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Rock in Rio: A Revolução da Geração Z no Mercado de Festivais

Como os jovens moldam a nova era dos eventos musicais

Estadao Conteudo 05/09/2026
Rock in Rio: A Revolução da Geração Z no Mercado de Festivais
- Foto: Reprodução / Instagram

Megumi Midorikawa, de 24 anos, comprou ingressos para o Rock in Rio ainda no ano passado, quando o festival mal havia anunciado todas as atrações. Para a designer gráfica e creator, apenas um nome no line-up importava: o grupo de K-pop Stray Kids, que marca a estreia do gênero no evento.

"Decidi assim: se o Stray Kids vai tocar em algum lugar, eu estou lá", conta, em entrevista semanas antes do festival ao Estadão. Não é a primeira vez, inclusive, que Meg irá assistir a um show do grupo. De caravana partindo da cidade onde mora, próxima a Curitiba, ela já veio a São Paulo para a apresentação do grupo no MorumBis no ano passado.

O momento da compra do ingresso para o Rock in Rio rendeu um vídeo que ultrapassou as 100 mil visualizações no TikTok. Nele, Meg diz ter acendido uma vela e, entre os pedidos, estava conseguir assistir ao grupo. Ao conseguir comprar, se emociona e brinca sobre o valor da entrada.

Meg planejava viajar de avião e alugar um Airbnb para o dia do show. Mas bastou o início das vendas para os preços mudarem subitamente: segundo ela, de R$ 300, a passagem de ida e volta para Curitiba foi para R$ 900; o Airbnb saltou de R$ 200 para R$ 1 mil.

Nada, porém, fez a creator desistir de ir ao Rio de Janeiro acompanhar o grupo. Restou, de novo, a opção da caravana. A experiência para o show na capital paulista não foi exatamente positiva - Meg conta que precisou parar em uma cidade no caminho depois de uma crise de ansiedade e chegou a ser levada de ambulância -, mas, das memórias que ficaram com ela, sobraram apenas as boas e os vídeos da apresentação, que volta a assistir com frequência.

"O Stray Kids me ajudou a passar por um momento difícil, então tenho muito carinho por eles", comenta a creator. "Eu sou bem apegada às músicas e também aos conteúdos que eles postam, que ajudam a gente a passar por aquelas fases difíceis com um sorriso no rosto. Quem tem essa conexão com uma música, com uma banda ou com um grupo sabe do que eu estou falando. Independentemente de gênero, acontece isso."

Por que a Geração Z aceita pagar mais caro?

A conexão e o esforço para participar de um evento de música ao vivo não são sentimentos restritos a Meg - na verdade, é uma tendência cada vez maior da geração dela, a Geração Z. E é claro que o mercado de festivais e o Rock in Rio estão de olho nisso. "O fato de ter o Stray Kids no Rock in Rio hoje já é o festival olhando para essa geração", comenta Fabiana Lian, produtora artística de shows de nomes como Madonna, Beyoncé e Justin Bieber e fundadora do curso On Stage Lab.

Um estudo recente divulgado pela Luminate, base de dados dos charts da Billboard, mostrou que, pela primeira vez, a Geração Z gastou mais com eventos de música ao vivo nos Estados Unidos do que os Millennials. Conforme a pesquisa, a geração dos nascidos entre 1997 e 2010 gastou uma média mensal de US$ 101 (cerca de R$ 518, na cotação atual) em shows e festivais no primeiro trimestre de 2026. Já os Millennials (o grupo que, historicamente, mais gastava com música ao vivo) desembolsaram uma média mensal de US$ 94 (cerca de R$ 482).

Aqui no Brasil, a tendência ainda engatinha. Um estudo feito pela plataforma Mapa dos Festivais em parceria com a Walk The Talk em 2024, divulgado em 2025, mostrou que a faixa etária dos 25 aos 34 anos (formada predominantemente por millennials) gasta mais enquanto está em festivais, R$ 433,69. A Gen Z ainda gastava R$ 388,22.

Segundo a Luminate, o crescimento recente dos gastos da Geração Z com shows e festivais tem a ver com um aumento do poder aquisitivo dos mais jovens. Mesmo assim, uma pesquisa do Cash App de 2025 mostrou que 1 a cada 5 membros da Geração Z gastam além de seus recursos para ir a um evento de música.

Na opinião de Juli Baldi, diretora do Mapa dos Festivais, a Geração Z topa pagar mais caro "porque enxerga os shows e festivais como um investimento em lazer, como uma forma de pertencer a um grupo, socializar com amigos e novas pessoas, e viver num espaço livre para se expressar."

