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Foi plágio ou coincidência? Filme com Nick Jonas discute autoria na música

Em 'Hit para Dois', John Carney explora os limites entre inspiração, memória afetiva e disputa por crédito em uma canção.

Estadao Conteudo 15/06/2026
Foi plágio ou coincidência? Filme com Nick Jonas discute autoria na música
- Foto: AP/Luca Bruno

O cineasta John Carney diz que não consegue escrever por mais de 20 minutos seguidos. O baixo limiar de atenção o afastado do laptop e o leva ao piano — e é desse vaivém compulsivo entre roteiro e música que nasceram filmes como Sing Street , Mesmo Se Nada Der Certo e, agora, Hit para Dois ( Power Ballad ), que estreou no Brasil na semana passada.

“Encontro um equilíbrio gostoso entre o roteiro e o instrumento”, afirmou o diretor irlandês, em evento virtual com participação do Estadão . A declaração ajuda a entender o novo longa: uma história sobre o que significa, de fato, fazer uma canção. De quem ela é. E o que revela sobre quem a assina.

Em Hit para Dois , Paul Rudd interpreta Rick Power, um músico americano radicado na Irlanda que toca em bandas de casamento e convive com a dor de ver uma de suas composições parar nas mãos de Danny Wilson, astro pop vivido de Nick Jonas . Ao longo da trama, Rick tenta fazer justiça por sua música e por tudo o que ela representa, enquanto enfrenta a frustração de não conseguir decolar na carreira.

Apesar do suposto “roubo”, o filme não apresenta um vilão. A escolha foi deliberada por Carney e pelo corroteirista Peter Straughan . “Eu não acredito que o roubo de música seja assim tão preto no branco”, disse o diretor. "Ninguém se sentou para plagiar deliberadamente. É muito mais complexo do que isso."

Para ilustrar o argumento, Carney recorre a uma história que conta quase como um evangelho: a de que George Michael e Barry Manilow chegaram a um acordo discreto sobre a semelhança entre Last Christmas e uma canção na voz de Manilow, Can't Smile Without You , optando por destinar os royalties a uma instituição de caridade. "Dois músicos adultos estão dizendo: 'Eu provavelmente não sou dono de Mandy , e você provavelmente não é dono de Last Christmas '. É a melhor resolução que já ouvi para uma história de plágio", afirmou.

Coincidências

Nick Jonas, que construiu carreira desde a infância, primeiro com os Jonas Brothers e depois em trajetória solo, afirma que versões menores desse conflito fazem parte do cotidiano de qualquer compositor. “Há tantas notas no teclado, tantas melodias possíveis, com milhares de canções escritas todos os dias no mundo inteiro, que alguma coincidência vai acontecer”, avaliou.

O que atraiu o artista no roteiro foi justamente a recusa em transformar Danny em um antagonista convencional. "Ele pode ter sido um cara que tomou uma má decisão sem nem perceber direito o que estava fazendo. Isso complica a história e torna muito mais interessante", disse.

Jonas chegou a imaginar, para si mesmo, um epílogo que não foi filmado: antes dos créditos, Danny já teria procurado Rick e acertado as contas — não necessariamente em público, mas de forma concreta. “Espero que o público, depois do filme, debata o que acha que aconteceu”, conto.

Paul Rudd, por sua vez, vai ainda mais longe ao relativizar a ideia de autoria. Questionado sobre o que diria a artistas que tiveram obras negadas ou silenciadas, respondeu: “Se você tirar o ego da descoberta, o ato de criar algo já é uma coisa extraordinária, mesmo que só você saiba disso”. E completou: “A quantidade de pessoas que não receberam crédito pelo que provavelmente nos esmagaria se soubéssemos o número real.”

A fala poderia soar como consolo vazio, mas parte de alguém que passou décadas em uma indústria que ele próprio descreve como uma sucessão de apostas — algumas que deram certo, muitas que não.

Só música

O que um dos três, no entanto, é algo anterior a qualquer disputa por crédito: a memória de quando a música era apenas música, sem contrato nem algoritmo. Carney lembra do walkman do irmão mais velho e do trajeto de bicicleta para a escola, em Dublin, quando a canção certa faz até a bicicleta parecer decolar, como em ET — O Extraterrestre .

Jonas gravou o carro da família em Nova Jersey, com um CD dos Beatles tocando, e uma frase de Let It Be que, décadas depois, ainda o atinge “no centro do peito”. Rudd conta, sem cerimônia, que, quando era criança, aos 4 ou 5 anos, subia na cama, segurava uma escova de cabelo como microfone e cantava para o espelho. "Passei a vida inteira imaginando isso. Então foi como brincar de fantasiar por alguns meses", afirmou, rindo.

É nessa sobreposição — entre o menino que cantava para o espelho e o ator que grava em um estúdio em Dublin; entre o compositor que não sabe exatamente de onde veio a melodia e o diretor que também não sabe bem de onde veio o filme — que Hit para Dois encontra seu território.

Carney tem uma teoria sobre por que seus filmes emocionam sem que ele precise forçar a comoção. "Eu nunca me propus a fazer ninguém chorar. Mas a música entrou na minha veia quando eu era criança, direto no coração, sem precisar de letra. Acho que meus filmes tentam recriar isso", afirmou.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo .