que vão ler minha história. Digo para elas que podem ultrapassar meus 75 anos vivendo com diabetes, pois eu descobri com 19, elas com bem menos. Digo que 75 anos é até pouco para quem vai se cuidar. Eu me cuido direitinho no que diz respeito à doença. Nos outros temas, tento sempre me endireitar cada vez mais. Penso que não podemos nunca ser piores do que já fomos. Sempre dá para dar uma melhorada.”

*Em depoimento a Mariana Rosário