RJ em Foco
Voo livre não é fiscalizado pela Anac; bombeiros atenderam a um acidente a cada 20 dias este ano no Rio
Em São Conrado, um instrutor e um turista morreram após queda na Pedra Bonita
Um turista argentino e um instrutor de asa-delta morreram, na manhã de ontem, durante um voo em São Conrado. Luiz Eduardo Rodrigues dos Santos, de 45 anos, havia decolado da Pedra Bonita levando Adrian Guillermo Arismendi, de 26. Na aproximação para o pouso, os dois colidiram com a mureta de concreto que separa a areia da praia do calçadão, um desnível de aproximadamente 2,5 metros. O instrutor e o turista ainda foram socorridos pelos bombeiros e levados para o Hospital municipal Miguel Couto, na Gávea, mas não resistiram aos ferimentos. Adrian, natural da cidade de Puerto Deseado, estava no Rio desde domingo, acompanhado de cinco amigos. Todos voaram antes do rapaz e pousaram sem problemas.
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O acidente foi o segundo em quatro dias envolvendo voos na Pedra Bonita. Na última quinta-feira, duas mulheres, uma instrutora e sua passageira, tiveram fraturas após saltarem de parapente da rampa. Na aproximação para o pouso, elas perderam altitude e bateram no calçadão. Entre janeiro e outubro, segundo o Corpo de Bombeiros, foram 15 atendimentos a praticantes de voo livre em toda a cidade, média de um a cada 20 dias.
Apesar da frequência nos acidentes, os voos não têm fiscalização. A Agência Nacional de Aviação (Anac) regulamenta, mas não controla a prática. Para a Anac, o “voo livre em asa-delta ou parapente é considerado uma modalidade de esporte radical e de alto risco e fortemente dependente das condições meteorológicas e geográficas locais”.
O órgão federal apenas define alguns limites das áreas de voo, para não haver problemas de invasão de rotas usadas por aviões e outras aeronaves, além de cobrar um cadastro do piloto de voo livre em associações credenciadas por ela, como a Confederação Brasileira de Voo Livre, que tem parceria com o Clube São Conrado de Voo Livre, responsável por administrar a rampa da Pedra Bonita.
Gerenciamento de risco
A Anac proíbe a comercialização de voos panorâmicos de asa-delta. A agência, porém, permite os voos duplos de instrução, pelos quais turistas pagam cerca de mil reais no local. Da rampa da Pedra Bonita, instalada no Parque Nacional da Tijuca, são feitas 60 mil decolagens por ano.
O Clube de Voo Livre e o ICMBio, responsável pelo Parque Nacional da Tijuca, cobram regras extras. Só pilotos com carteiras de entidades ligadas à Federação Aeronáutica Internacional (FAI) são permitidos. A Anac entende que “desde que preservada a competência regulatória da Anac, é legítima a criação, por parte de outros entes, de eventuais exigências adicionais restritas à sua área de atuação”.
Em um ofício endereçado ao Ministério Público Federal, que recebeu uma notícia-crime sobre a operação de voos na Pedra Bonita, a Anac informou que não possui capacidade de fiscalizar o uso das rampas para a prática no país.
No documento, assinado por Fábio Fagundes dos Santos, um dos gerentes de Operações da agência, em maio deste ano, ele alerta que, como os equipamentos não passam por processo de certificação, caso sejam utilizados por mais de uma pessoa, “todos os envolvidos devem ser conscientizados da natureza desportiva da atividade e de que a Anac não garante a segurança da operação, sendo o piloto e a aeronave desprovidos de qualquer certificado de capacidade técnica reconhecido pela Anac, cabendo aos praticantes a responsabilidade pelo gerenciamento do próprio risco”.
Curva radical
No último ano, outros quatro acidentes deixaram quatro mortos. Em agosto, o coronel da reserva do Exército Álvaro Roberto Cruz Ferreira Lima, de 63 anos, afogou-se após pousar no mar. Ele teria sido atingido por uma linha de pipa próxima à área de pouso. No início do ano, o instrutor Rodolfo Pascoal Ladeira e a turista americana Jenny Colón Rodríguez também morreram após caírem no mar de São Conrado durante o pouso. Ele era recordista de parapente e possuía mais de 16 anos de experiência.
Outro campeão do esporte, Philip Eric Haegler sofreu um acidente em novembro de 2025 e morreu após se chocar contra um prédio na orla de São Conrado e cair de uma altura de 250 metros. Ele era um dos nomes mais reconhecidos do voo livre no Brasil. A investigação da 15ª DP (Gávea) concluiu que Haegler foi atingido por uma asa-delta pilotada pelo instrutor Sergio Manoel da Silva, que admitiu ter se distraído pouco antes do choque ao ajustar um item do passageiro que estava com ele. O homem foi indiciado por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.
