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Livro "Frevo noir" desconstrói clichê da alegria no Nordeste

Em estreia pelo conto, escritor pernambucano Paulo André Souza usa o Carnaval e a literatura policial para debater desigualdade e angústia.

Redação com Assessoria 21/05/2026
Livro 'Frevo noir' desconstrói clichê da alegria no Nordeste
Paulo André Souza - Foto: Jacira Nascimento

O imaginário popular costuma associar as grandes festas do Nordeste — do Carnaval de rua ao circuito dos festejos juninos — a uma atmosfera de celebração ininterrupta e homogeneidade cultural. No entanto, por trás dos blocos, das quadrilhas e do turismo de massa, pulsam dinâmicas urbanas complexas, marcadas por contradições psicológicas e sociais. É justamente para tensionar esses contrastes que o escritor pernambucano Paulo André Souza lança seu livro de estreia, Frevo noir (Editora Mondru).

A obra, composta por 16 contos distribuídos em 118 páginas, utiliza a efervescência das ruas do Recife como um dispositivo narrativo para expor a vulnerabilidade humana. Longe de enxergar o Carnaval apenas como um período de euforia, o autor o transforma em um cenário de mistério, crimes e crises existenciais, onde a fantasia funciona tanto como uma ferramenta de resistência quanto como uma máscara para cobrir violências estruturais.

A desconstrução da identidade nordestina comercial

Ao adotar a estética do subgênero noir — tradicionalmente associado a tramas policiais sombrias, detetives desiludidos e ambientes urbanos degradados —, Paulo André propõe um debate mais amplo sobre a identidade nordestina contemporânea. O Recife apresentado no livro transita constantemente entre a ruína e a modernidade, o pertencimento e a exclusão social.

Frevo noir é uma ode à contradição. São personagens em rito de expansão ou de fuga, numa cidade que os sufoca. Os crimes, as paixões e os mistérios são estados da existência em que esse paradoxo melhor se revela”, explica o autor, que busca sintonizar sua literatura com outras manifestações que desafiaram o tradicionalismo regional, como o movimento Manguebeat da década de 1990.

O estilo do livro se destaca pela ironia fina, por uma atmosfera existencialista e pela costura orgânica com referências da cultura pop global e da filosofia clássica. Nos contos, diálogos rápidos dividem espaço com menções que vão da escritora Hilda Hilst e dos acordes de jazz da banda Pink Floyd ao niilismo de Friedrich Nietzsche.

Da ciência criminal à escrita criativa

A bagagem técnica do autor confere verossimilhança às descrições das margens da legalidade presentes nas narrativas. Formado em Direito e especialista em Ciências Criminais, Paulo André Souza refinou seu estilo literário ao frequentar cursos de extensão em Escrita Criativa na PUCRS e ao integrar a tradicional oficina literária do mestre Raimundo Carrero, uma das maiores referências vivas da literatura nacional.

Entre suas principais influências confessas estão o realismo de Machado de Assis, a crueza urbana de Rubem Fonseca e a visceralidade da escrita de Ana Paula Maia. O autor também atribui seu ritmo de texto ao universo dos letristas da música brasileira — incluindo Luiz Gonzaga e Chico Science — e à estética visual de cineastas como Alfred Hitchcock, Quentin Tarantino e Kleber Mendonça Filho.

Frevo noir marca o início de uma planejada trilogia de contos. A opção pelo formato de narrativas curtas reflete uma escolha deliberada do autor por um ritmo mais cirúrgico de leitura. A obra já está disponível nos canais digitais da Editora Mondru e em livrarias independentes, convidando o público a enxergar as sombras que se projetam sob as luzes das festas populares do país.