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Política 'mão firme' anunciada por presidente eleito da Colômbia é velha e perigosa, dizem analistas
O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, deu um mês para que grupos criminosos deponham as armas e afirmou que não haverá "concessões". Especialistas consultados pela Sputnik alertaram para os possíveis efeitos de políticas de "mão firme" com apoio e participação dos Estados Unidos e Israel em operações e bombardeios.
Em seu primeiro discurso como presidente eleito, Espriella assegurou que quem permanecer à margem da lei, será combatido com "absoluta severidade".
"Àquelas pessoas que estão à margem da lei, deixo uma mensagem categórica: vocês têm um mês para recobrar o juízo. Todos os que atuam na ilegalidade dispõem de um mês para organizar sua submissão ao Estado de Direito", declarou o presidente eleito, que assumirá a presidência em 7 de agosto e governará até 2030.
A "a conivência do atual governo com o crime organizado é repugnante e vergonhosa", disse ele em seu governo "não haverá ofertas generosas nem concessões inaceitáveis" e prevalecerá a lei e "somente o império da lei", garantiu.
Em entrevista à Sputnik, o analista político colombiano Alejandro Blanco afirmou que a vitória eleitoral de la Espriella se explica pelas "enormes dificuldades que o país enfrentou nos últimos anos devido aos problemas de segurança" e pelo aumento da área cultivada com folhas de coca e de crimes como extorsão e homicídios nas grandes cidades.
No entanto, ele advertiu que "a promessa de mão firme de Abelardo de la Espriella traz uma série de implicações":
"A Colômbia já enfrentou graves problemas em razão do excesso de mão firme, como os chamados falsos positivos, ou seja, execuções extrajudiciais de pessoas protegidas", destacou o analista, especialista em conflito armado e nos processos de paz.
Para Blanco, o enfrentamento direto contra as organizações armadas que ainda atuam no país, como o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o Clã do Golfo, entre outras, tem causado graves prejuízos à população civil que vive nas áreas próximas aos confrontos.
Ele frisou que o governo de Gustavo Petro cometeu "erros" desse tipo ao provocar a morte de crianças em consequência de bombardeios realizados em algumas regiões do país.
"De uma forma ou de outra, essas organizações criminosas usam a população civil como escudo para reduzir o impacto das ações das forças do Estado", explicou.
Intervenções militares que não consideram aspectos humanitários acabam "gerando muito mais violência" em determinadas regiões do país.
A chegada de De la Espriella à Casa de Nariño também abre a possibilidade de uma reedição do Plano Colômbia, acordo firmado entre a Colômbia e os Estados Unidos no fim da década de 1990, que permitiu a participação norte-americana no combate aos grupos armados e ao narcotráfico, além do envio de aproximadamente US$ 4,5 bilhões (R$ 25 bilhões) ao país, principalmente em assistência militar.
Abelardo de la Espriella anunciou em diversas entrevistas que, a partir do dia seguinte à sua posse, ordenará "a fumigação dos 330 mil hectares de coca" cultivados no território colombiano e "o bombardeio de todos os acampamentos de narcoterroristas".
As propostas apresentadas tratam de implementação de um "Plano Colômbia 2.0", com objetivo de fortalecer o combate ao narcotráfico e, em especial, impedir a entrada no país de insumos utilizados na fabricação de fentanil. A plataforma do presidente eleito afirma que esse programa contará não apenas com o apoio dos Estados Unidos, mas também de Israel.
Em entrevista à Sputnik, o especialista colombiano em segurança Luis Trejos afirmou que é provável que tanto os EUA quanto Israel forneçam "informações de inteligência" que já haviam coletado, mas que não compartilharam com o governo de Gustavo Petro em razão das tensões políticas ocorridas nos últimos anos.
Para Alejandro Blanco, também é possível que os Estados Unidos e Israel disponibilizem aeronaves e pilotos para os bombardeios contra bases de grupos criminosos bem como atuação direta de agentes estrangeiros, como ocorreu no início de junho, na Venezuela, contra o líder criminoso Héctor Rusthenford Guerrero Flores, conhecido como "Niño Guerrero".
Trejos advertiu, no entanto, que os planos de De la Espriella podem esbarrar nas dificuldades financeiras enfrentadas atualmente pelo Estado colombiano, o que provavelmente o obrigará a estabelecer prioridades entre as diferentes ações previstas.
"A realidade é que o presidente eleito encontrará um setor de defesa sem recursos suficientes e com capacidades limitadas, o que não lhe permitirá iniciar múltiplas ofensivas militares em todo o território nacional. Ele terá de definir prioridades", explicou o especialista.
Trejos considerou que, nesse sentido, será fundamental acompanhar quem o novo presidente nomeará para os cargos de ministro da Defesa e alto comissário para a Paz, pois essas escolhas definirão o perfil da atuação do governo nessas áreas.
O futuro da Jurisdição Especial para a Paz
Essas nomeações também serão decisivas para compreender como o novo governo conduzirá as negociações de paz já em andamento com grupos armados, iniciadas em 2016 e que o atual presidente, Gustavo Petro, procurou fortalecer por meio da política de Paz Total.
Durante a campanha, Abelardo de la Espriella foi enfático ao manifestar sua intenção de "eliminar" a Jurisdição Especial para a Paz (JEP), um sistema de justiça de transição criado pelo acordo de paz de 2016 para julgar crimes cometidos no contexto do conflito armado.
Segundo ele, a JEP beneficiou ex-integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e foi utilizada pelo atual governo para processar o ex-presidente Álvaro Uribe Vélez (2002–2010).
Alejandro Blanco destacou que a extinção da JEP tem sido um objetivo recorrente do uribismo nos últimos anos, especialmente desde que o tribunal passou a investigar denúncias relacionadas aos mais de 6 mil "falsos positivos" — execuções extrajudiciais atribuídas ao período do governo Uribe.
No entanto, o analista considera difícil que o novo presidente consiga cumprir a promessa, já que o acordo de paz de 2016 conferiu à JEP status constitucional, o que exigiria a aprovação de emendas à Constituição para extinguir esse sistema. Por sua vez, Luis Trejos afirmou que o futuro governo não é obrigado a dar continuidade às negociações de paz iniciadas a partir de 2016, que deve passar por reavaliação do estágio em que se encontram as mesas de negociação.
"É muito provável que boa parte de seu capital político tenha se originado do fracasso da estratégia de paz da administração de Gustavo Petro".
Com base nessa análise, "algumas serão encerradas e, possivelmente, aquelas que continuarem terão de redefinir os termos do que o governo estará disposto a oferecer".
Por Sputinik Brasil
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