Variedades
Orquestra Capa Bode de Nazaré da Mata lança primeiro álbum instrumental dedicado ao frevo
Obra inédita reúne CD, documentário e distribuição gratuita nas plataformas digitais. Lançamento será realizado na sexta-feira, 17 de julho, na Praça do Frevo
Fundada em 1888, poucos meses após a abolição da escravidão no Brasil, a Orquestra Euterpina Juvenil Nazarena, conhecida popularmente como Orquestra Capa Bode de Nazaré da Mata, lança o primeiro projeto fonográfico instrumental de sua história. O álbum Euterpina Juvenil Nazarena e os Cantos da Sua Casa será apresentado ao público na sexta-feira, 17 de julho, às 19h, durante show gratuito na Praça Herculano Bandeira, conhecida como Praça do Frevo, no centro do município da Mata Norte pernambucana. A programação é gratuita e aberta a todos os públicos.
O lançamento marca um novo capítulo nos 138 anos de trajetória da instituição e celebra uma das mais importantes expressões da cultura brasileira. Inspirado nos diferentes gêneros do frevo, como o frevo de rua, o frevo-canção, o frevo de bloco e o frevo rural, o trabalho reúne composições inéditas que dialogam com as sonoridades, memórias e tradições culturais da Zona da Mata Norte de Pernambuco. O frevo foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2007 e inscrito como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco em 2012.
Antes mesmo da primeira faixa soar, o álbum revela a herança centenária que sustenta a tradição musical da Capa Bode. É a mesma tradição que ajudou a projetar nomes como Nelson Ferreira, Capiba, Levino Ferreira, José Menezes e Maestro Duda para a história da música brasileira. Agora, ela reaparece pelas mãos de jovens músicos da Mata Norte que transformam essa memória em novas sonoridades, sem romper os laços com as raízes que fizeram do frevo um dos maiores patrimônios culturais do país.
O resultado é um trabalho que percorre os diferentes caminhos do frevo e encontra nas culturas populares afro-indígenas da Zona da Mata Norte um campo fértil para novas leituras musicais. Cada faixa carrega fragmentos de uma mesma paisagem: o brilho dos metais nos carnavais, o balanço dos maracatus rurais, o som das filarmônicas atravessando as ruas e a memória coletiva de um território onde a música sempre foi uma forma de pertencimento.
Ao longo de 28 minutos e 47 segundos, o disco conduz o ouvinte por uma viagem sonora que atravessa diferentes cenários culturais da Mata Norte. Os arranjos evocam ruas tomadas pelo carnaval, cortejos de maracatu rural cruzando canaviais, procissões religiosas acompanhadas por bandas centenárias e encontros populares que ajudaram a moldar a identidade cultural da região.
Entre as novidades da apresentação fonográfica ao público, está a participação do Terno Soprado, formado por integrantes da instituição, que vão abrir o evento trazendo toda musicalidade regional, dando mais um tempero cultural para a celebração artística da Capa Bode.
A abertura acontece com Na Pressão, composição marcada pela energia dos metais e pela força característica do frevo de rua. Em seguida, Caboclo Pulando mergulha no universo simbólico dos maracatus rurais, dialogando com a estética dos caboclos de lança e com a tradição dos brinquedos populares da Zona da Mata. Em Frevo Baião, a obra aproxima dois dos mais importantes gêneros musicais nordestinos, criando uma ponte entre o ambiente carnavalesco e as influências sertanejas.
O percurso segue com Boi de Nino, inspirada nas manifestações populares presentes nos ciclos festivos do interior pernambucano, enquanto Lula no Frevo homenageia personagens e sonoridades que ajudaram a construir a identidade musical da região. A faixa Capa Bode assume um papel especial dentro do álbum ao funcionar como um retrato musical da própria instituição, traduzindo em sons a memória e a resistência de uma das mais tradicionais bandas do estado.
Já Cadê o Xaque? e Formigando apresentam uma atmosfera festiva e brincante, revelando a criatividade dos compositores e a capacidade do frevo de dialogar com diferentes gerações. Nas faixas finais, Frevo Maracatu e Fervo no Frevo sintetizam a proposta estética do projeto ao aproximar a linguagem do frevo das matrizes afro-indígenas presentes no território da Mata Norte, reafirmando a vitalidade de uma tradição que continua em permanente movimento.
As composições são assinadas por João Paulo, Guilherme Otávio, Gaspar Sax, Lula e pelo saudoso Maestro Hermes, personagem fundamental da trajetória da Capa Bode e referência para diversas gerações de músicos da região. O álbum também presta homenagem aos mestres que fizeram das bandas filarmônicas espaços de formação artística, cidadania e transmissão de saberes populares.
As gravações reúnem dez músicos da própria orquestra. Guilherme Otávio e Rubens Alves assumem os trompetes; Gabriel Guilherme executa o trombone; Jorge Ricardo responde pela tuba; Carlos Eduardo atua no saxofone alto; Gaspar Sax executa os saxofones alto e soprano; Luciano Ramos atua no sax tenor; João Fernandes assina os teclados; Luciel Ramos conduz a percussão; e João Paulo responde pela bateria. Juntos, os instrumentistas constroem uma sonoridade marcada pela força dos metais, pela riqueza rítmica da percussão e pela influência direta das bandas filarmônicas que há mais de um século ecoam pelas ruas da Mata Norte.
Reconhecida como Patrimônio Vivo de Pernambuco desde 2010, a Capa Bode também atua como Ponto de Cultura e escola de formação musical. Ao longo de sua trajetória, a instituição contribuiu para a formação de mais de 50 mil meninas, meninos, jovens, mulheres e idosos, muitos deles hoje atuando em bandas militares, grupos culturais, orquestras e projetos artísticos dentro e fora de Pernambuco.
A história da Capa Bode se confunde com a própria história cultural de Nazaré da Mata. Ao longo de mais de um século, a instituição participou de procissões, bailes, festas religiosas, encontros culturais e apresentações públicas, mantendo viva uma tradição musical transmitida entre gerações e fortalecendo os laços entre arte, memória e comunidade.
O projeto foi viabilizado por meio do Funcultura, mecanismo de incentivo cultural do Governo de Pernambuco, executado pela Fundarpe e pela Secretaria de Cultura do Estado. Além do álbum, a iniciativa contempla, ainda, a produção de um documentário sobre o processo de criação da obra, a distribuição de mil CDs físicos, dos quais 200 exemplares possuem identificação em braille, e a disponibilização gratuita das músicas nas plataformas digitais. A proposta amplia o acesso do público a um patrimônio musical construído ao longo de mais de um século e reafirma o papel das bandas filarmônicas como guardiãs da memória cultural pernambucana.
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