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Novo filme de diretor de 'Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança' é pessoal e cheio de afeto

23/03/2026
Novo filme de diretor de 'Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança' é pessoal e cheio de afeto
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Toda noite, antes de dormir, o cineasta francês Michel Gondry ligava para a filha Maya. Pai e filha vivem em países diferentes e a distância exigia criatividade para se fazer presente. Foi então que o diretor, o mesmo de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança, inventou um jogo: toda noite, pedia à garota que lhe desse um título. Um título para um filme. E Maya respondia.

A primeira vez que a mãe de Maya a filmou com a câmera do celular para registrar o momento, a garota tinha três anos. Ela olhou para a câmera e disse, com toda a naturalidade do mundo: "Maya e o Terremoto". Gondry ficou encantado. "Decidimos continuar com os mesmos conceitos ao longo do tempo", conta ele ao Estadão. E continuaram por seis anos.

Desses títulos nasceram curtas animados. Dos curtas animados nasceu um longa. E agora, Maya, Me Dê Um Título pode ser visto nos cinemas brasileiros.

Um filme feito de recortes e afeto

A animação de Gondry é imediatamente reconhecível: feita à mão, com recortes de papel, texturas imperfeitas e uma lógica que pertence ao mundo dos sonhos. Maya vive aventuras que transitam por diferentes gêneros cinematográficos - tem catástrofe, aventura, fantasia - e todas elas são atravessadas pelo humor e por uma leveza que só aparece quando a pessoa que está contando a história acredita de verdade naquilo que está fazendo.

E Gondry acredita. Quando perguntado se a escolha pela técnica artesanal era uma declaração política contra a padronização visual da animação contemporânea - o mundo dos CGIs polidos e das superfícies perfeitas -, o diretor foi direto. "É uma ferramenta que tenho acesso e que utilizo", diz. Sem manifesto. Sem postura. Só o prazer do fazer.

Mas há algo mais profundo nessa escolha, mesmo que Gondry não a verbalize assim. Existe uma coerência entre a forma e o conteúdo: um filme sobre uma brincadeira íntima entre pai e filha, construído com as mãos, quadro a quadro, como quem dobra um papel de carta antes de colocar no envelope.

Criar um personagem que você já conhece de cor

Uma das perguntas que Maya, Me Dê um Título naturalmente provoca é: como se anima alguém que existe de verdade? Como se transforma uma criança real numa personagem sem trair nenhuma das duas?

Gondry tem uma resposta que diz muito sobre como ele pensa cinema. "Quando você faz um longa-metragem live-action, você tem o roteiro com o personagem descrito. Você não quer que o ator siga o roteiro ao pé da letra, porque isso vai soar forçado. Mas também não quer mudar demais o roteiro para se ajustar à personalidade do ator. Então, eles precisam se encontrar no meio do caminho", explica.

Na animação, esse problema não existe. "Você cria o personagem ao mesmo tempo em que cria a história. Felizmente, eu tenho a Maya, e eu sei como ela é, sua personalidade. Assim, criei a história ao redor dela", conta.

Curiosamente, o diretor recusa a ideia de que estava "traduzindo" o pensamento de uma criança. "Não vejo minha filha como uma criança quando animo ou crio uma história. Faço esses filmes exatamente como se fossem para mim", diz. "Geralmente, as crianças captam muito mais do que você imagina. O que sobra é um ótimo assunto para conversa".

É uma observação simples, mas que subverte algo que o cinema infantil frequentemente esquece: crianças não precisam ser subestimadas.

O momento em que o privado se torna universal

Por muito tempo, esses curtas existiram apenas para um pequeno círculo - Maya, sua mãe, os avós, amigos próximos. A ideia de transformar tudo isso num filme veio tarde. "Ao fim de tudo, depois do último curta, percebi que a conexão que Maya e eu vivenciamos tinha algo de universal, mesmo que os pais não passem meses trabalhando nisso", conta Gondry.

Há algo de pudor nessa confissão - a ideia de que o filme não nasceu de uma ambição, mas de um reconhecimento tardio de que aquilo que havia sido feito por amor poderia também ser compartilhado. "Quando faço algo, fico feliz se qualquer pessoa puder vê-lo", diz ele. "Chega até a Maya, aos avós dela, à mãe dela, aos meus amigos, ao público."

Esse senso de generosidade atravessa o filme inteiro. Não é um filme sobre um pai famoso e sua filha. É um filme sobre a persistência do afeto diante da distância e sobre como a imaginação pode ser uma forma de presença.

Uma página que virou

Maya tem nove anos hoje. Gondry conta que ela não quer mais os filmes - chegou a uma idade em que essa brincadeira pertence ao passado. "A página virou", ele diz, com tranquilidade. "Foi um período da vida dela, dos três aos nove anos."

Mas ele não parece triste com isso. "Acho que ela vai assistir de novo quando for mais velha, mostrar para os amigos", arrisca. "Então eles vão continuar existindo", finaliza.