Ainda houve casos de acidentes na região de outras modalidades de voos livres que não são autorizadas a decolarem da rampa. Em 2024, José de Alencar Lima morreu ao saltar de outro ponto do local com um speed-fly, equipamento parecido com um parapente.
Presidente do Clube São Conrado de Voo Livre, Bruno Menescal, lembra que o esporte ficou por 12 anos sem registros de acidentes com mortes na região. Ele chefia a Diretoria de Segurança e Operação do clube. Os incidentes, como falhas nas decolagens, eram cerca de 60 quatro anos atrás; o número caiu para 16 episódios em 2026.
Antes do acidente de ontem, Menescal relatou que, a cada problema registrado, o clube abre uma investigação, semelhante ao que é feito na aviação comercial pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).
— Infelizmente tivemos três casos com fatalidades decorrentes de falha humana. Não existe lugar no Brasil com regras rigorosas como as nossas, mas tudo muda a partir do momento que você tem um ser humano envolvido — afirmou ele.
Em depoimento ontem na 15ª DP, Menescal informou que Luiz Eduardo já pilotava há dez anos, mas havia obtido a carteira de instrução há somente um. Segundo ele, pilotos contaram que a asa-delta com Luiz Eduardo e Adrian realizou uma curva a baixa altura. Em seguida, o equipamento glissou — deslizou de forma suave — e colidiu com a mureta.
Luiz Eduardo começou no voo livre como “'resgate”', o ajudante responsável por montar e desmontar asa-deltas e levar e trazer pilotos e passageiros entre a Pedra Bonita e São Conrado. Por cada voo, os ajudantes recebem em média R$ 30.
O clube recuperou duas câmeras que podem ter filmado o acidente. Segundo Bruno, os primeiros indícios sugerem imperícia de Luiz Eduardo, já que as condições climáticas eram perfeitas.
— As imagens vão esclarecer, mas ele pode ter errado ao fazer uma curva mais radical à baixa altura, um erro de avaliação. Uma asa se aproximando do solo atinge velocidade de 60 km/h, mas ele errou e bateu forte no muro. Se tivesse atingido a areia, talvez não tivéssemos tido essa consequência. Mas não sabemos se ele pode ter tido um mal súbito também — lamentou. — O Luiz Eduardo era muito prestativo.
No último domingo, O GLOBO esteve na rampa da Pedra Bonita. O local foi recentemente reformado e há sinalização e fiscais para auxiliar nas decolagens. Quase todos os voos eram feitos com turistas. Ao chegar, o aluno é equipado com os itens de segurança por cada instrutor, que dedica alguns minutos a mostrar como é feita a corrida para a decolagem. Antes de se lançarem, um fiscal verifica se os itens de segurança estão presentes, como o paraquedas de emergência.
— Se ele chega nesse ponto com algum erro, é advertido e precisa vir prestar esclarecimentos. E, com esses acidentes recentes, limitamos pela metade a quantidade de voos de instrução que o piloto pode fazer diariamente — explicou Menescal, defendendo que a Anac autorize que o Clube Brasileiro de Voo Livre regulamente o esporte.
Rampa foi fechada
A gestão da rampa feita pelo clube de São Conrado é alvo de críticas de alguns dos pilotos independentes. Quem não é associado precisa pagar uma taxa de R$ 50 por voo solo ou R$ 120 no caso de instrução. O clube alega que a taxa é necessária para a manutenção e melhorias do local e que possui 34 funcionários para fazer a operação dos voos.
O Parque Nacional da Tijuca é gerido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), que fez um acordo de cooperação com o clube para a gestão do local até o fim do ano. De acordo com Menescal, há tratativas para renovação.
O imbróglio chegou a ser investigado pelo Ministério Público do Trabalho, que entendeu não ter competência para atuar, mas encaminhou o inquérito ao Ministério Público Federal para apurar se há irregularidades na gestão da rampa.
Na área de decolagem também há avisos explicando a classificação da autorização de voo em bandeiras, parecidas com as que os Bombeiros usam para sinalizar os locais de banho no mar. Em perfeitas condições, é hasteada uma bandeira verde.
Se há ventos mais fortes, entre 15km/h e 25km/h, a bandeira amarela é levantada, indicando a “máxima cautela para a prática do voo livre”. Acima disso, a rampa é fechada; o mesmo acontece quando o solo não é visível.
Depois do acidente de ontem, as atividades de voo livre foram suspensas por tempo indeterminado em São Conrado. O equipamento vai passar por perícia e testemunhas estão sendo ouvidas.
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