Variedades
Após temporada com sessões lotadas, Leonardo Garcez celebra protagonista no teatro como Jorge Laffond
Ator relembra os desafios de assumir o papel em pouco mais de um mês e diz que encontrou no palco uma forma de homenagear o legado do criador de Vera Verão
A temporada de Jorge Pra Sempre Verão chegou ao fim, mas Leonardo Garcez acredita que a experiência está apenas começando a render frutos. Depois de assumir o protagonista em pouco mais de um mês de preparação e encerrar a passagem do espetáculo pela Caixa Cultural Salvador com sessões lotadas, o ator celebra o momento mais importante de sua trajetória no teatro e já começa a olhar para os próximos desafios no audiovisual. Enquanto colhe os resultados da montagem, Leonardo também está em negociação para um novo projeto no audiovisual.
"Foi uma experiência incrível. Algo que eu nunca poderia imaginar. Tive esse encontro de fato com o Jorge, com a história. Acho que eu estava completamente imerso nisso tudo. Coloquei o meu humor, as pessoas adoraram, e estou recebendo um retorno muito bonito sobre a minha sensibilidade. Estou muito feliz comigo."
O ator também destaca o impacto de ver o espetáculo lotado durante toda a temporada e a resposta do público após cada apresentação.
"Ver o olhar das senhoras, das crianças, dos meninos pretos... participar dos bate-papos... Enfim, é a realização de um sonho. Meu primeiro protagonista no teatro, vivendo Jorge Laffond, me entregando dessa forma tão verdadeira, tão honesta comigo. Agora eu quero colher os frutos disso. Que tenha vida longa."
Dirigido por Rodrigo França e escrito pela dramaturga Aline Mohamad e Diego do Subúrbio, Jorge Pra Sempre Verão foi estrelado por Leonardo Garcez, Alexandre Mitre , Aretha Sadick e Aline Mohamad. Além das apresentações com lotação máxima, a montagem promoveu um bate-papo com o público, ampliando o debate sobre o legado de Jorge Laffond e a representatividade negra e LGBTQIA+ no teatro brasileiro.
Um personagem que mudou de significado
Leonardo lembra que, durante muitos anos, ouvir o nome de Vera Verão era motivo de dor. Para ele, o apelido carregava dois preconceitos ao mesmo tempo.
"Era uma tentativa de ofensa dupla. Por eu ser preto e por ser gay. Durante muito tempo aquilo me causou medo, insegurança e muita tristeza. Hoje eu entendo quem o Jorge foi para o Brasil e para mim. Voltar ao palco como ele é uma forma de mostrar que eles estavam errados e que ser comparado a ele jamais será ofensivo."
Segundo o ator, revisitar a trajetória de Jorge Laffond também permitiu compreender a importância do artista em um período em que a representatividade na televisão ainda era muito limitada.
"A gente vê o quanto o racismo e o preconceito são danosos. Hoje eu consigo entender a importância que ele teve para abrir caminhos. Interpretar o Jorge também é um processo de cura."
Muito além de Vera Verão
A preparação para o espetáculo foi construída a partir de entrevistas, livros, registros audiovisuais e relatos de pessoas que conviveram com Jorge Laffond, além do acompanhamento da preparadora Érica Ribeiro. Desde o início, Leonardo decidiu que não queria apenas reproduzir a personagem conhecida pelo grande público, mas descobrir quem era o homem por trás dela. "A Vera já é muito conhecida. O que eu queria entender era quem era o Jorge quando as câmeras desligavam."
Foi durante essa pesquisa que encontrou o aspecto que mais o marcou. "No fundo, ele só queria ser amado. Quando a gente pensa em pessoas pretas, principalmente pessoas LGBTQIA+, muitas vezes o amor também nos é negado. Eu sou casado com um homem preto e, estudando a vida do Jorge, percebi que, apesar de todo o talento e reconhecimento, ele buscava justamente esse acolhimento."
Teatro como refúgio
A relação de Leonardo com a arte começou ainda na infância, na Vila Guacuri, bairro onde nasceu, por meio do projeto social Circo das Artes. Filho de uma educadora e cabeleireira que atuava no espaço, cresceu frequentando oficinas até descobrir o teatro, onde encontrou um ambiente completamente diferente daquele vivido na escola.
"O teatro foi meu refúgio. Enquanto a escola era um ambiente muito hostil, era ali que eu podia criar, brincar e descobrir quem eu era."
Depois vieram os cursos de cinema, teatro e audiovisual e produções como 3% (Netflix), No Mundo da Luna (Max), B.A.: O Futuro Está Morto (HBO Max), além dos longas Behind You, Vale Night e Maníaco do Parque (Prime Video), e campanhas para marcas como Sadia, 99, Google e McDonald's. No teatro, também participou de espetáculos como Ensaio para o Baile, Dom Quixote de La Mancha, Sonho de uma Noite de Verão e Quando Anoitece.
Mesmo após viver aquele que considera o papel mais marcante de sua carreira até aqui, Leonardo afirma que segue olhando para o futuro.
"O meu personagem dos sonhos é o próximo. Quero continuar contando histórias que tenham propósito e que façam sentido para quem eu sou."
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