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Peça #malditos16 mostra o impacto da solidão em jovens que trocaram a rua pela internet

17/04/2026
Peça #malditos16 mostra o impacto da solidão em jovens que trocaram a rua pela internet
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Alerta: a reportagem abaixo trata de temas como suicídio e transtornos mentais. Se você está passando por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.

Acostumado às audiências massivas, o diretor de televisão Ricardo Waddington, de 65 anos, volta ao teatro com a intenção de se comunicar com amplas plateias. A peça #malditos16, escrita pelo dramaturgo espanhol Nando López, que estreou nesta quinta-feira, 16, no Teatro Faap, em São Paulo, parte do complexo universo adolescente para atingir todas as faixas etárias.

O tema central é um tabu, o suicídio, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), tira anualmente a vida de 700 mil garotos e garotas entre 15 e 29 anos, mas a discussão é urgente e rara na arte. A trama envolve quatro jovens que se conheceram aos 16 anos em uma clínica psiquiátrica depois de tentativas de tirar a própria vida e, na casa dos 20, se reencontraram como participantes de um programa assistencial a meninos e meninas impactados por dramas semelhantes.

O quarteto é interpretado por Pedro Waddington, Sara Vidal, Benjamín e Julia Maez, cujos personagens enfrentam problemas relacionados à violência doméstica, abuso sexual, homofobia e gordofobia. A atriz Helena Ranaldi vive a psiquiatra Violeta, e o ator Matheus Sousa é o seu assistente. “É um tema difícil, duro, que eu mesmo me pego falando baixinho, mas isso não pode acontecer”, afirma a atriz, que foi casada com Waddington e é mãe de Pedro. "Precisamos falar bem alto porque tratamos de vida e não de morte."

Waddington ressalta que muito mudou no comportamento dos jovens nas últimas décadas, principalmente depois da popularização da internet - e, muitas vezes, os pais não se dão conta destes efeitos na rotina dos filhos. A principal diferença é o aumento da solidão. “Na minha adolescência, nos anos de 1970, encontrei os amigos na praia ou nos bares para discutir os livros que lia e as músicas que ouvia”, lembra. "O cotidiano dos adolescentes sempre foi dividido entre a casa, a escola e a rua, só que, agora, a rua foi ressuscitada pelo quarto e o computador."

O diretor é pai de dois filhos de gerações diferentes. A primeira, Isadora, de seu casamento com a ex-atriz e psicóloga Lídia Brondi, tem 41 anos e nasceu em um tempo em que a internet nem existia. Pedro, de 28 anos, cresceu junto à febre digital e, mesmo que teve uma infância menos solta que a de Isadora, desfrutou de certa liberdade. “Eu sempre fui presente na criação dos dois e acho que consegui antecipar situações delicadas”, declara.

Helena, de 59 anos, concorda com o pai do seu filho e confirma a importância de uma rede de apoio para que os jovens se sintam seguros diante do sinal de qualquer dificuldade. "Já passei por momentos em que percebi o Pedro frágil emocionalmente e fiz o que pude para acolhê-lo", afirma. "Essa peça me toca até mais como mãe porque nos mostra que é necessário estar atento a qualquer movimento dos nossos filhos."

Quem pensa que Waddington, experiência na televisão, só agora testa as curiosidades nos palcos está enganado. Ele começou uma carreira no teatro infantil. Dirigiu peças como Um Telefonema para o Japão e Alguns Anos Luz Além, entre 1980 e 1982, e, para as plateias adultas, encenou Descalços no Parque, comédia romântica protagonizada por Lídia Brondi e Thales Pan Chacon (1956-1997) em 1990. Por quatro décadas, foi um dos principais nomes da Rede Globo, chegando a cargos executivos, como o de coordenador de teledramaturgia e diretor dos Estúdios Globo, função ocupada na época do seu desligamento, em 2023. “Foi uma saída tranquila, que eu já vinha organizando há 3 anos, inclusive financeiramente”, garante.

Produções marcantes, como as novelas Laços de Família, A Favorita e Avenida Brasil, a minissérie Presença de Anita, e o programa Amor e Sexo, levaram a sua assinatura. Mas foi uma bagagem adquirida nos 10 anos que esteve à frente da novela adolescente Malhação, toda a década de 2000, a que mais contribuiu para o entendimento de #malditos16. Na sua gestão, o programa trouxe polêmicas, como bullying, homossexualidade, HIV e interrupção da gravidez e, segundo ele, nenhuma discussão era proibida. O que mudava era a forma de tratá-la.

"Aprendi a falar com um público gigante na TV e preciso ter cuidado ao abordar a saúde mental dos jovens", regularmente. "Os 50 minutos do capítulo de uma novela não são suficientes para certos conteúdos, como o suicídio, mas o teatro propicia uma experiência contínua que ajuda a pessoa a não ir para a casa com a cabeça cheia de demônios."

Em meio aos ensaios de #malditos16, Waddington desenvolve jornada dupla no projeto que marca seu retorno à Globo, desta vez contratado por obra. Ele será o diretor de Avenida Brasil 2, continuação das características do romancista João Emanuel Carneiro ambientado em 2012, que retoma a trama de vingança e rivalidade entre a chef de cozinha Nina e a madrasta Carminha (interpretadas por Débora Falabella e Adriana Esteves).

As gravações começaram em setembro para estrear em janeiro, e Waddington desvia do assunto para não deixar escapar nenhum spoiler. “O João Emanuel está afiadíssimo e vai ser muito bom”, garante. "Estou voltando à TV porque adoro me relacionar com os atores, comandar um set e isto eu aprendi no teatro."

Helena, que trabalhou com Waddington em pelo menos dez produções televisivas, revela que conheceu um novo parceiro nos ensaios de #malditos16. “É uma outra forma de enxergar o processo e se colocar diante de nós, atores e atrizes, mais tranquila e focada”, compara.

Sobre trabalhar com Pedro, que estreou nos palcos de O Retorno, peça do norueguês Fredrik Brattberg dirigida por José Roberto Jardim em janeiro deste ano, Waddington dispensa a preocupação em separar os papéis de pai e diretor. “Eu quero justamente ter essa experiência ao lado do meu filho”, garante. "Se buscasse algo diferente, escalaria outro ator."

#malditos16

- Onde: Teatro Faap. Rua Alagoas, 903 - Higienópolis

- Quando: Quarta e quinta, 20h. De 16/4 a 4/6

- Quanto: R$ 100

Onde buscar ajuda

Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:

Centro de Valorização da Vida (CVV)

Se precisar de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.

Canal Pode Falar

Iniciativa criada pelo Unicef ​​para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.

SUS

Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis.

Mapa da Saúde Mental

O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.