Medo de ficar de fora

Há até um nome para o sentimento de sentir que deixou de fazer parte de uma coisa importante: o "fear of missing out", ou "FOMO", ou medo de ficar de fora. Mas fugir do "FOMO" para participar de grandes festivais é cada vez mais caro.

O Estadão fez uma conversão do preço dos ingressos do Rock in Rio ao longo dos anos com a ajuda de uma calculadora do Acervo Estadão, que usa como base preços dos jornais da época para fazer a conta, para ver quanto as entradas de cada ano custariam hoje. Em 1985, conseguir assistir ao show histórico do Queen no festival custou R$ 174. Hoje, conseguir ver Elton John no evento custa R$ 870.

O preço do ingresso começou a ficar salgado depois da última retomada do Rock in Rio, em 2011. Na época, a produção dobrou o preço das inteiras para que a meia-entrada ficasse com o preço real. Participar do Rock in Rio naquele ano custou R$ 316,67.

Levando em conta a média gasta pela Geração Z em um festival calculada pelo Mapa dos Festivais, os mais jovens devem gastar cerca de R$ 1.258,22 se pagarem a inteira no ingresso. Isso sem levar em conta a hospedagem e o transporte para os que são de fora.

E conferir uma turnê solo de um artista de grande porte também não fica muito para trás em termos de valores. O Panorama Mapa dos Festivais, divulgado em março deste ano, mostrou que os shows de K-pop - que, justamente, atraem a Geração Z em massa - têm o maior preço médio entre as turnês.

O preço da inteira para os shows do BTS em outubro no MorumBis, por exemplo, vai de R$ 680 (valor na Arquibancada) a R$ 1.250 (valor do ingresso na Pista). Mesmo assim, a procura na época da venda dos ingressos foi tanta que seria suficiente para lotar o MorumBis até 15 vezes consecutivas, segundo o diretor da Ticketmaster Brasil, Donovan Ferreti.

Line-up para Geração Z é line-up de TikTok?

Não é segredo o impacto que as músicas que viralizam no TikTok têm no mercado da música atualmente. A plataforma de vídeos é muito associada à Geração Z - mas isso quer dizer que os jovens querem assistir a artistas virais em festivais ou que o futuro dos line-ups será pautado pelo algoritmo?

Segundo os especialistas ouvidos pelo Estadão, não necessariamente. "O domínio dos algoritmos ocorre em função das novidades tecnológicas e, como toda novidade, no início causa um furor, mas depois essa bola baixa um pouco", comenta o cantor, produtor e apresentador Chinaina, à frente do programa Caça Joia Clipes, exibido no Canal Futura e Globoplay.

Para o artista, "pessoas que gostam de música e estão mais antenadas sempre vão preferir festivais e playlists que tenham curadoria humana". "Já vemos uma geração pensando em consumir música como se consumia há décadas, com um trabalho e um disco elaborado. Escute, por exemplo, o disco da Liniker Caju, que tem músicas longas - algo que os artistas foram deixando para trás para caber em vídeos de poucos minutos", exemplifica.

Juli Baldi avalia que a nova geração "quer participar da construção da carreira de novos artistas". "Não acho que vamos ter cada vez mais shows e festivais dedicados, pois a nostalgia e o que nos é familiar também vende, mas vejo como essencial o equilíbrio no line-up entre novos e medalhões."

Fabiana Lian observa que, independente da época e do gênero, o "fenômeno do fã" é o que sempre vai guiar line-up de festivais. Ela relembra o show dos Backstreet Boys no The Town no ano passado, que mobilizou fãs que acompanham o grupo desde meados dos anos 1990.

Fabiana e Chinaina são unânimes em um fato: para que os line-ups dos festivais continuem a ser diversos e interessantes, é preciso que marcas invistam em festivais menores, com nomes que estão começando na cena musical. "Os novos Caetanos, Gils, Bethânias e Gal Costas do futuro não serão pautados por números, mas sempre pela qualidade. Gravadoras e festivais precisam apostar na nova geração sem se preocupar tanto com métricas", comenta o cantor.

"Esses festivais menores estão construindo os line-ups do futuro", diz a produtora. "Minha preocupação é que patrocinadores e curadores olham muito para o mainstream e, por isso, estamos perdendo cenas musicais importantes que a Geração Z observa com cuidado. Isso pode nos deixar sem público e sem line-up para os grandes festivais daqui a alguns anos."